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Quinta-feira, 11 de Junho 2026
Do totalitarismo ao esquerdismo: como o comunismo se reinventou

Coluna do Rogério Franco
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Do totalitarismo ao esquerdismo: como o comunismo se reinventou

Veritas Aequitas

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שִׁוִּיתִי יְהוָה לְנֶגְדִּי תָּמִיד

A proibição ou restrição ao comunismo em diversos países não é um fenômeno isolado nem arbitrário. Ela tem raízes históricas profundas e motivações que variam conforme o contexto de cada nação, mas convergem em um ponto central: o reconhecimento de que certas ideologias, quando convertidas em poder de Estado, produziram sofrimento em escala difícil de dimensionar.

O argumento mais recorrente entre os países que adotaram essas restrições é o do legado de vítimas. Regimes comunistas ao longo do século XX foram responsáveis por dezenas de milhões de mortes, entre gulags soviéticos, a Grande Fome ucraniana conhecida como Holodomor, o terror maoísta na China e o regime de Pol Pot no Camboja. Países que viveram diretamente sob essas experiências, como Polônia, Hungria, Lituânia, Letônia e Estônia, adotaram leis que restringem a promoção de símbolos e movimentos associados ao totalitarismo comunista, de forma semelhante às restrições já aplicadas ao nazismo. Para essas nações, trata-se de uma questão de coerência moral: se o nazismo é proibido por seus crimes, o comunismo não deveria receber tratamento diferente.

Além da memória histórica, outro motivo frequente para as proibições foi a incompatibilidade percebida entre o comunismo e a ordem democrática. A Alemanha Ocidental proibiu o Partido Comunista em 1956 sob o argumento de que ele representava uma ameaça à constituição democrática do país. Essa lógica parte do princípio de que uma democracia tem o direito e até o dever de se proteger de movimentos que visam à sua própria supressão. 

Se as proibições ao comunismo têm como base o seu histórico de violações, é natural perguntar o que ocorre nos países onde esses regimes ainda existem. A resposta, em muitos casos, é perturbadora e ajuda a entender por que o debate está longe de ser apenas uma questão do passado.

Na Coreia do Norte, o Estado funciona como um sistema de controle total sobre a população. Campos de concentração abrigam centenas de milhares de pessoas, incluindo familiares de dissidentes que nunca cometeram qualquer crime. O país aplica um sistema chamado songbun, pelo qual a origem política de uma família determina o acesso a alimentos, educação e trabalho por gerações. Execuções públicas são usadas como instrumento de intimidação coletiva, e a fome já foi utilizada como ferramenta de controle estatal. Na China, o governo mantém campos de detenção em massa na região de Xinjiang, onde mais de um milhão de uigures foram submetidos a programas forçados de reeducação. Em Tibet, décadas de repressão cultural e religiosa reduziram drasticamente a autonomia de um povo inteiro. Em Hong Kong, as garantias de liberdade previstas no acordo de 1997 foram progressivamente desmontadas, com a prisão de líderes políticos, jornalistas e ativistas.

Nas Américas, o quadro não é menos grave. Em Cuba, o regime mantém presos políticos de forma sistemática. Após as manifestações populares de julho de 2021, uma das maiores da história recente do país, centenas de manifestantes foram presos, julgados em processos sumários e condenados a penas severas. A imprensa independente é praticamente inexistente, e qualquer forma de organização política fora do partido é tratada como ameaça ao Estado. A contradição mais reveladora do regime, no entanto, talvez esteja em outro lugar. Enquanto o povo cubano enfrenta apagões diários e escassez grave de alimentos, combustível e medicamentos, membros da cúpula do regime e seus familiares vivem uma realidade completamente diferente, muitas vezes nos próprios Estados Unidos, o país que o regime diz combater. Em maio de 2026, o ICE prendeu em Miami Adys Lastres Morera, irmã da presidente executiva do GAESA, o conglomerado militar cubano que segundo as autoridades americanas controla até 70% da economia da ilha. Morera administrava imóveis e vivia na Flórida enquanto, segundo o secretário de Estado Marco Rubio, ajudava o regime comunista de Havana. O arresto ocorreu um dia depois de o Departamento de Justiça anunciar em Miami acusações de assassinato contra o ex-presidente Raúl Castro pelo abate de aviões civis em 1996. O caso resume com precisão cirúrgica a hipocrisia estrutural do regime: de um lado, um povo sem liberdade e sem comida; do outro, a família dos dirigentes administrando patrimônio e residindo confortavelmente no coração do capitalismo americano.

Na Venezuela, o modelo construído por Nicolás Maduro ao longo de anos combinou repressão política com colapso econômico deliberado. Opositores foram presos, torturados ou forçados ao exílio, e organismos internacionais de direitos humanos documentaram execuções extrajudiciais realizadas por forças paramilitares ligadas ao governo. Mais de sete milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, uma das maiores crises migratórias do hemisfério. Em janeiro de 2026, Maduro foi preso por forças militares dos Estados Unidos em Caracas e transferido para Nova York, onde aguarda julgamento por acusações federais de narcotráfico, narcoterrorismo e lavagem de dinheiro. Sua prisão não encerrou o regime, mas confirmou de forma definitiva aquilo que investigações internacionais já apontavam há anos: o governo venezuelano havia se fundido ao crime organizado de maneira estrutural e irreversível.

Na Nicarágua, Daniel Ortega transformou o país em um regime de partido único, prendeu candidatos presidenciais antes das eleições de 2021, expulsou bispos e sacerdotes, confiscou universidades e dissolveu praticamente toda a sociedade civil por decreto.

O comunismo clássico, no entanto, não esgota o problema. Diante do fracasso evidente dos regimes de partido único e da resistência das democracias ocidentais à tomada direta do poder, parte do pensamento marxista desenvolveu ao longo do século XX uma estratégia alternativa, mais paciente e mais difusa. O intelectual italiano Antonio Gramsci foi um dos primeiros a sistematizá-la. Preso pelo regime fascista de Mussolini, Gramsci dedicou seus escritos a uma questão fundamental: por que a revolução proletária não havia se espalhado pela Europa como Marx previa? Sua conclusão foi que a dominação capitalista não se sustentava apenas pela força, mas principalmente pelo consentimento cultural. Para derrubá-la, não bastaria tomar o Estado pela violência. Seria preciso conquistar primeiro a hegemonia cultural, ou seja, o controle sobre as ideias, os valores e as narrativas que organizam a vida de uma sociedade.

Essa estratégia ficou conhecida como guerra de posições e previa uma ocupação lenta e sistemática das instituições que produzem e disseminam cultura: universidades, escolas, meios de comunicação, sindicatos, movimentos artísticos e organizações da sociedade civil. A ideia central era que, uma vez conquistadas essas posições, a transformação política seria apenas uma consequência natural de uma sociedade já reconfigurada por dentro. Décadas depois, o filósofo Herbert Marcuse e outros pensadores ligados à Escola de Frankfurt aprofundaram essa linha, direcionando a crítica marxista para o campo da cultura, do comportamento e da identidade, e influenciando gerações de ativistas e acadêmicos especialmente a partir dos anos 1960.

O resultado prático dessa evolução é o que muitos analistas identificam hoje como esquerdismo cultural, uma forma de militância que não necessariamente reivindica o comunismo pelo nome, mas opera segundo uma lógica semelhante de desestabilização. Insurreições urbanas são organizadas e instrumentalizadas para desgastar governos e criar uma sensação permanente de crise e conflito. Veículos de comunicação são progressivamente ocupados por militantes que distorcem fatos, selecionam narrativas e transformam o jornalismo em ferramenta ideológica. Universidades deixam de ser espaços de debate plural e passam a funcionar como centros de formação de quadros, onde determinadas ideias são celebradas e outras são sistematicamente silenciadas. A cultura, o entretenimento e as artes são mobilizados para naturalizar valores e visões de mundo específicos, muitas vezes sem que o público perceba a intencionalidade do processo.

A essa estratégia cultural somou-se, especialmente na América Latina, uma dimensão ainda mais sombria: a aliança deliberada entre movimentos de esquerda radical, o narcotráfico, grupos terroristas e organizações extremistas. Essa convergência não é casual nem meramente oportunista. Ela obedece a uma lógica clara, na qual o crime organizado oferece o que a militância política sozinha não consegue produzir: financiamento em larga escala, capacidade de violência organizada e um poder de desestabilização do Estado que nenhum partido político consegue replicar por meios legais.

O caso mais emblemático dessa aliança é o das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC. Nascidas como guerrilha marxista nos anos 1960, as FARC financiaram décadas de insurgência armada com dinheiro do tráfico de cocaína, tornando-se em determinado momento uma das organizações criminosas mais ricas do mundo. A simbiose entre ideologia revolucionária e narcotráfico permitiu que o grupo sustentasse uma guerra de baixa intensidade por mais de cinquenta anos, desestabilizando regiões inteiras, corrompendo instituições e mantendo o Estado colombiano em estado permanente de crise. Mesmo após o acordo de paz de 2016, dissidências das FARC continuaram operando em estreita colaboração com o tráfico, demonstrando que a separação entre militância política e crime organizado nunca foi de fato completa.

A Venezuela de Nicolás Maduro representa talvez o caso mais grave de fusão entre um governo de esquerda e o narcotráfico. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos indiciou o próprio Maduro e membros do alto escalão do seu governo por narcotráfico e associação a grupos terroristas, incluindo as FARC e o Hezbollah. O chamado cartel dos Sóis, operado por militares venezuelanos com proteção do Estado, tornou-se uma das principais rotas de escoamento de cocaína para os mercados europeu e norte-americano. A Venezuela funciona, nesse contexto, não apenas como um regime autoritário de esquerda, mas como um Estado capturado pelo crime organizado, que usa o discurso revolucionário como cobertura ideológica para uma estrutura essencialmente criminosa.

O Hezbollah, organização libanesa classificada como terrorista por diversos países ocidentais, encontrou na América Latina um ambiente fértil para suas operações, com proteção explícita de governos como Venezuela, Cuba e Nicarágua. A chamada Tríplice Fronteira, região onde se encontram Brasil, Argentina e Paraguai, é há décadas apontada por agências de inteligência americanas e europeias como um centro de arrecadação de fundos para o Hezbollah, por meio de redes de lavagem de dinheiro ligadas ao comércio e ao crime organizado. A aliança entre governos de esquerda radical e o Hezbollah não é apenas financeira. Ela tem uma dimensão geopolítica clara, na qual o Irã, principal financiador do grupo, usa essa rede para projetar influência no hemisfério ocidental e criar pontos de pressão contra os Estados Unidos e Israel.

No Brasil, documentos e investigações judiciais revelaram conexões entre o Primeiro Comando da Capital, o PCC, e setores da política de esquerda radical, especialmente em presídios e periferias urbanas. O PCC, que nasceu como uma organização de autodefesa dentro dos presídios paulistas, expandiu-se para uma das maiores organizações criminosas do hemisfério, com operações em mais de trinta países. Investigações apontaram para um relacionamento funcional entre lideranças do crime organizado e movimentos políticos que, em troca de votos e controle territorial em regiões de difícil acesso estatal, ofereceram proteção política e espaço de manobra. Essa relação não representa necessariamente uma aliança ideológica formal, mas uma convergência de interesses que enfraquece o Estado e aprofunda a vulnerabilidade das populações mais pobres, exatamente aquelas que esses movimentos dizem defender.

Na Bolívia, o movimento cocaleiro foi a base política que sustentou a ascensão de Evo Morales ao poder. Embora o cultivo da coca tenha raízes culturais legítimas entre as populações indígenas bolivianas, a expansão do setor esteve historicamente ligada à produção de cocaína para exportação. A defesa intransigente do cultivo irrestrito da coca por parte do governo Morales criou um ambiente de tolerância que beneficiou redes do narcotráfico regional, especialmente as conectadas às operações colombianas e venezuelanas.

O ELN, Exército de Libertação Nacional da Colômbia, segue ativo até hoje com financiamento misto proveniente do tráfico de drogas, extorsão e apoio logístico do governo venezuelano. Ao contrário das FARC, o ELN nunca assinou um acordo de paz e continua operando em territórios de fronteira com proteção e suprimentos fornecidos por Caracas, numa demonstração de como a aliança entre Estado, guerrilha e narcotráfico pode se perpetuar indefinidamente quando há vontade política para sustentá-la.

O objetivo final de toda essa arquitetura, cultural, política e criminal, não é necessariamente instalar um regime comunista clássico nos moldes soviéticos. É produzir uma sociedade permanentemente dividida, desconfiante de suas instituições, incapaz de construir consensos e consumida por conflitos que não chegam a lugar nenhum. Uma nação nesse estado tende a perder a capacidade de se dedicar ao que realmente importa: crescimento econômico, educação, saúde, segurança e qualidade de vida. A guerra cultural e criminal infinita funciona, nesse sentido, como um fim em si mesma, porque uma sociedade em colapso de coesão é uma sociedade vulnerável, e uma sociedade vulnerável é uma sociedade controlável.

No entanto, o conjunto das evidências disponíveis, tanto históricas quanto contemporâneas, oferece uma resposta bastante clara sobre por que tantos países decidiram estabelecer limites legais à promoção dessas ideias. As proibições ao comunismo refletem uma combinação de memória histórica, proteção da ordem democrática e lições tiradas a duras penas por povos que pagaram um preço altíssimo pela experiência direta com esses regimes. Compreender como essa ideologia se reinventou ao longo do tempo, abandonando o fuzil pela caneta, a barricada pela cátedra universitária e o partido único pela fragmentação cultural e pelo crime organizado, é talvez o passo mais importante para que as democracias contemporâneas possam enfrentá-la com lucidez e sem perder de vista os valores que valem a pena defender.

Diante de tudo isso, talvez seja hora de o Brasil fazer uma pergunta que outros países já responderam: até quando uma democracia pode tolerar, em nome da liberdade de expressão, movimentos que usam essa mesma liberdade para destruí-la por dentro?

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Rogério Mazzetto Franco

Publicado por:

Rogério Mazzetto Franco

Rogério Mazzetto Franco é formado em Direito, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, e também formado em Filosofia. Atua como ativista político, unindo rigor jurídico e reflexão filosófica na defesa de uma sociedade mais justa e racional.

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