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O preço de uma sociedade que desaprendeu a pensar
Coluna da Camile

O preço de uma sociedade que desaprendeu a pensar

Em meio ao excesso de informação, estamos deixando de questionar aquilo em que acreditamos?

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Nunca tivemos tanto acesso à informação. Em poucos segundos, podemos consultar pesquisas, acompanhar acontecimentos do outro lado do mundo e entrar em contato com ideias que, há algumas décadas, estariam distantes da nossa realidade. Ainda assim, diante de tantas possibilidades, uma pergunta se torna cada vez mais necessária: estamos realmente aprendendo a pensar ou apenas consumindo aquilo que nos dizem?

Existe uma diferença fundamental entre estar informado e compreender. A primeira condição pode ser alcançada com uma sucessão de manchetes, vídeos curtos e opiniões prontas. A segunda exige algo menos imediato: tempo, interpretação, questionamento e disposição para reconhecer que nem sempre estamos certos.

O problema começa quando confundimos acesso à informação com conhecimento e convicção com capacidade de argumentação. Afinal, repetir uma ideia não significa compreendê-la, assim como defender uma opinião com firmeza não significa ter refletido sobre ela.

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Nas redes sociais, essa contradição se torna ainda mais evidente. Somos expostos diariamente a conteúdos que disputam nossa atenção, muitas vezes privilegiando a velocidade, a emoção e a polêmica. Uma frase fora de contexto pode gerar milhares de compartilhamentos. Uma notícia pode ser julgada pelo título, sem que ninguém se dê ao trabalho de ler o conteúdo. E uma opinião, quando repetida vezes suficientes, pode adquirir aparência de verdade.

Nesse cenário, pensar criticamente tornou-se um exercício indispensável  e, por vezes, desconfortável.

Pensar exige admitir dúvidas. Exige buscar fontes diferentes, verificar informações e aceitar que a realidade pode ser mais complexa do que gostaríamos. Exige, sobretudo, a humildade de reconhecer que podemos estar errados. Entretanto, em uma sociedade que frequentemente transforma divergências em disputas pessoais, rever uma posição pode ser interpretado como fraqueza, quando deveria ser entendido como parte do amadurecimento intelectual.

Essa dificuldade ultrapassa o ambiente digital e alcança a vida coletiva. Na política, por exemplo, quantas vezes avaliamos uma proposta pelos seus méritos e quantas vezes a julgamos apenas pela pessoa ou pelo grupo que a apresenta? Quantas vezes compartilhamos uma indignação sem verificar os fatos que a sustentam? E quantas vezes deixamos de ouvir um argumento porque ele contraria aquilo em que já acreditamos?

Não se trata de defender uma sociedade sem opiniões ou conflitos. O debate é essencial à democracia. A questão é o que fazemos com nossas convicções: se as utilizamos como ponto de partida para compreender o mundo ou como barreiras que nos impedem de enxergá-lo para além delas.

É nesse ponto que a leitura, a educação e o acesso à cultura assumem um papel fundamental. Ler não é apenas acumular informações ou ampliar o vocabulário. É exercitar a interpretação, entrar em contato com perspectivas diferentes e aprender a acompanhar um raciocínio até suas conclusões. A literatura, a história, a filosofia e as artes nos colocam diante de experiências que não são necessariamente as nossas e nos convidam a questionar certezas.

Isso não significa que apenas quem lê livros pensa criticamente, nem que a falta de leitura seja uma escolha individual isolada das condições sociais. O acesso à educação de qualidade, ao tempo livre, às bibliotecas e aos bens culturais é desigual. Por isso, incentivar o pensamento crítico também é uma responsabilidade coletiva e um compromisso com a redução das desigualdades.

Uma sociedade que deseja cidadãos capazes de tomar decisões conscientes precisa garantir mais do que acesso à informação: precisa criar condições para que as pessoas possam compreendê-la, questioná-la e utilizá-la.

Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a falta de informação, mas a falsa sensação de conhecimento que ela pode produzir. Quando acreditamos que já sabemos o suficiente, deixamos de investigar. Quando nos acostumamos a receber respostas prontas, perdemos o interesse pelas perguntas. E, quando abrimos mão de questionar, tornamo-nos mais vulneráveis à manipulação, aos discursos simplistas e às certezas fabricadas por aqueles que sabem explorar nossas emoções.

Pensar criticamente não significa desconfiar de tudo, rejeitar qualquer autoridade ou acreditar que todas as opiniões têm o mesmo valor. Significa aprender a distinguir evidências de suposições, argumentos de ataques pessoais e fatos de interpretações. Significa compreender que liberdade de expressão não nos dispensa da responsabilidade de verificar aquilo que afirmamos e compartilhamos.

Talvez não tenhamos desaprendido a pensar. Talvez estejamos apenas vivendo em uma época que recompensa mais a rapidez de uma resposta do que a qualidade de uma reflexão.

Mas uma sociedade não se constrói apenas com respostas rápidas. Ela precisa de pessoas dispostas a perguntar, investigar, escutar e, quando necessário, mudar de ideia.

Em tempos nos quais todos parecem ter algo a dizer, recuperar a disposição de pensar pode ser um dos atos mais importantes de responsabilidade individual e coletiva.

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Afinal, o pensamento crítico não começa quando questionamos aquilo em que os outros acreditam. Começa quando temos coragem de questionar aquilo em que nós mesmos acreditamos.

Comentários

Autor da postagem
Alissa Varela Stank • 27/10/2026 11:42
Sempre assertiva! Adoro ler essa coluna, sempre trazendo assuntos importantes e fazendo a gente refletir sobre a sociedade e o momento em que vivemos.
Autor da postagem
Leticia Ficagna • 27/10/2026 18:34
Perfeito!
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Camile Joana Sperb Secco

Publicado por:

Camile Joana Sperb Secco

Camile Joana, 26 anos, é publicitária e pós-graduanda em Branding pela Unisul. Sua trajetória acadêmica inclui o mestrado em Engenharia e Gestão do Conhecimento, com foco em Engenharia da Mídia, pela UFSC, onde pesquisou comunicação digital e...

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