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Terça-feira, 19 de Maio 2026
O Descontrole financeiro: quando a dívida deixa de ser exceção e passa a ser regra.

Coluna da Jaqueline Metzner
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O Descontrole financeiro: quando a dívida deixa de ser exceção e passa a ser regra.

O crédito estimula crescimento ou revela fragilidade estrutural?

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A realidade financeira das famílias brasileiras vem acendendo alertas importantes. Basta acompanhar os noticiários, observar dados econômicos ou simplesmente ouvir relatos de pessoas próximas para perceber que algo mudou profundamente na relação entre renda, consumo e crédito.

Ao longo dos últimos anos, estudando comportamento financeiro, observando padrões e tentando compreender o que leva tantas pessoas não apenas a se endividarem, mas a aceitarem essa condição como algo natural, surgiu uma reflexão inevitável: o problema atual já não está apenas no endividamento.

O fenômeno mais preocupante talvez seja outro: a normalização da dívida.

Quando falo em normalização, refiro-me ao momento em que o endividamento deixa de ser percebido como um alerta financeiro e passa a ser incorporado ao orçamento doméstico como se fosse uma conta fixa. A parcela do cartão, o empréstimo consignado, o financiamento, o carnê. Tudo passa a ocupar o mesmo lugar mental de despesas como água, luz ou aluguel. E é justamente aí que mora o risco invisível.

O que os mutirões resolvem, e o que não resolvem

Campanhas de renegociação, mutirões para quitação de dívidas e programas governamentais como o Desenrola Brasil cumprem um papel relevante.

Eles aliviam momentaneamente a pressão financeira e podem oferecer a algumas famílias a oportunidade de reorganização. Mas é preciso reconhecer seus limites. Renegociar dívidas não transforma, automaticamente, a lógica mental e comportamental que levou ao endividamento.

A verdadeira reorganização acontece quando existe acompanhamento, escuta qualificada e reconstrução da relação subjetiva com o dinheiro. Em muitos casos, o equilíbrio só se torna possível quando alguém ajuda a pessoa a compreender: seus padrões emocionais de consumo; seus conflitos internos relacionados ao dinheiro; sua percepção sobre segurança financeira; suas crenças construídas ao longo da vida.

É quando ocorre a chamada "virada de chave" comportamental. Sem isso, a dívida renegociada tende apenas a abrir espaço para uma nova dívida futura.

Endividamento não é inadimplência
Esse é um ponto fundamental. Existe uma diferença técnica entre estar endividado e estar inadimplente.

Representação conceitual

Endividamento significa existência de compromissos financeiros futuros.
Inadimplência significa incapacidade de honrar esses compromissos no prazo.

O paradoxo brasileiro
O Brasil vive hoje uma contradição reveladora. O endividamento bate recordes históricos, enquanto a inadimplência não cresce na mesma proporção. Isso significa que milhões de famílias seguem pagando suas contas. Mas seguem pagando à custa de quê?

A matemática da normalização da dívida
Imagine uma família com renda líquida mensal de R$ 5.000.
Seu orçamento fixo é composto por moradia no valor de R$ 1.500, alimentação no valor de R$ 1.100, transporte no valor de R$ 500, serviços essenciais no valor de R$ 400 e educação ou cuidados no valor de R$ 300.
Ao final, o total das despesas essenciais chega a R$ 3.800. Agora somemos as dívidas: cartão parcelado no valor de R$ 450, empréstimo pessoal no valor de R$ 380 e crediário no valor de R$ 220. O total de dívidas chega a R$ 1.050.
Isso significa que, de uma renda mensal de R$ 5.000, depois de pagar as despesas essenciais de R$ 3.800 e as dívidas de R$ 1.050, restam apenas R$ 150. O saldo final, portanto, é de R$ 150.

Na prática, essa família encerra o mês financeiramente exposta.

Qualquer imprevisto, remédio, conserto, emergência, exigirá novo crédito.

E o ciclo recomeça.

Quando o cartão vira "reserva financeira imaginária"
Esse talvez seja um dos sinais mais preocupantes da normalização. Muitas famílias sabem que:
• não possuem reserva;
• não têm investimentos;
• não possuem liquidez real.

Ainda assim, sentem-se relativamente seguras porque contam com o limite disponível no cartão ou no cheque especial. Essa é uma falsa sensação de equilíbrio financeiro.

Na prática, isso significa que a liquidez que a pessoa acredita ter é a soma do dinheiro real que possui mais o limite de crédito disponível. A percepção subjetiva de liquidez passa a considerar o crédito como patrimônio disponível. Mas crédito não é patrimônio. É antecipação onerosa sobre uma renda futura.

O ciclo silencioso da sobrevivência parcelada
A dinâmica se repete da seguinte forma: a dívida atual recebe um novo uso de crédito, parte dela é paga, mas, se o valor novo utilizado for maior do que o pagamento realizado, a dívida continua crescendo.
Por exemplo, se uma pessoa já tem uma dívida de R$ 7.000, utiliza mais R$ 1.200 no cartão e consegue pagar apenas R$ 900 no mês, a nova dívida passa a ser de R$ 7.300. Mesmo pagando, a dívida cresce. Esse é o retrato clássico da normalização. A pessoa paga. Cumpre prazos. Mantém o nome sem restrição. Mas permanece estruturalmente endividada.

O erro da análise simplista
Reduzir essa realidade à falta de educação financeira é uma leitura superficial. Embora a educação financeira seja indispensável, ela não explica tudo.

Muitas famílias recorrem ao crédito não por impulsividade, mas por necessidade de adequação. Adaptação a uma realidade marcada por: renda insuficiente; inflação persistente; instabilidade profissional; exaustão física e emocional; ausência de margem financeira.

Casos em que, a dívida não nasce do excesso, nasce da insuficiência.

Quando o crédito financia o presente
Essa é a mudança de perspectiva mais importante.
Em economias maduras, a dívida costuma financiar expansão futura: aquisição patrimonial; investimento; recursos ou ferramentas em prol de uma Renda extra

Já em contextos de maior vulnerabilidade, como do brasileiro, o crédito frequentemente financia a sobrevivência imediata. Parcela-se: supermercado; remédios; transporte; material escolar; contas essenciais.
Isso revela algo sério: o presente já não está sendo sustentado pela renda ativa.

A conta que não fecha
É quando a renda é menor que o custo de vida. Onde renda é o dinheiro que entra e custo de vida é tudo o que é preciso para se manter no mês.

O crédito entra para compensar a diferença. E a dívida deixa de ser ferramenta financeira. Passa a ser mecanismo de sustentação e sobrevivência.

Mais do que finanças, falamos de estrutura social
Discutir endividamento hoje é: mercado de trabalho; desigualdade; saúde mental; sobrecarga cotidiana; necessidades da vida real.

O endividamento recorde das famílias brasileiras revela uma sociedade em que milhões de pessoas estão utilizando crédito para compensar ausências fundamentais: renda suficiente para viver o presente; tempo para organizar a vida; energia emocional para decidir com clareza.

A reflexão que fica é que muitas vezes, as famílias estão tentando sobreviver dentro de uma equação que já não fecha e as famílias endividadas não estão, obrigatoriamente, consumindo demais.

Referências:
1. CNC - Serviços e Turismo. Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), 04/2026. O levantamento registrou endividamento de 80,9% das famílias e inadimplência de 29,7%.
2. BCB – Dados do comprometimento de renda das famílias com dívidas, em 02/ 2026, alcançou 29,7%, maior nível da série histórica.
3. IBGE - Dados rendimento domiciliar e orçamento familiar no Brasil - referência para contextualização da renda e composição de despesas familiares.
4. Jardim, Ericson Souza. Uma análise descritiva do endividamento das famílias brasileiras. Universidade Federal de Ouro Preto, 2022.
5. Finanças comportamentais e endividamento no Brasil: como vieses... Repositório Ânima Educação, 2025.
6. Fatores comportamentais e propensão ao endividamento. Revista JRG, 2023.

*Créditos: Janina Jacino é educadora financeira comportamental, associada à APOEF, especialista em Neurociência da Aprendizagem e Gestão Estratégica de Negócios. Idealizadora da Finanças sem Fronteira, desenvolve soluções em educação financeira que unem estratégia, comportamento e consciência, auxiliando pessoas, famílias e organizações a construírem uma relação mais consciente, saudável e sustentável com o dinheiro, por meio de uma educação financeira humanizada, estratégica e transformadora. E-mail: [email protected] Instagram: @financassemfronteira

A SEMANA ENEF:

A Semana ENEF 2026 acontece de 18 a 24 de maio com o tema "Educação Financeira: construindo um futuro com longevidade e prosperidade". É o momento certo para transformar intenção em ação. Organizada pelo Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF), sob presidência da Susep, a Semana ENEF reúne instituições de todo o país em iniciativas gratuitas que conectam planejamento financeiro, previdenciário, securitário e fiscal à construção de uma vida mais próspera em todas as idades. Instituições que atuam com educação financeira podem cadastrar suas próprias atividades na agenda oficial, e cada pessoa pode participar das ações, palestras, artigos, postagens, oficinas e mutirões que acontecem em todo o Brasil. Mais informações e cadastro de iniciativas em agendasemanaenef.susep.gov.br. A Semana ENEF acontece uma vez por ano. O seu plano, como você já sabe, não espera.

*Este artigo faz parte da programação da Semana ENEF, dentre as ações organizadas pela APOEF – Associação de Profissionais Orientadores e Educadores Financeiros.

FONTE/CRÉDITOS: Janina Jacino
Comentários:
Eliane Jaqueline D. Metzner

Publicado por:

Eliane Jaqueline D. Metzner

Eliane Jaqueline Metzner é planejadora financeira e possui a certificação CFP®, concedida pela Planejar. Mentora organizacional, educadora financeira, escritora de finanças pessoais e formadora de gerentes no mercado financeiro.

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