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Sábado, 01 de Agosto 2026
Não foi a Espanha que venceu. Foi um projeto de aprendizagem.
Coluna do Laôr
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Não foi a Espanha que venceu. Foi um projeto de aprendizagem.

O que a trajetória de Luis de la Fuente revela sobre liderança educacional, desenvolvimento humano e a urgência de construir projetos de longo prazo no Brasil

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Quando a seleção espanhola voltou ao topo do futebol europeu e mundial, muita gente enxergou apenas uma geração extraordinária de jogadores.

Mas a maior força daquela equipe talvez nunca tenha estado dentro das quatro linhas.

Ela foi construída muito antes do apito inicial.

Luis de la Fuente não criou apenas uma equipe vencedora. Construiu um ambiente capaz de desenvolver pessoas ao longo do tempo. Durante mais de uma década, acompanhou sucessivas gerações de atletas nas categorias de base da Espanha, conhecendo suas potencialidades, suas dificuldades e seu processo de amadurecimento. Quando assumiu a seleção principal, não recebeu um grupo pronto. Recebeu o resultado de um trabalho contínuo do qual ele próprio havia participado.

É justamente nesse ponto que o futebol deixa de ser o tema principal.

A verdadeira discussão é sobre liderança.

E, sobretudo, sobre educação.

O Brasil ainda valoriza excessivamente o resultado final. Celebramos aprovações, medalhas, indicadores e rankings, mas dedicamos pouca atenção aos processos que tornam esses resultados possíveis. Falamos constantemente sobre desempenho, mas raramente sobre as condições necessárias para desenvolvê-lo.

Essa lógica também aparece nas escolas.

Mudam-se currículos.

Mudam-se materiais.

Mudam-se avaliações.

Mudam-se programas.

Entretanto, permanecem frágeis os mecanismos que garantem continuidade ao desenvolvimento de estudantes, professores e gestores.

Talvez este seja um dos maiores desafios da educação brasileira.

Na perspectiva da Análise do Comportamento, comportamentos complexos não surgem espontaneamente. Eles são construídos por meio de contingências cuidadosamente organizadas, nas quais oportunidades de aprendizagem, feedback e consequências favorecem a aquisição e a manutenção de novos repertórios. Ensinar, portanto, significa organizar ambientes capazes de produzir aprendizagem de forma planejada e progressiva. As contribuições dessa abordagem para a educação mostram que o compromisso central do professor deve ser com a aprendizagem do estudante e com a organização das condições que a tornam possível.

Foi exatamente isso que Luis de la Fuente fez.

Ele não esperou que talentos aparecessem.

Criou condições para que eles se desenvolvessem.

A diferença parece sutil.

Mas muda completamente a forma de compreender a liderança.

Nas escolas brasileiras ainda é comum que cada etapa funcione quase como uma instituição independente. O estudante muda de professores, de metodologias, de critérios de avaliação e, muitas vezes, de expectativas sobre sua aprendizagem. Boa parte daquilo que foi construído anteriormente deixa de orientar a etapa seguinte.

No futebol, seria como substituir toda a comissão técnica ao final de cada campeonato.

Dificilmente um projeto sobreviveria.

A experiência espanhola mostrou justamente o contrário.

Ao acompanhar diferentes gerações durante anos, De la Fuente construiu algo muito mais valioso do que uma equipe campeã.

Construiu continuidade.

Na educação, continuidade significa currículo coerente, avaliação formativa, acompanhamento longitudinal e uma liderança comprometida com o desenvolvimento das pessoas, e não apenas com os resultados de curto prazo. Como lembra Gimeno Sacristán, o currículo só ganha sentido quando se transforma em prática articulada e contínua, capaz de conectar diferentes experiências de aprendizagem ao longo da trajetória escolar.

Outro aspecto chama atenção na atuação do treinador espanhol.

Ele raramente ocupa o centro da narrativa.

Os protagonistas continuam sendo os jogadores.

Essa talvez seja uma das características mais sofisticadas da liderança.

Grandes líderes não concentram os resultados em si.

Criam condições para que outras pessoas alcancem alto desempenho.

O mesmo ocorre nas organizações educacionais.

Gestores que centralizam decisões e controlam cada detalhe tendem a produzir dependência. Em contrapartida, aqueles que estruturam ambientes colaborativos, oferecem feedback frequente, promovem desenvolvimento profissional e reconhecem avanços fortalecem equipes mais autônomas, competentes e sustentáveis.

Essa compreensão dialoga diretamente com o pensamento de António Nóvoa e Francisco Imbernón, para quem o desenvolvimento profissional docente não ocorre por ações isoladas, mas pela construção de culturas institucionais baseadas na colaboração, na reflexão permanente e na aprendizagem coletiva.

Em pesquisas que desenvolvi sobre o uso do material didático e as significações produzidas pelos professores, um aspecto apareceu de forma recorrente: a qualidade da aprendizagem depende menos dos recursos disponíveis e mais da forma como as práticas pedagógicas são organizadas, compartilhadas e apropriadas coletivamente. Ambientes colaborativos favorecem inovação, reflexão e desenvolvimento profissional muito mais do que iniciativas isoladas.

Há ainda uma lição especialmente relevante.

A seleção espanhola incorporou jovens atletas de maneira gradual, respeitando seu tempo de desenvolvimento e inserindo-os em uma cultura já consolidada.

Na educação brasileira, frequentemente ocorre o oposto.

Identificamos talentos, mas oferecemos poucas condições para que eles amadureçam.

Isso vale para estudantes.

Vale também para professores iniciantes.

Contratamos bons profissionais, mas frequentemente lhes oferecemos pouca mentoria, reduzidas oportunidades de aprendizagem coletiva e escassos espaços institucionais para aperfeiçoar sua prática.

O resultado é previsível.

Perdemos excelentes profissionais antes mesmo que consigam alcançar seu potencial.

Planejamento consistente sempre supera improvisações ocasionais.

Os títulos conquistados pela Espanha não nasceram de uma competição excepcional.

Foram consequência de um ciclo contínuo de aprendizagem.

Cada torneio tornou-se oportunidade para aperfeiçoar processos, consolidar repertórios e fortalecer uma identidade coletiva.

Essa lógica deveria inspirar nossas escolas.

Avaliações externas não deveriam representar um ponto de chegada.

Devem funcionar como instrumentos para compreender o que precisa ser aperfeiçoado.

Os dados educacionais existem para orientar decisões, não para rotular escolas, professores ou estudantes.

Uma escola comprometida com a aprendizagem observa resultados, analisa evidências, intervém, acompanha os efeitos das intervenções e ajusta continuamente sua prática.

Exatamente como fazem os melhores treinadores.

Talvez o maior legado de Luis de la Fuente não seja uma Eurocopa, uma Nations League ou qualquer outro título.

Seu maior legado foi demonstrar que culturas vencedoras não são construídas no momento da conquista.

Elas começam a ser construídas muito antes, nas pequenas decisões cotidianas, na continuidade dos processos, no desenvolvimento intencional das pessoas e na capacidade de transformar aprendizagem em cultura institucional.

Essa talvez seja também a principal lição para a educação brasileira.

Nosso maior desafio não é descobrir novos talentos.

É construir escolas capazes de desenvolvê-los ao longo do tempo.

Porque resultados extraordinários quase nunca são fruto do acaso.

São consequência de lideranças que compreendem que aprender é um processo, que competências são construídas e que nenhuma transformação educacional se sustenta sem continuidade.

Foi essa a maior vitória da Espanha.

Talvez seja exatamente essa a vitória que ainda precisamos construir em nossas escolas.

FONTE/CRÉDITOS: Laôr Fernandes de Oliveira
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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