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Sexta-feira, 12 de Junho 2026
Os moinhos de vento que ainda nos governam

Coluna do Guga Dias
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Os moinhos de vento que ainda nos governam

Quando a mente perde o compromisso com os fatos, qualquer moinho pode parecer um gigante.

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A liberdade é um dos mais preciosos dons que os céus deram aos homens.”
Miguel de Cervantes

 

Em Dom Quixote, Miguel de Cervantes nos entregou uma das imagens mais poderosas da literatura universal. Um homem, tomado por suas fantasias, olha para moinhos de vento e enxerga gigantes inimigos. Não combate o que existe. Combate aquilo que sua mente, alimentada por ilusões, leituras mal digeridas e uma visão deformada da realidade, decidiu transformar em ameaça.

A cena é conhecida, quase popular. Mas talvez justamente por isso tenha perdido parte de sua força. Muitos repetem a imagem dos moinhos de vento sem perceber que Cervantes não escreveu apenas sobre um cavaleiro delirante. Escreveu sobre a distância perigosa entre a realidade e a interpretação que fazemos dela. Escreveu sobre o momento em que a imaginação deixa de ser criação e passa a ser prisão. Escreveu sobre a mente humana quando perde o compromisso com os fatos e começa a organizar o mundo a partir dos seus medos.

Esse é um tema profundamente atual. Vivemos uma época em que muita gente já não discute mais problemas reais. Discute fantasmas. Não enfrenta desafios concretos da economia, da educação, da segurança, da saúde, da cidade ou da vida cotidiana. Prefere encontrar culpados imaginários, conspirações convenientes, inimigos absolutos e narrativas prontas que expliquem tudo sem exigir estudo, reflexão ou responsabilidade.

O problema não está apenas na existência de líderes que exploram esse mecanismo. Eles sempre existiram. O problema maior está na facilidade com que multidões aceitam entregar sua capacidade de julgamento em troca de uma explicação simples para uma realidade complexa. Quando falta repertório, qualquer discurso inflamado parece profundo. Quando falta formação lógica, qualquer associação frágil parece prova. Quando falta cultura, qualquer frase de efeito parece pensamento. Quando falta humildade intelectual, a ignorância deixa de ser limite e passa a ser identidade.

É preciso dizer isso com cuidado, mas sem covardia. A pobreza de repertório não é a mesma coisa que pobreza material. Há pessoas simples, sem títulos acadêmicos, com enorme sabedoria prática, senso moral e capacidade de perceber a realidade com lucidez. Da mesma forma, há pessoas diplomadas que repetem slogans, compram fantasias ideológicas e vivem prisioneiras de bolhas intelectualmente pobres. O ponto não é atacar a condição social de ninguém. O ponto é reconhecer que uma sociedade que não cultiva leitura, pensamento crítico, lógica e educação emocional se torna vulnerável a qualquer narrativa que ofereça um inimigo para odiar.

A mente despreparada tem dificuldade em conviver com a dúvida. Ela deseja certeza. Deseja pertencimento. Deseja uma explicação que alivie o peso de pensar. Por isso, quando alguém aponta um “gigante” a ser combatido, muitos preferem acreditar. É mais fácil lutar contra um inimigo imaginário do que encarar a própria confusão. É mais confortável culpar uma força oculta do que admitir a complexidade dos fatos. É mais sedutor fazer parte de uma cruzada do que estudar a realidade com paciência.

Na política, esse comportamento se tornou ainda mais evidente. Em vez de cidadãos, formam-se torcidas. Em vez de debate público, cria-se guerra simbólica. Em vez de divergência, fabrica-se ameaça existencial. O adversário deixa de ser alguém com outra visão de mundo e passa a ser tratado como inimigo moral, inimigo da pátria, inimigo da família, inimigo da liberdade, inimigo do povo. A linguagem vai sendo contaminada até que pensar diferente pareça crime, e não exercício legítimo da vida democrática.

É assim que surgem os moinhos de vento modernos. Eles podem aparecer na forma de teorias conspiratórias, boatos compartilhados com convicção, vídeos editados para confirmar preconceitos, discursos que transformam frustrações pessoais em ódio coletivo ou líderes que precisam manter seus seguidores em permanente estado de combate. O mecanismo é antigo. A tecnologia apenas acelerou sua circulação.

Cervantes nos ajuda a enxergar algo essencial. Dom Quixote não era movido por maldade. Era movido por uma fantasia que se tornou maior do que sua capacidade de perceber o mundo. Esse detalhe é importante. Muitas pessoas que combatem inimigos imaginários não se veem como intolerantes, fanáticas ou manipuladas. Elas se veem como heroicas. Acreditam estar defendendo uma verdade superior. Sentem-se escolhidas para enfrentar perigos que os outros, supostamente ingênuos, não conseguem ver.

É justamente aí que mora o perigo. Quando a fantasia se apresenta como missão, o erro ganha aparência de virtude. Quando a ignorância se sente corajosa, ela já não aceita correção. Quando o delírio coletivo se veste de patriotismo, religião, moralidade ou justiça, qualquer tentativa de ponderação passa a ser vista como traição.

Uma sociedade madura precisa aprender a separar coragem de alucinação. Coragem é enfrentar problemas reais, com dados, estudo, responsabilidade e abertura ao contraditório. Alucinação é criar gigantes onde existem moinhos e depois exigir aplauso pela batalha travada. Coragem é admitir que a realidade não cabe inteira em frases de campanha. Alucinação é transformar todo fato inconveniente em mentira fabricada pelo inimigo.

O nosso tempo exige menos cavaleiros de fantasia e mais cidadãos capazes de pensar. Exige menos seguidores prontos para repetir palavras de ordem e mais pessoas dispostas a perguntar, verificar, duvidar e compreender. Exige menos paixão por líderes e mais compromisso com a realidade. Porque nenhum país melhora quando sua população passa a combater sombras. Nenhuma cidade avança quando seus cidadãos se deixam guiar por ressentimentos imaginários. Nenhuma democracia se sustenta quando o debate público é substituído por caça aos gigantes inventados.

Dom Quixote permanece atual porque a mente humana continua sendo capaz de confundir medo com verdade, imaginação com prova e inimigo inventado com ameaça real. A diferença é que, hoje, os moinhos de vento não estão apenas nos campos da Mancha. Estão nas telas, nos grupos de mensagem, nos discursos públicos, nas bolhas digitais e nas conversas em que a convicção grita mais alto do que o pensamento.

Talvez a grande lição de Cervantes seja esta, o ridículo não está apenas em errar. Todos erramos. O ridículo começa quando nos apaixonamos tanto pela nossa fantasia que já não aceitamos a realidade. E o perigo começa quando essa fantasia deixa de ser individual e passa a mover multidões.

Antes de sair atacando gigantes, talvez devêssemos reaprender a olhar melhor para os moinhos.

Jogo que segue...

Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias

FONTE/CRÉDITOS: CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Obra publicada originalmente em duas partes, 1605 e 1615. ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Don Quixote. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Don-Quixote-novel UNESCO. Media and Information Literacy. Disponível e
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem gerada por inteligência artificial, a partir de prompt autoral desenvolvido especialmente para este artigo.
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 Guga Dias

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Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

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