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Sexta-feira, 19 de Junho 2026
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A infância que descuidamos cobra a conta da sociedade adulta
Coluna do Guga Dias
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A infância que descuidamos cobra a conta da sociedade adulta

Uma sociedade que abandona a infância, despreza seus velhos e ridiculariza o conhecimento não produz liberdade. Produz adultos frágeis, instituições fracas e multidões fáceis de manipular.

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É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.”
— Provérbio africano

Talvez uma das nossas grandes ilusões modernas seja acreditar que o futuro começa na tecnologia, na economia, na política ou nas grandes reformas administrativas. Tudo isso importa. Mas o futuro começa antes. Bem antes! Começa na forma como uma criança é tratada, escutada, limitada, acolhida, corrigida e ensinada a perceber o mundo.

A infância não é uma fase descartável da vida. Muito menos nos cantos escuros de uma memória humana equecida. Também não é apenas um período de inocência romantizada, como se bastasse proteger a criança de qualquer frustração para formar um adulto saudável. A infância é uma estrutura de formação. É nela que se constroem parte importante da confiança, do medo, da autoestima, da capacidade de convivência, da relação com a autoridade, da tolerância ao limite e da compreensão de pertencimento a algo maior do que a própria vontade.

Por isso, quando falamos de infância, não estamos falando apenas de família. Estamos falando de sociedade. Uma criança desamparada emocionalmente, abandonada intelectualmente ou educada sem referência de responsabilidade não carrega sozinha as consequências dessa formação. O resultado aparece depois, nas escolas, nas empresas, nas ruas, nas instituições, nas relações familiares, na política e na incapacidade crescente de convivermos com quem pensa diferente.

Há na natureza uma imagem que deveria nos constranger. As manadas de elefantes, especialmente entre os africanos, são organizadas em torno de vínculos sociais fortes, proteção dos filhotes e liderança das fêmeas mais velhas. A matriarca não lidera porque grita mais alto, porque ocupa espaço pela aparência ou porque domina pela força. Ela lidera porque carrega memória, experiência e capacidade de orientar o grupo diante dos riscos. Os filhotes são protegidos. Os mais velhos são respeitados. O grupo sobrevive porque reconhece que a força coletiva depende justamente do cuidado com os mais vulneráveis e da escuta de quem já atravessou caminhos difíceis.

Nós, humanos, gostamos de nos definir como racionais. Criamos cidades, algoritmos, satélites, empresas globais e discursos sofisticados sobre futuro. Ainda assim, fracassamos repetidamente no básico. Temos dificuldade de proteger a infância, de respeitar a velhice, de valorizar o professor, de preservar a autoridade legítima e de reconhecer o estudo como instrumento real de transformação.

No Brasil, esse fracasso não nasceu ontem. Ele foi se acumulando por décadas. Perdemos, pouco a pouco, o respeito pela educação de verdade. Confundimos diploma com formação, opinião com conhecimento, barulho com coragem, fama com autoridade e engajamento com relevância. O livro passou a ser tratado por muitos como peso, o estudo como obrigação desagradável, o professor como obstáculo, a escola como arena de disputa e a cultura como enfeite para momentos solenes.

O resultado é uma sociedade que fala muito e lê pouco, reage muito e pensa pouco, acusa muito e escuta pouco. Uma sociedade que despreza método acaba seduzida por atalhos. Uma sociedade que enfraquece suas referências acaba governada por personagens. Uma sociedade que abandona a formação intelectual acaba vulnerável a falsos profetas, gurus de ocasião e influenciadores que vendem glamour, raiva, ressentimento ou sucesso instantâneo como se fossem verdade.

A pós verdade não prospera apenas porque existem mentirosos. Ela prospera porque há um ambiente cultural preparado para aceitá-la. Quando a leitura perde prestígio, quando o estudo perde valor, quando a autoridade técnica é tratada como inimiga e quando a experiência dos mais velhos é descartada como atraso, a mentira encontra terreno fértil. Não precisa vencer a verdade no argumento. Basta chegar antes, emocionar mais, simplificar melhor e confirmar aquilo que muitos desejam ouvir.

Esse é o ponto em que infância, educação e vida pública se encontram. Uma criança que cresce sem aprender a lidar com frustração tende a se tornar um adulto incapaz de aceitar limite. Uma criança que cresce sem escuta pode se tornar um adulto que transforma qualquer discordância em ameaça. Uma criança que cresce sem referência de estudo pode se tornar um adulto seduzido por respostas fáceis. Uma criança que cresce sem autoridade legítima pode se tornar um adulto que oscila entre a submissão ao líder carismático e a rejeição infantil a qualquer regra.

Aqui é preciso fazer uma distinção essencial. Respeitar autoridade não é defender autoritarismo. Autoridade legítima nasce de responsabilidade, conhecimento, experiência, função social e exemplo. Autoritarismo nasce do medo, da imposição e do abuso. Uma sociedade madura não obedece cegamente, mas também não transforma toda referência em suspeita, todo limite em opressão e toda regra em violência contra a vontade individual.

O que perdemos, em grande parte, foi essa maturidade. Pais que deveriam formar preferem, muitas vezes, agradar. Autoridades que deveriam orientar preferem aparecer. Instituições que deveriam educar preferem administrar crises. Políticos que deveriam servir preferem mobilizar ressentimentos. Influenciadores que deveriam ter compromisso com responsabilidade comunicacional preferem a estética da certeza absoluta. E, enquanto isso, crianças crescem aprendendo que imagem vale mais que caráter, performance vale mais que verdade e opinião vale mais que estudo.

Não se trata de defender uma volta nostálgica a um passado idealizado. O passado também teve seus erros, violências, silêncios e injustiças. A questão é outra. Trata-se de compreender que nenhuma sociedade avança quando rompe completamente com a ideia de formação. Crianças precisam de afeto, mas também precisam de limite. Precisam de liberdade, mas também precisam de direção. Precisam de proteção, mas também precisam aprender responsabilidade. Precisam de tecnologia, mas também precisam de livros, conversa, exemplo, presença e tempo.

Uma sociedade de futuro não será construída apenas com inovação, conectividade e crescimento econômico. Ela exigirá adultos emocionalmente mais maduros, intelectualmente mais honestos e socialmente mais responsáveis. Exigirá famílias menos reféns da aparência, escolas mais respeitadas, professores mais valorizados, instituições mais firmes e lideranças menos interessadas em aplauso imediato.

Cuidar da infância, portanto, não é uma pauta sentimental. É uma estratégia civilizatória. É compreender que cada criança que aprende a pensar, sentir, respeitar, estudar e conviver amplia a chance de termos um país menos histérico, menos manipulável e menos hostil à verdade. E cada criança abandonada à pressa, à tela, à mentira fácil, à ausência emocional e ao desprezo pelo conhecimento aumenta a conta que a sociedade adulta terá de pagar depois.

Talvez os elefantes tenham entendido algo que nós, com toda a nossa tecnologia, parecemos esquecer. Nenhum grupo sobrevive por muito tempo quando abandona os pequenos, despreza os velhos e transforma a verdade em inimiga do conforto.

Jogo que segue…

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: Harvard Center on the Developing Child. Toxic Stress. Referência sobre adversidades fortes, frequentes ou prolongadas na infância e a importância das relações de apoio para amortecer seus efeitos no desenvolvimento infantil. Centers for Disease Cont
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem autoral criada por inteligência artificial, uso editorial.

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Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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