Em uma democracia, podemos escolher lados diferentes sem transformar o outro em inimigo. Talvez esse seja um dos maiores desafios das eleições na era das redes sociais.
Em período eleitoral, basta abrir as redes sociais para encontrar discussões, provocações e, muitas vezes, ataques. Pessoas que antes conviviam normalmente passam a se enxergar de outra maneira simplesmente porque fizeram escolhas políticas diferentes.
O voto parece ter deixado de ser apenas uma escolha e passou a ser, para muitos, uma espécie de identidade. Se você vota em determinado candidato, automaticamente é colocado em uma caixa: “é isso”, “é aquilo”, “pensa assim”, “defende aquilo”. E, rapidamente, a discussão deixa de ser sobre política e passa a ser sobre pessoas.
Mas quando foi que discordar passou a significar desrespeitar?
É claro que política precisa ser discutida. Precisamos questionar candidatos, partidos, propostas e governos. Precisamos cobrar resultados e apontar erros. Discordar faz parte de uma democracia saudável.
O problema começa quando deixamos de criticar ideias e passamos a atacar quem pensa diferente.
O livre-arbítrio também deveria valer para a política. Significa ter o direito de fazer uma escolha diferente da nossa, mesmo que não concordemos com ela. Isso não significa aceitar qualquer ideia sem questionamento, mas compreender que uma sociedade livre não é formada por pessoas que pensam exatamente da mesma maneira.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores dificuldades do nosso tempo: aprender a conviver com a diferença.
Quando falamos em eleições, muitas vezes esquecemos que, por trás de partidos e candidatos, existem discussões que afetam a vida de todos nós. Saúde, educação, segurança, emprego, moradia, infraestrutura e assistência social são políticas públicas que ultrapassam qualquer lado político.
Uma pessoa que precisa de atendimento no sistema público de saúde não deixa de precisar porque votou diferente. Uma criança que depende da educação pública não carrega uma ideologia na mochila. Uma família que precisa de assistência social não deveria ser julgada pela sua escolha política.
As políticas públicas deveriam ser avaliadas pelo impacto que produzem na sociedade, e não apenas por quem as propôs.
Talvez precisemos sair um pouco da lógica de torcida.
Política não é futebol. Não deveria existir a necessidade de comemorar cada erro do “outro lado” ou justificar qualquer erro do “nosso lado”. Se uma proposta é boa, ela merece ser reconhecida independentemente de quem a apresentou. Se uma decisão é ruim, precisa ser questionada independentemente de quem a tomou.
Nas redes sociais, porém, parece que perdemos essa capacidade.
Um comentário vira discussão. A discussão vira ataque. O ataque vira ofensa. E, quando percebemos, estamos brigando com alguém que talvez conheçamos há anos por causa de uma escolha que, em uma democracia, deveria justamente ser livre.
Precisamos lembrar que respeitar não significa concordar.
Podemos discordar profundamente e ainda assim manter uma conversa. Podemos defender nossas convicções sem tentar diminuir as convicções do outro. Podemos acreditar que determinada escolha política é equivocada sem acreditar que a pessoa que fez essa escolha é menos inteligente, menos digna ou menos brasileira.
No final, uma eleição passa. Os candidatos mudam, os governos mudam, os partidos mudam. Mas as pessoas continuam convivendo.
Talvez o verdadeiro exercício democrático não seja conseguir fazer todo mundo pensar como nós. Talvez seja conseguir viver em sociedade sabendo que nem todo mundo vai pensar como nós.
E fica uma reflexão: se defendemos a liberdade apenas quando ela favorece as nossas próprias escolhas, estamos realmente defendendo a liberdade?
Talvez democracia seja justamente isso: ter liberdade para escolher, coragem para questionar e maturidade para respeitar quem escolheu diferente.
Folha de Florianópolis
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