Os dados publicados nesta terça-feira (19) pelo mLabs, plataforma especializada em análise e monitoramento de redes sociais, chamaram atenção do mercado digital. O levantamento aponta que perfis com até 10 mil seguidores registram as maiores taxas de engajamento no Instagram. Nessa faixa, as publicações em foto registraram 4,3% de engajamento, os vídeos e Reels alcançaram 4,9%, enquanto o formato carrossel apareceu como destaque, chegando a 6,1%.
Na prática, os dados mostram que comunidades menores conseguem criar relações mais próximas com o público. É nesse ponto que surge um debate que vai além do alcance e do engajamento.
O problema começa quando empresários, influenciadores e até profissionais da comunicação passam a tratar as redes sociais como sinônimo de marketing. Em muitos casos, toda a estratégia da marca acaba concentrada apenas na produção de conteúdo e na busca por alcance. E foi justamente um caso recente que mostrou o risco dessa dependência.
A influenciadora cearense Brena Jéssica, conhecida pelas publicidades irreverentes em lojas populares de Fortaleza, perdeu seu perfil principal no Instagram na noite da quarta-feira, 13 de maio de 2026. A página acumulava cerca de 800 mil seguidores. Em poucas horas, contratos foram cancelados, trabalhos suspensos e a renda de toda a operação dela ficou comprometida.
Veja: https://www.instagram.com/p/DYhCh7-oKYy/
O caso viralizou porque expôs uma realidade que já preocupa muitos profissionais do mercado: empresas e criadores passaram a construir negócios inteiros dentro de plataformas que não controlam. Isso não significa que as redes sociais perderam importância, muito pelo contrário.
Hoje, Instagram, TikTok e YouTube fazem parte da jornada de consumo das pessoas. Eles ajudam marcas a gerar lembrança, conexão e desejo. O problema aparece quando a empresa troca estratégia por dependência.
Essa discussão não é nova, em “Administração de Marketing”, Philip Kotler e Kevin Keller já alertavam para os riscos de as empresas concentrarem toda a comunicação em poucos canais. Os autores criticam empresas que concentram toda a comunicação em uma ou duas ferramentas, ignorando a fragmentação do mercado e a mudança no comportamento do consumidor.
Assista: https://www.instagram.com/p/DYUKbG_ubdR/
E isso faz sentido porque uma marca forte não sobrevive apenas de alcance ou números altos dentro das redes sociais. Ela se sustenta no posicionamento que constrói ao longo do tempo, na forma como é lembrada pelas pessoas e na experiência que entrega. É esse conjunto que faz um cliente continuar lembrando de uma empresa mesmo quando ela não aparece no feed todos os dias.
Marketing envolve muito mais do que produzir conteúdo para redes sociais. Ele está presente no atendimento que a empresa oferece, na experiência que entrega ao cliente, na reputação que constrói ao longo do tempo e na capacidade de gerar confiança a ponto de ser indicada por outras pessoas.
As redes sociais fazem parte dessa estratégia, mas representam apenas uma das vitrines da marca. Por isso, muitas empresas acabam sentindo o impacto quando um vídeo perde alcance ou quando o algoritmo muda, porque concentraram toda a percepção de valor apenas dentro das plataformas digitais.
Em muitos casos, o problema não está apenas nas métricas das plataformas, mas na falta de uma estratégia mais ampla de relacionamento com o público. Existem empresas que publicam conteúdo diariamente, mas demoram para responder clientes, deixam o atendimento impessoal ou não conseguem transformar audiência em conexão real.
Os próprios dados do mLabs ajudam a entender esse movimento ao mostrar que comunidades menores costumam gerar mais proximidade. E proximidade não se constrói somente com frequência de postagem, mas com confiança, identificação e presença consistente na experiência do consumidor.
Quando um cliente indica uma empresa para um amigo, existe valor de marca. Quando uma pessoa volta a comprar porque foi bem atendida, existe relacionamento. Quando alguém lembra de uma empresa pela experiência que teve, existe posicionamento.
Existe uma diferença importante entre conquistar audiência e construir uma marca sólida. Números altos podem gerar visibilidade rápida, mas a força de uma marca está na capacidade de permanecer relevante mesmo diante das mudanças das plataformas digitais.
Por isso, empresas que enxergam o marketing de forma estratégica investem não apenas em presença nas redes sociais, mas também em relacionamento com clientes, construção de comunidade, experiência de compra, banco de contatos e percepção de valor ao longo do tempo.
No fim das contas, as marcas mais fortes continuam sendo aquelas que conseguem permanecer na memória das pessoas mesmo fora das telas. Talvez esse seja o maior alerta deixado pelos números do mLabs e pelo caso da influenciadora Brena Jéssica: quem constrói tudo dentro de uma única plataforma também corre o risco de perder tudo junto com ela.
Por Charles Aparecido Pereira Gonçalves, profissional de marketing, publicitário e jornalista. Possui pós-graduação em comunicação e mídias digitais. Empreendedor e gestor de conteúdos em Santa Catarina. Instagram: @charles__aparecido

Folha de Florianópolis
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