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Terça-feira, 19 de Maio 2026
Motivação não é “vontade”: é o ambiente trabalhando (a seu favor)

Coluna do Laôr
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Motivação não é “vontade”: é o ambiente trabalhando (a seu favor)

Na Análise do Comportamento, “motivação” não é traço de personalidade — é operação no contexto: ela muda, minuto a minuto, o valor do reforço e a chance do aluno (ou do professor) agir.

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Tem uma pergunta que aparece em toda sala de aula, em toda formação, em toda reunião pedagógica: “por que eu tenho que estudar?”. Muita gente responde com discursos longos sobre futuro, nota, ENEM, mercado… e, ainda assim, o estudante segue olhando para o teto como quem procura Wi-Fi na lâmpada.

A perspectiva analítico-comportamental dá uma virada elegante (e um pouco “desconfortável”): motivação não é um combustível interno estável. Ela é, em grande parte, um conjunto de variáveis momentâneas que aumentam ou diminuem o poder de certos reforçadores e evocam comportamentos que, no passado, funcionaram para obter esses reforçadores.

Em outras palavras: não é só “querer”. É contexto.

Reforço não é item. Reforço é função (e muda de preço)

O mesmo “prêmio” pode ser ouro hoje e papel reciclado amanhã.

  • Um elogio pode “acender” um aluno num dia e “não fazer cócegas” no outro.
  • Um intervalo pode ser irresistível antes do almoço e irrelevante depois.
  • Uma estrelinha pode ser moeda forte na terça… e virar inflação na quarta.

O ponto-chave: reforçadores têm valores diferentes para a mesma pessoa em momentos diferentes, porque o que muda é a operação motivacional (a tal variável contextual).

A lente que organiza tudo: Operações Motivacionais

Na história da área, falou-se muito em drive (fome, sede, etc.). Depois, a proposta ficou mais precisa e operacional: Operações Estabelecedoras e, mais tarde, o guarda-chuva maior das Operações Motivacionais.

O que uma Operação Motivacional faz?

Ela tem dois efeitos principais (e isso é ouro pedagógico):

  1. Altera o valor do reforçador, momentaneamente
    • Se há privação, certas consequências ficam mais “reforçadoras”.
    • Se há saciação, elas perdem força.
  2. Altera a probabilidade do comportamento, agora
    • Evoca respostas que antes produziram aquele reforço.
    • Ou reduz respostas quando o reforço “perde o brilho”.
  3. Exemplo simples (e cruelmente real):

Se o aluno está saciado de atenção (ganha atenção o tempo todo, por qualquer coisa), então atenção do professor perde valor como reforçador para engajamento. Resultado: você pede participação e recebe… silêncio com personalidade.

Três exemplos que explicam 80% da sala de aula

1) Privação e saciação (o “efeito sobremesa”)

  • Privação aumenta o valor: quanto mais privado, mais potente o reforçador.
  • Saciação diminui o valor: depois de “barriga cheia”, a mesma coisa reforça menos.

Na prática escolar:

Se o estudante tem acesso ao “reforço” o dia inteiro (celular livre, jogo livre, atenção irrestrita, vantagens sem custo), você não tem milagre pedagógico: você tem operações abolidoras trabalhando contra o ensino.

2) Dor de cabeça e remédio (o reforço negativo do cotidiano)

Dor (estímulo aversivo) aumenta o valor de remover a dor.

A redução da dor diminui esse valor.

Na prática escolar:

Quando a tarefa está difícil e o aluno aprende que “fugir” (ir ao banheiro, pedir água, fazer graça, bater papo) reduz desconforto, a esquiva pode virar muito reforçada. Aí a pergunta muda de “como motivar?” para “qual desconforto estou ensinando o aluno a evitar — e como estou permitindo que ele escape?”

3) “Com minha mãe funciona, com meu pai não” (SD não é motivação)

Um adulto pode sinalizar “aqui tem reforço” (SD) ou “aqui não tem” (SΔ).

Isso não define se algo é reforçador. Quem define é a operação motivacional (privação/saciação etc.).

Na prática escolar:

Um professor pode ser “SD de ajuda” (o aluno pede e recebe), enquanto outro vira “SΔ” (pede e não recebe). Resultado: não é que o aluno “não gosta” do segundo; o ambiente ensinou que não vale a pena pedir.

Duas dicas práticas (bem mão na massa) para professor e gestor

Dica 1 — Não deixe o reforçador disponível o tempo todo

Se o aluno tem acesso ilimitado ao que você quer usar como consequência (jogo, tela, atenção exclusiva, “estrelinha”), você está treinando saciação e enfraquecendo seu próprio planejamento.

Versão de bolso: reforçador “livre” vira paisagem. E paisagem não puxa comportamento.

Dica 2 — Use “versão empobrecida” fora do ensino

Quando há parceiros (família, outros profissionais), combine:

  • em casa: uma versão mais simples do reforço;
  • na escola/atendimento: a versão mais potente.

Isso evita que o reforço “morra” antes de chegar no momento de ensinar.

O segredo que ninguém gosta de ouvir: “controle” não é controlar pessoas

Quando analistas do comportamento falam em “controle”, não é “dominar o aluno”.

É organizar variáveis para aumentar a chance de o ensino dar certo.

Controle aqui é como arrumar o palco para a peça acontecer: luz, som, roteiro, timing. Se você não organiza o palco, a peça vira improviso… e improviso todo dia cansa até artista.

Uma provocação final (para orientar planejamento pedagógico)

Antes de concluir que “o aluno não tem motivação”, tente esta lista de checagem:

  • O reforçador que eu escolhi ainda tem valor, ou já está em saciação?
  • A tarefa tem custo de resposta alto demais para o valor do reforço?
  • Estou sem querer reforçando esquiva (fuga do difícil)?
  • Meu ambiente virou SΔ (“aqui não adianta tentar”)?
  • Estou planejando consequências consistentes o suficiente para o aluno aprender?

Se você respondeu “sim” para duas ou mais, parabéns: você não achou um “aluno desmotivado”. Você achou um ambiente que pode ser ajustado.

E isso é uma boa notícia — porque ambiente, diferente de “vontade”, dá para planejar.

FONTE/CRÉDITOS: MICHAEL, Jack. Establishing operations. The Behavior Analyst, v. 16, n. 2, p. 191–206, 1993. 	•	MICHAEL, Jack. Motivating operations. In: POLING, Alan; NORMAND, Matthew P. (org.). The Behavior Analyst Today (coleções e reimpr
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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