O consumo faz parte de todos os momentos, seja de bens, experiências ou até de tempo, pois são recursos, e como tal, são finitos. Reflete as aspirações, manutenção e qualidade de vida, assim como também as escolhas no quotidiano, sejam pensadas ou não.
Quando utilizamos o conceito de consumo consciente, estamos trazendo a reflexão para a utilização dos recursos de forma adequada aos objetivos de cada um. Não há uma receita pronta ou única para trazer a consciência a todas a nossas decisões, e não é esse o objetivo. O convite é para considerar a racionalidade nas decisões que mais impactam nossos resultados, especialmente os financeiros.
Podemos dizer que a utilização dos recursos é uma ciência da felicidade: o dinheiro é finito, e deve ser utilizado no que traz mais satisfação e alegria, prestigiando curto e longo prazo, em uma harmonia planejada.
A prática do consumo consciente busca estabelecer um equilíbrio entre os aspectos emocionais e a lógica racional inerentes às escolhas de consumo, alinhando-as aos objetivos financeiros e de vida. Este alinhamento é essencial para evitar o desvio de recursos para itens de baixa utilidade percebida ou de valor passageiro, que podem comprometer a edificação de um patrimônio sólido e a concretização de metas financeiras.
Somos impulsionados o tempo todo por estímulos externos e gratificações imediatas, e isso põe em risco uma análise criteriosa. Quem nunca trocou um carro, um celular ou mesmo comprou uma roupa por impulso, e depois, ao refletir, entendeu que não tinha necessidade?
Em cada decisão que afete o orçamento, se faz necessário alguns questionamentos, que podem identificar as motivações reais:
· “Isso é importante para mim ou estou comprando para agradar alguém?”. Eu quero?
· “Essa compra está dentro do meu orçamento, onde posso realocar com outros bens ou serviços, ou vai impactar em meus investimentos eu endividamento?”. Eu posso?
· "Esta aquisição agrega valor real à minha vida ou representa uma resposta a um impulso momentâneo?". Eu preciso?
Essas três perguntas são fundamentais para estabelecer o conceito de utilidade e viabilidade: Eu quero, eu posso, eu preciso? E a partir de então, tomar a decisão mais assertiva e que o deixe mais feliz e por mais tempo.
Preço e valor: uma distinção fundamental
A diferença entre preço e valor é um dos vieses cognitivos mais comuns que afetam as decisões de consumo. Compreender a distinção entre esses dois conceitos é vital para o planejamento financeiro eficaz:
- Preço: corresponde ao montante monetário expresso na transação, ou seja, o custo financeiro imediato de um produto ou serviço.
- Valor: refere-se ao benefício percebido e à utilidade intrínseca que um produto ou serviço proporciona ao consumidor. O valor incorpora atributos como durabilidade, funcionalidade, conveniência e, notadamente, o alinhamento com as necessidades e objetivos individuais.
Ao considerar uma aquisição, a análise deve ser mais ampla, considerando a avaliação do "custo total de propriedade", que abrange:
- Custos de manutenção;
- Consumo de insumos (como combustível ou energia);
- Despesas com seguros e impostos associados;
- Depreciação estimada ao longo do tempo;
- Avaliações e opiniões de outros usuários, que fornecem perspectivas sobre a experiência de longo prazo com o bem ou serviço.
O conforto é uma ambição recorrente, e não há nada de errado com ela. O que deve ser considerado é se está dentro do planejamento ou se impactará na renúncia de outros planos. Mais uma vez, o recurso é escasso e deve ser utilizado no que traz maior felicidade, no equilíbrio entre curto e longo prazo.
O consumo consciente é uma prática que visa otimizar a utilização dos recursos financeiros, e também traduzidos em quanto tempo é utilizado para gerar o valor gasto. Ele representa uma estratégia inteligente para otimizar a alocação de recursos, mitigando os efeitos de vieses comportamentais e promovendo uma tomada de decisão financeira mais deliberada e alinhada aos propósitos de vida. É, em sua essência, a aplicação da racionalidade como componente integrado às emoções, pavimentando o caminho para uma saúde financeira duradoura e um futuro mais seguro.
Dicas práticas para lidar com impulsos emocionais
- A "regra das 24 horas": esperar um dia ou dois antes de fazer uma compra não essencial é uma estratégia para refletir sobre a adequação da compra aos seus objetivos.
- A "Lista de Espera": anotar o desejo em uma lista e revisitá-lo após um tempo. Isso faz com que tenhamos mais clareza sobre sua real utilidade, assim como também o faz se tornar mais desejado, se for o caso. A psicologia explica que valorizamos mais aquilo que é mais difícil de obter.
- Identificação de gatilhos: identifique quais situações ou emoções o levam a compras por impulso. Analise se realmente fazem sentido ou se fazem parte de alguma compensação emocional, que pode ser substituída por outra mais aderente a seus objetivos.
*Eliane Jaqueline Debesaitis Metzner é vice-presidente da APOEF - Associação de Prtofissionais Orientadores e Educadores Financeiros e planejadora financeira pessoal e possui a certificação CFP® (Certified Financial Planner), concedida pela Planejar - Associação Brasileira de Planejadores Financeiros. E-mail: [email protected]
Folha de Florianópolis
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