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Sexta-feira, 17 de Abril 2026
Metas Batidas, Pessoas Quebradas

COLUNA DO DIOGO ROCHA
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Metas Batidas, Pessoas Quebradas

O Alerta que o RH Precisa Ouvir Antes da Próxima Crise

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Vivemos um tempo em que metas agressivas são tratadas como virtude, pressão constante é confundida com comprometimento e a aceleração digital transformou urgência em padrão permanente de funcionamento. As empresas operam no modo “sempre ligados”, os líderes acompanham dashboards em tempo real e as equipes vivem sob a expectativa de que o próximo resultado precisa ser maior que o anterior. Nunca se falou tanto em alta performance. Nunca se exigiu tanto. E, paradoxalmente, nunca se viu tanto esgotamento.

Dados recentes mostram um crescimento consistente nos afastamentos por transtornos emocionais, aumento expressivo de quadros de ansiedade e depressão relacionados ao trabalho e uma escalada silenciosa do turnover, especialmente entre profissionais de alta capacidade técnica e intelectual. O burnout deixou de ser um termo informal para se tornar um fenômeno reconhecido no ambiente organizacional. Ainda assim, relatórios trimestrais continuam sendo celebrados, metas continuam sendo batidas e bônus continuam sendo pagos. A conta emocional, porém, não aparece no balanço financeiro. Ela se acumula nas entrelinhas, no cansaço invisível, na motivação que se dissolve, no talento que pede demissão em silêncio.

E é aqui que surge uma pergunta incômoda, mas absolutamente necessária: você está entregando metas… mas a que preço? Porque liderar apenas para cumprir números é um modelo que funcionou em uma era industrial, mas que se torna cada vez mais frágil em uma economia baseada em conhecimento, criatividade e colaboração. Muitos líderes ainda confundem cobrança com liderança, acreditam que pressão gera produtividade e que tensão é combustível de resultado. No curto prazo, pode até parecer que funciona. No médio e longo prazo, cobra-se um preço alto demais.

Resultado sem sustentabilidade emocional não é sucesso. É adiamento de crise. Performance sustentada pelo medo gera obediência, mas raramente gera inovação. Pessoas sob constante ameaça de erro aprendem a se proteger, não a criar. O medo estreita a visão, reduz a capacidade de assumir riscos inteligentes e enfraquece o senso de pertencimento. Já ambientes emocionalmente seguros ampliam a capacidade cognitiva, fortalecem a colaboração e estimulam a responsabilidade genuína.

Daniel Goleman demonstrou, ao difundir o conceito de inteligência emocional, que líderes incapazes de gerenciar suas próprias emoções afetam diretamente o clima organizacional. Emoções são contagiosas. Um líder ansioso, reativo e excessivamente controlador cria um ambiente de tensão constante. Um líder equilibrado, consciente e empático constrói confiança. Essa diferença não é subjetiva; ela impacta diretamente o desempenho coletivo.

Amy Edmondson aprofundou o conceito de segurança psicológica e evidenciou que equipes que se sentem seguras para questionar, errar e contribuir com ideias têm maior capacidade de aprendizado e inovação. Segurança psicológica não significa ausência de cobrança, mas presença de respeito. Não significa permissividade, mas maturidade relacional. É a base sobre a qual a criatividade floresce.

Da mesma forma, Carol Dweck demonstrou que culturas orientadas por um mindset de crescimento superam ambientes em que o erro é tratado como incompetência definitiva. Quando o foco está apenas na validação do desempenho imediato, as pessoas se tornam defensivas. Quando o foco está no desenvolvimento contínuo, elas se tornam protagonistas do próprio crescimento.

O modelo antigo de liderança cobra sem escutar, valoriza horas trabalhadas em detrimento da energia preservada e mede produtividade apenas por indicadores financeiros. Ele confunde urgência com prioridade e acredita que falar de saúde mental é sinal de fragilidade. Nesse modelo, pessoas são vistas como recursos a serem utilizados. O resultado pode até aparecer, mas a sustentabilidade é frágil. O clima se deteriora, a confiança enfraquece e o talento busca ambientes mais saudáveis.

O novo modelo não abdica de resultado, mas compreende que pessoas emocionalmente exaustas não sustentam alta performance por muito tempo. Ele exige excelência, mas também constrói estrutura para que essa excelência seja possível. Ele estabelece metas com diálogo, cria espaços genuínos de escuta, inclui indicadores de clima e engajamento nas análises estratégicas e entende que saúde emocional não é benefício, é ativo competitivo. Não se trata de ser complacente, mas de ser inteligente. Não se trata de reduzir exigência, mas de qualificar a forma como ela é aplicada.

Pequenas mudanças de postura produzem grandes transformações culturais. Quando o líder passa a perguntar, com sinceridade, onde a equipe está sobrecarregada, quando inclui a percepção de bem-estar como métrica relevante e quando demonstra coerência entre discurso e prática, cria-se um ambiente de confiança. E confiança é o terreno fértil onde nascem comprometimento, inovação e resultados consistentes.

Alta performance sustentável não é discurso sensível. É estratégia de longo prazo. Equipes emocionalmente seguras performam mais porque erram mais rápido, aprendem mais rápido e ajustam mais rápido. Adoecimento gera queda silenciosa de produtividade. Desengajamento corrói a criatividade. Rotatividade consome energia e recursos que poderiam estar sendo investidos em crescimento. Cultura saudável não é “mimimi”; é gestão de risco, é retenção de talentos, é vantagem competitiva.

Os líderes do futuro não serão reconhecidos apenas pelo crescimento do faturamento, mas pela capacidade de formar pessoas inteiras, maduras e capazes de sustentar resultados sem sacrificar a própria saúde. Liderar deixou de ser apenas direcionar tarefas; tornou-se desenvolver consciência.

Você pode continuar celebrando metas batidas enquanto ignora sinais de exaustão. Pode manter o modelo antigo por mais algum tempo. Mas a pergunta que realmente importa não é se sua equipe está entregando agora. É se ela continuará entregando daqui a três, cinco ou dez anos sob a mesma pressão.

No final, cada líder constrói um legado. Alguns serão lembrados pelos números que apresentaram em uma planilha. Outros serão lembrados pelas pessoas que desenvolveram, pela cultura que construíram e pela maturidade que deixaram como herança.

Como ensina José Roberto Marques, liderança verdadeira é aquela que potencializa pessoas para que elas alcancem resultados extraordinários de forma consciente e sustentável.

A decisão está diante de você. Você quer liderar pelo medo e colher resultados temporários… ou liderar com maturidade emocional e construir algo que sobreviva à sua própria presença? Porque no fim das contas, metas passam. Planilhas mudam. Cargos são substituídos.

Mas o impacto que você deixa nas pessoas… esse permanece.


Sobre o autor:

Diogo Monticeli Rocha é executivo, consultor e desenvolvedor de pessoas, com mais de 15 anos de experiência em liderança, gestão de pessoas e educação corporativa.

Atuou em cargos de coordenação, gerência e direção, conduzindo projetos de desenvolvimento humano, formação de lideranças e capacitação de equipes em empresas de médio e grande porte. Possui sólida experiência na criação e condução de programas de formação de facilitadores e multiplicadores internos, alinhando aprendizagem, cultura organizacional e resultados.

Atua como escritor e LinkedIn Top Voice, com a newsletter “O que posso aprender hoje?”, que conta com mais de 130 artigos publicados e aproximadamente 13 mil assinantes no Brasil e no exterior.

Coach certificado, palestrante e facilitador corporativo, sua atuação se destaca pela capacidade de transformar conhecimento técnico em aprendizagem prática, combinando método, comunicação clara e foco em impacto real para pessoas e organizações.

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 DIOGO MONTICELI ROCHA

Publicado por:

 DIOGO MONTICELI ROCHA

É executivo, consultor e desenvolvedor de pessoas, com mais de 18 anos de experiência em liderança, gestão de pessoas e educação corporativa. 

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