Há uma geração entre nós que carrega algo raro: a capacidade de ter vivido oito décadas diferentes, dois séculos e dois milênios. Uma geração que atravessou da infância analógica para a maturidade digital, que saiu do telefone com operadora para a câmera no bolso, do vinil para o streaming, da carta escrita à mão para o WhatsApp. Uma geração que viveu mudanças que nenhuma outra viveu com a mesma intensidade.
E não foi apenas tecnologia. Foram mudanças de mundo, de mentalidade, de trabalho, de corpo e de espírito. Foram transformações que moldaram não apenas comportamentos, mas uma sabedoria que só nasce de quem viu muita coisa, enfrentou muita coisa e, principalmente, aprendeu a continuar.
Essa geração — que nasceu entre os anos 30 e 70 — viu a vida mudar de roupa várias vezes. Na juventude, experimentou os primeiros computadores, os primeiros carros automáticos, as primeiras vacinas decisivas. Navegou entre crises econômicas, mudanças sociais profundas, novas formas de criar filhos e novas formas de trabalhar. E, mesmo assim, seguiu firme.
Quando penso nesse percurso, lembro algo que escrevo no meu livro: existe um valor enorme naquelas pessoas que foram capazes de atravessar tantos tempos sem se perder de si mesmas. Elas são literalmente pontes vivas entre eras. São o ponto de encontro entre passado, presente e futuro. E, ao contrário do que muitos imaginam, não são apenas “idosos”: são arquivos vivos de sabedoria, adaptabilidade e resistência.
Thomas Edison dizia que “o valor de uma vida está no que você deixa iluminado para os outros”. E se existe uma geração que iluminou caminhos, foi essa. No trabalho, na família, na sociedade, no cuidado com os outros. Eles foram moldando novas formas de fazer, de aprender e de ensinar.
Mas há algo mais profundo. O tempo ensina a olhar para a vida de outro jeito. Ensina que sexta-feira chega rápido demais. Que os anos passam como um sopro. Que antigas amizades viram lembranças. Que o amor que se perdeu às vezes não volta mais. Que adiar pode ser o maior desperdício de todos.
É aqui que a mensagem do seu amigo toca no centro do que importa: não temos mais idade para adiar nada. Mas, na verdade, ninguém tem. Porque a vida não espera. O tempo não para.
E se existe uma lição que essa geração nos entrega, é esta: viver vale a pena quando a gente participa do tempo, e não apenas atravessa por ele. Quando a gente decide, não posterga. Quando a gente respira antes de agir, mas age. Quando a gente cuida de quem ama ainda hoje, e não quando der. Quando a gente manda a mensagem agora, e não “depois”. Quando a gente visita quem importa agora, e não “no mês que vem”.
O segredo não está em viver muito. Está em viver presente.
Desejo que seu 2026 seja um ano para honrar quem viveu antes, para aprender com quem já viu o mundo mudar muitas vezes e, acima de tudo, para tomar as decisões que ainda estamos adiando. Que seja um ano para respirar fundo, agir com sabedoria e construir pontes — porque o futuro sempre pertence a quem não deixa a vida para depois.
Folha de Florianópolis
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