“A dificuldade não está nas novas ideias, mas em escapar das antigas.” John Maynard Keynes
A história da humanidade é o relato de uma sucessão de ferramentas que ampliaram o nosso alcance. Da roda ao motor a vapor, cada salto tecnológico foi desenhado para potencializar o músculo ou a precisão humana. Até agora, a tecnologia era um apêndice da nossa biologia.
E assim caminhou a humanidade. A entrada no mundo do trabalho seguiu uma lógica quase silenciosa. O jovem chegava, observava, errava, refazia, aprendia com tarefas pequenas e repetitivas. Essas tinham uma função social invisível. Eram o primeiro degrau da carreira. Era ali que muita gente aprendia a trabalhar.
Ao cruzarmos o limiar da inteligência artificial generativa, não estamos apenas diante de uma ferramenta melhorada, mas de uma nova espécie de intelecto que, pela primeira vez, não depende da presença humana para ganhar escala e refinamento. O que vivemos hoje não é uma repetição da Revolução Industrial, mas uma transição ontológica que desafia a nossa própria utilidade.
Os grandes pensadores contemporâneos, como Yuval Noah Harari, têm sido vocais sobre o surgimento de uma "classe irrelevante". O termo é brutal e propositalmente desconfortável. Diferente do desemprego conjuntural que conhecemos, onde o trabalhador é um ativo em espera, a irrelevância sugere que o sistema econômico aprendeu a operar sem a necessidade de certas camadas da força de trabalho. Se no século XX a luta era contra a exploração, no século XXI o risco é o descaso. O mercado de trabalho está sendo redesenhado por algoritmos que não dormem, não se sindicalizam e que, fundamentalmente, não precisam ser educados por vinte anos antes de entregarem valor.
Nesse cenário, a visão de Daron Acemoglu, economista do MIT (Massachusetts Institute of Technology), torna-se crucial para entendermos o desvio de rota. Ele argumenta que o problema não reside na inteligência artificial em si, mas na obsessão das grandes empresas pela "automação pura" em detrimento da "complementação humana". Estamos ensinando as máquinas a nos substituírem em vez de nos tornarem melhores.
De um lado, aparecem os entusiastas que prometem produtividade infinita, tempo livre e abundância. De outro, surgem os apocalípticos anunciando o fim do emprego como se a história humana estivesse prestes a ser encerrada por um programa de computador.
A solução não reside em currículos escolares que ensinam a operar o software da moda. A educação precisa migrar para a metacognição, que é a habilidade suprema de entender os próprios processos de aprendizagem. Se o conhecimento técnico tem data de validade cada vez mais curta, o "aprender a aprender" é o único ativo que não deprecia. Precisamos de profissionais com agilidade ontológica, capazes de desmoronar e reconstruir suas identidades profissionais sem o luto paralisante da obsolescência.
O ajuste social exigirá uma coragem política que ainda não vemos no horizonte. A discussão sobre a Renda Básica Universal deixa de ser um delírio utópico para se tornar uma engrenagem de manutenção do próprio capitalismo.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que cerca de 40% dos empregos no mundo podem ser afetados pela inteligência artificial. Nas economias avançadas, esse percentual pode chegar a 60%. Parte desses empregos pode ser beneficiada pelo uso da tecnologia, com ganho de produtividade. Outra parte pode sofrer redução de demanda, perda salarial ou desaparecimento de funções.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), publicado a pouco, estimou que, no terceiro trimestre de 2025, quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam em ocupações com algum grau de exposição à inteligência artificial generativa. Isso correspondia a 29,6% da população ocupada. O levantamento também mostrou exposição maior entre mulheres, jovens, pessoas mais escolarizadas, trabalhadores da região Sudeste e profissionais do setor de serviços, especialmente nas áreas de informação, comunicação e serviços financeiros.
Esses números ajudam a tirar a conversa do campo da fantasia. A inteligência artificial não afeta apenas trabalhadores de baixa qualificação. Ao contrário de ondas anteriores de automação, que atingiram com mais força tarefas físicas, industriais e operacionais, a atual revolução tecnológica alcança atividades intelectuais.
Escritórios de advocacia, agências de publicidade, empresas de tecnologia, departamentos financeiros, contabilidades, consultorias, redações, escolas, órgãos públicos e pequenos negócios. Durante décadas, parte importante da formação profissional ocorreu dentro das empresas, por meio de tarefas iniciais.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) já chama atenção para a necessidade de políticas capazes de permitir que países, empresas e trabalhadores se beneficiem da inteligência artificial, sem ignorar riscos como automação, perda de autonomia, discriminação, falta de transparência e concentração de poder.
A tecnologia não distribui seus ganhos de forma natural. Ela pode aumentar produtividade e, ao mesmo tempo, ampliar desigualdades. A inteligência artificial não é boa nem má por natureza. Ela é uma força de reorganização. E toda força de reorganização cobra maturidade da sociedade que a recebe.
O impacto será sentido na escola, na universidade, no ensino técnico, na gestão pública, no comércio, nos serviços, nas profissões liberais e nas relações familiares. Pais terão filhos entrando em um mercado diferente daquele que conheceram. Professores terão alunos usando ferramentas que mudam a forma de estudar. Gestores terão equipes pressionadas a produzir mais com menos gente. Trabalhadores adultos terão que aprender tecnologias que não fizeram parte de sua formação.
O novo analfabetismo profissional talvez não seja a incapacidade de ler e escrever. Será a incapacidade de aprender, desaprender e reaprender.
Isso exige uma mudança profunda na educação. A escola não pode continuar preparando alunos apenas para repetir respostas.
O poder público, por sua vez, precisa abandonar a lentidão confortável. Cidades que quiserem competir na nova economia terão que investir em formação continuada, aproximação entre escolas e empresas, inclusão digital real, apoio a pequenos negócios e políticas de transição para trabalhadores mais vulneráveis. A inteligência artificial não esperará a burocracia entender o problema.
E o trabalhador precisará fazer a parte mais desconfortável. Parar de tratar experiência passada como garantia de futuro. O caminho não tem volta! Mas isso não significa que o destino esteja dado.
A sociedade decide se será atropelada ou se construirá uma travessia mais inteligente. O risco não está apenas na inteligência artificial tirar empregos. O risco maior está em deixarmos desaparecer, sem perceber, o caminho pelo qual as pessoas aprendiam a se tornar profissionais.
Quando o primeiro degrau some, não basta dizer aos jovens que subam mais rápido. É preciso reconstruir a escada.
A última reflexão que quero deixar aqui nesse texto é, “O maior perigo do século XXI não é a exploração do homem pelo homem mas a percepção de que grandes massas humanas tornaram-se economicamente irrelevantes.”
Jogo que segue...
Guga V Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual e Negócios
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Folha de Florianópolis
Comentários: