A mentira política mais eficaz não é aquela que inventa do zero. É aquela que parte de algo real, remove o que atrapalha, acrescenta o que mobiliza e entrega o resultado embalado como se fosse o fato bruto, sem mediação, sem corte, sem intenção. Esse é o modelo que se consolidou no Brasil nos últimos anos, e entendê-lo exige olhar para casos concretos, porque é nos casos concretos que o mecanismo deixa de ser abstrato e se torna reconhecível.
Comece pelo controle da narrativa em torno do Supremo Tribunal Federal. Durante anos, qualquer crítica ao comportamento de ministros da corte foi sistematicamente enquadrada não como discordância jurídica legítima, mas como ataque à democracia. O mecanismo é preciso: ao fundir a instituição com o valor que ela supostamente representa, cria-se uma proteção simbólica que torna a crítica moralmente custosa antes mesmo de ser respondida.
Decisões monocráticas que suspenderam investigações, inquéritos abertos sem base legal clara no regimento interno, interpretações que expandiram competências além do que a Constituição prevê de forma explícita, tudo isso foi debatido, quando foi debatido, dentro de um enquadramento que já havia decidido de antemão quem eram os defensores da ordem e quem eram os inimigos dela. O debate jurídico foi convertido em disputa moral, e nessa conversão quem saiu perdendo foi a possibilidade de análise séria.
As eleições de 2022 ofereceram um laboratório ainda mais revelador. A construção narrativa em torno do processo eleitoral seguiu uma sequência que Lippmann reconheceria imediatamente. Primeiro, estabeleceu-se o enquadramento central: qualquer questionamento sobre o sistema eletrônico de votação seria, por definição, um ataque à democracia e um ensaio de golpe. Esse enquadramento foi repetido com volume e consistência suficientes para que se tornasse ambiente.
Em seguida, a discordância foi isolada com eficiência. Figuras públicas, juristas e militares que levantaram dúvidas técnicas, independentemente da qualidade de seus argumentos, foram inseridos automaticamente na categoria dos inimigos da ordem democrática, o que encerrava o debate antes que ele começasse. O resultado foi que uma parcela significativa da população chegou ao dia da eleição habitando o pseudoambiente que Lippmann descreveu, um espaço onde certas perguntas simplesmente não podiam ser feitas sem custo imediato.
O enquadramento da pauta fiscal seguiu lógica semelhante. Quando o atual governo desfez o teto de gastos e substituiu-o por uma regra fiscal mais flexível, a narrativa que acompanhou essa decisão foi construída sobre a linguagem da responsabilidade social, do investimento no povo, da superação do austericídio.
Os números concretos, a trajetória da dívida pública, o impacto sobre os juros, o custo para as gerações futuras, foram sistematicamente deslocados para o segundo plano ou enquadrados como argumentos de quem defende os ricos contra os pobres. A discussão técnica foi moralizada, e uma vez moralizada, ela deixou de ser acessível à maioria das pessoas que seriam diretamente afetadas por ela. Esse é um movimento gramsciano clássico: converter uma disputa de fatos numa disputa de valores, porque nas disputas de valores quem controla a linguagem já chegou na frente.
O uso das redes por movimentos ligados ao atual regime completou o ciclo com uma eficiência que merece ser examinada sem simplificação. Não se trata apenas de robôs ou perfis falsos, embora esses elementos existam e tenham sido documentados. Trata-se de uma arquitetura de amplificação que funciona pelo alinhamento descrito anteriormente, onde discurso político, produção de conteúdo e distribuição digital caminham na mesma direção sem que seja necessário coordenar cada peça individualmente.
Influenciadores alinhados recebem acesso, visibilidade e ocasionalmente recursos públicos indiretos por meio de contratos e parcerias com estatais. Veículos simpáticos ao governo recebem publicidade institucional em volume desproporcional. Plataformas são pressionadas, com maior ou menor sucesso, a tratar conteúdo crítico de forma diferente do conteúdo favorável. O resultado não é uma mentira única e identificável. É um clima, uma atmosfera, uma sensação difusa de que determinadas versões da realidade são mais naturais, mais razoáveis e mais legítimas do que outras.
O caso da narrativa construída em torno da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro ilustra como esse ambiente funciona na prática. Independentemente do julgamento político que cada um faça sobre ele, o que é analiticamente interessante é observar como o enquadramento operou. Declarações foram retiradas de contexto com uma consistência que não pode ser atribuída ao acaso.
Episódios foram amplificados de forma seletiva enquanto outros de natureza similar, envolvendo figuras do lado oposto, receberam tratamento editorial radicalmente diferente. A régua dupla que descrevemos anteriormente, onde um lado é julgado pelas intenções e o outro pelos resultados, operou de forma tão sistemática que se tornou ela própria um dado político relevante, independentemente de qual seja sua causa.
O que torna esse conjunto de estratégias particularmente eficaz no Brasil é uma combinação de fatores que tornam o país terreno especialmente fértil. A concentração dos grandes veículos de comunicação em torno de posições editoriais similares reduz a pluralidade real do debate público muito além do que a quantidade de títulos disponíveis sugeriria.
A baixa cultura de verificação independente de fontes, resultado de décadas de educação deficiente, torna o público mais vulnerável ao enquadramento prévio. E a velocidade das redes sociais garante que a versão inicial de qualquer evento, geralmente a mais emocional e a menos completa, seja também a mais distribuída e a mais lembrada.
Gramsci escreveu que o poder intelectual e moral de uma classe se consolida quando ela consegue apresentar seus interesses particulares como os interesses universais da sociedade. O que se observa no Brasil contemporâneo é exatamente esse processo em curso, com ferramentas que Gramsci não poderia ter imaginado mas com uma lógica que ele descreveu com precisão décadas antes de existirem algoritmos, plataformas ou influenciadores digitais.
A narrativa do combate à desigualdade, da defesa da democracia e da proteção dos mais vulneráveis funciona como escudo simbólico para decisões que frequentemente contradizem esses valores na prática, e esse escudo é mantido não pela força, mas pelo controle do ambiente dentro do qual o debate ocorre.
O que vem pela frente é ainda mais importante de compreender do que o que já passou. As eleições de 2026 se aproximam num contexto em que a máquina narrativa descrita ao longo deste texto já está em operação, ajustando motores e testando mensagens. O governo federal destinou recursos públicos significativos à contratação de influenciadores digitais, muitos deles sem qualquer formação jornalística, sem método de verificação e sem compromisso declarado com a separação entre informação e propaganda.
Esses contratados não são apresentados ao público como porta-vozes do governo, o que seria ao menos transparente. Eles aparecem como vozes independentes, como cidadãos comuns que chegaram espontaneamente às mesmas conclusões, o que é precisamente o modelo de influência que mais dificulta o ceticismo do receptor.
A estrutura que será usada em 2026 já existe e já opera. Os temas mobilizadores estão sendo testados nas redes. Os enquadramentos já estão sendo calibrados. Os adversários estão sendo posicionados no lugar que lhes foi reservado na narrativa. E a rede de vozes que repetirá essas mensagens com variações superficiais já está sendo remunerada, direta ou indiretamente, com dinheiro que pertence ao contribuinte brasileiro, incluindo aqueles que serão o alvo da própria campanha que esse dinheiro financia.
Diante disso, a única proteção real disponível ao eleitor é a verificação independente e sistemática, não ocasional, não seletiva, mas como hábito. Isso significa buscar a fonte primária antes de compartilhar qualquer informação que confirme o que você já acredita, porque é exatamente aí que a armadilha está mais bem colocada. Significa comparar o enquadramento que um mesmo fato recebe em veículos de linhas editoriais diferentes, não para encontrar uma verdade no meio, mas para identificar o que cada versão escolheu omitir. Significa perguntar, diante de qualquer narrativa que chegue pronta e embalada, quem se beneficia se eu acreditar nisso sem questionar.
O eleitor brasileiro de 2026 não precisará ser especialista em comunicação política para se defender. Precisará apenas desenvolver o hábito de desconfiar da versão que chega fácil demais, que encaixa perfeitamente demais, que já vem com o vilão identificado e com a conclusão moral embutida. Porque quando uma narrativa não deixa espaço para dúvida, quando questionar parece errado antes mesmo de você formular a pergunta, é exatamente aí que o trabalho de alguém foi bem feito.
E reconhecer isso, por si só, já é um começo.
Folha de Florianópolis
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