Nos últimos anos, o ensino superior no Brasil tem enfrentado múltiplos desafios, refletidos em altas taxas de evasão, baixa permanência e obstáculos à conclusão dos cursos. Segundo o relatório "Education at a Glance" da OCDE, 51% dos estudantes que entram na universidade não conseguem se formar até três anos após o prazo previsto, um indicador alarmante quando comparado à média de 30% de outros países desenvolvidos. O primeiro ano da graduação é especialmente crítico, com 25% dos estudantes abandonando o curso nesse período, mais do que o dobro da média dos países da OCDE (13%). Além disso, apenas 38% concluem dentro do prazo esperado, enquanto a evasão no ensino a distância, responsável por 13,4% de crescimento entre 2022 e 2023, atinge alarmantes 64,1%.
O setor privado concentra a maior parte das matrículas, com 79,3%, e 95,9% dos estudantes de EAD estudam em instituições particulares. Contudo, há uma concentração preocupante: apenas 3,5% das mantenedoras detêm 69,4% das matrículas, o que pode comprometer a diversidade e a qualidade do ensino. A crise no financiamento estudantil, com a redução drástica dos contratos do FIES e do Prouni, agrava ainda mais esse cenário, dificultando o acesso e a permanência de estudantes especialmente vulneráveis. Apesar de o setor de EAD crescer, a evasão elevada e o acesso restrito representam obstáculos à ampliação da inclusão.
Outro aspecto relevante é o alto percentual de estudantes que tiram um ano sabático após o ensino médio: 76%, uma prática mais comum em países como Estados Unidos e Finlândia, mas que no Brasil, com taxas superiores à média da OCDE, pode contribuir para a desmotivação e insegurança na escolha da carreira, aumentando o risco de abandono. Além disso, há uma desigualdade de gênero e socioeconômica evidente, com muitas estudantes de baixa renda e oriundas da rede pública enfrentando dificuldades que afetam sua continuidade na educação superior, embora as mulheres tenham maior propensão à conclusão.
A relação entre o diploma universitário e o mercado de trabalho também evidencia disparidades: adultos com ensino superior ganham, em média, 148% a mais que aqueles com apenas ensino médio, mas muitos jovens ainda subestimam esse impacto, optando por carreiras que podem não se traduzir em melhores condições econômicas. Para piorar, o baixo investimento por aluno, apesar de o percentual do PIB destinado à educação ser semelhante ao de países desenvolvidos, impacta na qualidade do ensino, agravando as dificuldades na formação de mão de obra qualificada.
A persistente desigualdade estrutural se reflete na composição e na trajetória dos estudantes, em especial daqueles provenientes da rede pública, que representam aproximadamente 70% dos graduandos e também estão na maioria nas instâncias superiores, como mestrados e especializações. Apesar de avanços na inclusão, os obstáculos socioeconômicos, a baixa qualidade da educação básica e o acesso limitado ameaçam a equidade e a sustentabilidade do ensino superior no país.
Diante desse cenário, é essencial que haja um esforço coordenado entre governo, instituições acadêmicas e sociedade civil. Políticas de financiamento mais eficazes, melhorias na qualidade da educação básica, além de oferecer opções mais flexíveis e alinhadas às demandas do mercado de trabalho, são medidas fundamentais para promover maior inclusão, reduzir a evasão e assegurar que o ensino superior seja um verdadeiro motor de desenvolvimento social e econômico.
Folha de Florianópolis
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