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Sexta-feira, 02 de Outubro 2026
Entre o campo e a cidade
Coluna da Camile

Entre o campo e a cidade

O êxodo rural mudou o mapa do Brasil — e também a nossa ideia de futuro, pertencimento e oportunidade.

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Há famílias em que a história parece seguir um roteiro conhecido: os avós ficaram no interior, os filhos foram para a cidade em busca de trabalho e os netos já nasceram completamente urbanos.

Não é uma história incomum. Talvez seja, inclusive, uma das histórias que melhor explicam o Brasil que conhecemos hoje.

Durante décadas, milhões de brasileiros deixaram o campo em direção às cidades. Foram em busca de emprego, estudo, saúde, melhores condições de vida e, principalmente, daquilo que parecia representar uma palavra tão simples quanto poderosa: futuro.

O Brasil mudou de endereço.

Em 1940, apenas 31,3% da população brasileira vivia em áreas urbanas. Em 2000, esse percentual já havia chegado a 81,2%. Hoje, segundo o Censo 2022, 87,4% dos brasileiros vivem em áreas urbanas. Entre 2010 e 2022, enquanto a população urbana cresceu cerca de 10,3%, a população rural caiu 14,27%, uma redução de mais de 4,2 milhões de pessoas.

Os números ajudam a dimensionar a transformação, mas não contam tudo.

Porque por trás de cada pessoa que deixou o campo existe uma história.

Existe o jovem que saiu para cursar uma faculdade porque não havia uma opção próxima. Existe a família que mudou porque o trabalho já não sustentava mais a casa. Existe quem tenha ido embora porque precisava de atendimento médico, de transporte, de escola ou simplesmente de uma oportunidade que não existia onde nasceu.

E é aí que o êxodo rural deixa de ser apenas uma questão demográfica.

Ele passa a ser uma questão sobre escolhas.

Ou melhor: sobre as escolhas que realmente temos.

Costumamos falar que as pessoas deixam as pequenas cidades e o campo porque querem uma vida melhor. E, em muitos casos, é verdade. A cidade oferece possibilidades que dificilmente encontramos em regiões rurais ou em municípios muito pequenos: universidades, hospitais, empresas, serviços, cultura, entretenimento e uma diversidade maior de oportunidades profissionais.

Mas existe uma pergunta que talvez mereça ser feita com mais frequência: quando alguém precisa deixar sua cidade para ter acesso a essas possibilidades, estamos realmente diante de uma escolha?

Talvez o problema não seja as pessoas quererem sair do campo.

Talvez seja o fato de elas sentirem que precisam sair para conseguir viver.

O discurso do progresso muitas vezes trata a urbanização como um caminho natural. Como se crescer significasse, inevitavelmente, construir mais prédios, abrir novas avenidas, aumentar a população e concentrar serviços.

Só que existe um custo nessa lógica.

Quando os jovens vão embora, o interior não perde apenas moradores. Perde força de trabalho, empreendedores, profissionais, famílias e, principalmente, novas ideias.

Muitas cidades pequenas envelhecem enquanto as grandes cidades continuam crescendo.

E então acontece uma espécie de ciclo: quanto mais pessoas saem, menos oportunidades permanecem. Quanto menos oportunidades existem, mais pessoas sentem que precisam sair.

Enquanto isso, as cidades que recebem esse fluxo precisam absorver uma população cada vez maior.

Mais trânsito. Mais demanda por moradia. Mais pressão sobre serviços públicos. Aluguéis mais caros. Deslocamentos mais longos. Regiões periféricas crescendo sem necessariamente receber a mesma infraestrutura.

O mesmo movimento que esvazia alguns lugares sobrecarrega outros.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes contradições da nossa sociedade.

Criamos um modelo em que oportunidade e qualidade de vida nem sempre caminham juntas.

Para estudar, muitas vezes é preciso ir embora.

Para conseguir determinado emprego, é preciso ir embora.

Para ter acesso a determinados serviços, é preciso ir embora.

Para crescer profissionalmente, é preciso ir embora.

E, depois de alguns anos, voltar pode parecer impossível.

Aquele lugar que um dia foi casa passa a ser lembrança.

A casa dos avós vira lugar de férias. A praça onde todos se conheciam vira uma memória. As festas da comunidade, os vizinhos, a rotina mais próxima da natureza e até o silêncio passam a fazer parte de uma espécie de nostalgia.

É curioso como, muitas vezes, sentimos saudade de um modo de vida que, como sociedade, não conseguimos garantir que continue sendo uma possibilidade.

Não se trata de romantizar o campo.

A vida rural também enfrenta dificuldades. Falta de infraestrutura, acesso limitado a serviços, dificuldades econômicas, envelhecimento da população e poucas alternativas para os jovens são problemas reais.

Também não se trata de dizer que viver na cidade é ruim.

As cidades concentram conhecimento, inovação, cultura, oportunidades e encontros que transformaram profundamente a sociedade.

A questão é outra.

Por que precisamos escolher entre oportunidade e pertencimento?

Por que alguém deveria abandonar o lugar onde nasceu para ter acesso a uma vida digna?

Talvez desenvolvimento não seja fazer com que todos cheguem às grandes cidades.

Talvez seja fazer com que ninguém precise sair de onde nasceu por falta de alternativas.

Isso significa pensar em educação, saúde, conectividade, mobilidade, empreendedorismo, cultura e trabalho também fora dos grandes centros. Significa entender que uma pequena cidade não é apenas um ponto no mapa e que uma propriedade rural não é apenas um espaço de produção.

São lugares onde existem pessoas construindo suas vidas.

O campo também produz cultura, identidade, alimentos, histórias e relações que fazem parte de quem somos.

E talvez seja esse o ponto que mais me chama atenção quando penso no êxodo rural: não estamos apenas mudando de lugar.

Estamos mudando a maneira como vivemos.

O Brasil urbano é resultado de uma transformação que aconteceu ao longo de gerações. E não há como voltar no tempo — nem seria essa a questão.

A questão é pensar no futuro.

Se continuarmos concentrando oportunidades em determinados territórios, que país estaremos construindo para as próximas gerações?

Um país em que todos terão liberdade para escolher onde querem viver?

Ou um país em que a cidade continuará sendo o destino obrigatório de quem deseja estudar, trabalhar e crescer?

Talvez a verdadeira medida do desenvolvimento não esteja no tamanho das nossas cidades, mas na quantidade de possibilidades que conseguimos criar fora delas também.

Porque uma pessoa deveria poder ir embora.

Mas também deveria poder ficar.

E talvez a diferença entre as duas coisas esteja justamente na existência de uma escolha.



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Camile Joana Sperb Secco

Publicado por:

Camile Joana Sperb Secco

Camile Joana, 25 anos, é publicitária e mestranda em Engenharia da Mídia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde pesquisa comunicação digital com foco em acessibilidade em museus brasileiros sob a perspectiva semiótica.

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