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Quarta-feira, 22 de Abril 2026
IGNORÂNCIA QUE DECIDE CUSTA CARO ÀS CIDADES

Coluna do Guga Dias
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IGNORÂNCIA QUE DECIDE CUSTA CARO ÀS CIDADES

“A democracia exige cidadãos capazes de distinguir entre opinião e conhecimento.” — Norberto Bobbio

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Vivemos em uma época em que opiniões circulam com velocidade inédita, decisões públicas são pressionadas pelo curto prazo e a complexidade das cidades cresce mais rápido do que a capacidade coletiva de compreendê-la. Nesse ambiente, não é a falta de informação que mais compromete o futuro urbano, mas a confiança excessiva de quem sabe pouco e decide muito. A psicologia já identificou esse fenômeno como Efeito Dunning-Kruger.

Descrito em 1999 pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger, o efeito aponta para uma limitação estrutural da cognição humana. Indivíduos com baixo nível de conhecimento em determinada área tendem a superestimar a própria competência, justamente por não disporem do repertório necessário para identificar erros, inconsistências ou lacunas no próprio entendimento. Não se trata de má-fé, tampouco de arrogância consciente ou ignorância deliberada, mas de uma incapacidade objetiva de perceber a extensão do que ainda não se sabe.

Quando esse fenômeno se desloca do plano individual para o espaço público, seus efeitos assumem outra escala e outra gravidade. Decisões que impactam milhões de pessoas passam a ser orientadas por convicções frágeis, simplificações convenientes e um desprezo discreto, porém persistente, por estudos técnicos, séries históricas e análises de longo prazo. O custo raramente se revela de imediato. Ele se acumula silenciosamente e emerge, ao longo dos anos, na forma de cidades mal planejadas, sistemas de mobilidade ineficientes, políticas públicas reativas e desperdício contínuo de recursos coletivos.

O Efeito Dunning-Kruger ajuda a compreender por que projetos urbanos fracassam mesmo diante de alertas consistentes de especialistas, por que soluções improvisadas tendem a se repetir e por que decisões complexas acabam reduzidas a slogans, achismos ou promessas fáceis. Quando a familiaridade superficial com um problema é confundida com domínio técnico sobre ele, a confiança se expande na mesma proporção em que a qualidade das decisões se deteriora.

Há aqui um ponto sensível e necessário. As democracias não sofrem apenas com a corrupção ou com interesses escusos. Sofrem também com a ilusão de uma competência generalizada. Quando toda opinião passa a ter o mesmo peso que o conhecimento técnico, a sociedade perde a capacidade de hierarquizar saberes. O debate público se empobrece e decisões estruturais passam a ser guiadas mais por convicções pessoais do que por evidências. Nesse cenário, o futuro das cidades e da própria sociedade entra em um processo de deterioração progressiva, muitas vezes sem capacidade política ou institucional para reverter esse movimento.

Isso não significa defender tecnocracias insensíveis nem afastar a população dos processos decisórios. O problema não está na participação em si, mas na ausência de uma mediação qualificada entre o conhecimento técnico e a decisão política. As cidades constituem sistemas complexos. Planejamento urbano, mobilidade, saneamento, habitação e infraestrutura exigem leitura de futuro, dados consistentes e visão sistêmica. Quando esses elementos são substituídos por soluções imediatistas, o resultado torna-se previsível. Surgem gargalos permanentes, obras insuficientes e políticas públicas que reagem aos problemas em vez de preveni-los.

Em muitas cidades brasileiras, decisões tomadas décadas atrás continuam cobrando seu preço no cotidiano urbano. Vias projetadas para uma realidade que já não existe, expansões urbanas desconectadas dos sistemas de transporte e políticas públicas concebidas para tratar sintomas em vez de causas ainda moldam a experiência diária da população. Em grande parte desses casos, o problema não foi a ausência de informação, mas a recusa em reconhecê-la como elemento indispensável à decisão.

O Efeito Dunning-Kruger torna-se especialmente perigoso quando se associa ao poder decisório. Quanto maior a convicção desprovida de lastro técnico, maior tende a ser o impacto social do erro. À medida que esse erro se prolonga no tempo, torna-se também mais difícil questioná-lo, pois passa a ser protegido sob o rótulo de escolha política, tradição administrativa ou simples aceitação de uma realidade apresentada como imutável.

Construir cidades melhores exige mais do que boas intenções. Como dizia minha mãe, “de boas intenções o inferno está cheio. Exige maturidade intelectual coletiva. Exige o reconhecimento de que problemas complexos não admitem soluções simplistas. Exige a criação de espaços institucionais nos quais especialistas sejam efetivamente ouvidos, dados sejam respeitados e decisões sejam submetidas ao escrutínio técnico antes de se tornarem irreversíveis.

Quando opinião e conhecimento passam a ter o mesmo peso, a cidade paga a conta. Quando a dúvida é tratada como fraqueza e a certeza como virtude absoluta, o horizonte urbano se estreita. Talvez o maior desafio das cidades contemporâneas não seja apenas crescer ou se modernizar, mas aprender a decidir melhor. E isso começa com um gesto simples, embora raro, o reconhecimento consciente dos próprios limites.

Jogo que segue…

 

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: Fonte da citação: Norberto Bobbio
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem autoral criada por inteligência artificial, uso editorial.
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 Guga Dias

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Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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