O artigo publicado pelo O Estado de S. Paulo alerta para um diagnóstico incômodo: o Brasil segue atrasado em matemática. Mesmo com programas recentes, grande parte dos estudantes conclui a educação básica sem dominar os conhecimentos necessários para a vida, para o trabalho e para a inovação científica.
Mas há um ponto essencial que o debate público ainda trata como secundário — quando, na verdade, ele é estruturante:
não se trata apenas do que se ensina, mas de como a matemática é vivida emocionalmente na escola.
Esse fenômeno tem nome: ansiedade matemática.
E foi exatamente ele o foco — e a defesa principal — da tese que desenvolvi e apresentei na Universidade Federal de São Carlos.
O que o jornal revela — e o que a tese defende
O artigo do Estadão é preciso ao afirmar que déficits em matemática comprometem a produtividade do país e nossa capacidade de inovar. Entretanto, olhando os dados de perto, percebemos que:
falta de aprendizagem e ansiedade matemática caminham juntas — e se alimentam mutuamente.
Na tese, investiguei estudantes do 5º ano ao Ensino Médio, em dois momentos diferentes durante a pandemia. O que encontrei foi contundente:
- níveis significativos de ansiedade matemática;
- maior incidência entre meninas;
- persistência da ansiedade mesmo depois do retorno presencial.
Ou seja, não é apenas uma “crise pedagógica”: é também uma crise emocional associada à matemática, construída ao longo da trajetória escolar.
E aqui está o núcleo da defesa da tese:
sem enfrentar a ansiedade matemática, nenhuma política de ensino conseguirá produzir ganhos consistentes de aprendizagem.
O problema não é o aluno — é o arranjo de ensino
Práticas ainda comuns reforçam o medo:
- exposições públicas que transformam o erro em constrangimento;
- avaliações que punem mais do que orientam;
- valorização da rapidez, e não da compreensão;
- discursos implícitos de que “matemática é para poucos”.
O efeito é conhecido: esquiva, baixa autoeficácia, desinteresse e abandono de carreiras ligadas à ciência e tecnologia.
A tese defende que a escola precisa migrar do modelo “tentativa e erro punitivo” para o modelo “tentativa e acerto com feedback seguro”. Isso muda a experiência emocional do estudante — e, com ela, o desempenho.
O que propomos — uma inovação de política pública
A defesa central é que ansiedade matemática deve ser tratada como indicador educacional, ao lado de desempenho. Isso implica:
- Formação docente para reconhecer e manejar ansiedade acadêmica.
- Intervenções comportamentais com reforçamento positivo e progressão de desafios.
- Currículos que incluam confiança, motivação e autorregulação.
- Atenção às diferenças de gênero, onde as evidências mostram maior vulnerabilidade.
- Avaliação que premie progresso, não apenas resultados finais.
Essa agenda desloca o foco do “conteúdo isolado” para aprendizagem com saúde emocional — uma inovação que integra psicologia, educação matemática e política pública.
Por que isso importa — e dialoga com o artigo do
Estadão
O jornal aponta corretamente: sem matemática, o Brasil perde capacidade produtiva e tecnológica.
A tese vai além e afirma:
sem reduzir ansiedade matemática, continuaremos produzindo baixo desempenho — mesmo com novos materiais, programas e reformas.
Tratar a ansiedade matemática como prioridade não é detalhe psicológico.
É estratégia nacional de desenvolvimento humano.
Quando os estudantes deixam de temer os números — e passam a se sentir capazes diante deles — abre-se a porta para carreiras científicas, para melhores decisões cotidianas e para um país que pensa com mais clareza.
É isso que defendemos:
uma educação matemática que ensina, protege e liberta — ao mesmo tempo.
Folha de Florianópolis
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