Uma empresária, dona de uma clinica odontológica, contratou uma estagiária universitária cheia de expectativas. Explicou as tarefas, apresentou a equipe e começou a integração.
No terceiro dia, a jovem não apareceu.
Mais tarde, no mesmo dia, enviou uma mensagem dizendo que não continuaria. Pois, o trabalho exigiria muita dedicação da parte dela.
A história parece absurda para quem começou a carreira em outra época. Muitos profissionais mais velhos passaram anos aceitando tarefas difíceis, horários longos e salários modestos. Não porque achassem tudo justo, mas porque acreditavam que era o caminho natural para conquistar experiência e crescer.
Hoje, esse acordo silencioso parece ter perdido força.
O jovem entra no mercado de trabalho fazendo perguntas que antes quase não eram feitas:
“Qual é o propósito da função?”
“Como será minha rotina?”
“Com que frequência receberei feedback?”
“Existe possibilidade de crescimento?”
“A empresa respeita minha vida fora do trabalho?”
"Tem home office? Quantos dias na semana?"
Para alguns empresários, essas perguntas soam como falta de disposição. Para os jovens, são uma tentativa de entender o que estão aceitando.
Esse é um dos motivos que tornam tão difícil contratar atualmente. As empresas ainda oferecem vagas baseadas em uma lógica antiga. Os jovens, porém, chegam com expectativas formadas em um mundo completamente diferente.
A geração anterior aprendeu a entrar em uma empresa e provar seu valor pelo tempo de permanência. Primeiro era preciso obedecer, cumprir qualquer tarefa e esperar uma oportunidade. Questionar demais poderia fechar portas.
As novas gerações cresceram em um ambiente de escolhas rápidas. Trocam de aplicativo, curso, cidade, relacionamento e emprego na maior facilidade. Foram ensinadas a buscar experiências personalizadas e a rejeitar aquilo que não parece fazer sentido.
O problema é que o trabalho raramente começa fazendo sentido.
Há tarefas repetitivas, períodos de adaptação, erros, cobranças e atividades que ninguém considera interessantes. Aprender uma profissão exige tempo. Em muitos casos, é necessário fazer coisas simples antes de assumir responsabilidades maiores.
O jovem precisa entender isso.
Nem toda dificuldade é exploração. Nem toda cobrança é abuso. Nem todo trabalho inicial será estimulante. Existe uma diferença importante entre um ambiente tóxico e uma tarefa difícil. Confundir essas duas coisas pode impedir o desenvolvimento profissional.
Mas as empresas também precisam reconhecer a parte que lhes cabe.
Há empresários que anunciam uma vaga como “oportunidade de crescimento”, mas oferecem apenas uma lista de tarefas sem explicação. Prometem aprendizado, mas não treinam. Falam em autonomia, mas não deixam claro o que esperam. Cobram iniciativa, mas punem qualquer pergunta.
Também existem empresas que desejam contratar jovens preparados, mas não oferecem tempo para que eles aprendam. Esperam maturidade de quem está no primeiro emprego. Querem resultados imediatos de quem ainda está descobrindo como funciona o mundo profissional.
É como colocar alguém em uma estrada sem mapa e reclamar porque a pessoa não chegou ao destino no horário determinado.
Outro conflito aparece na relação com a autoridade.
Muitos jovens não aceitam mais a frase “aqui sempre foi assim” como explicação suficiente. Eles querem saber por que uma tarefa precisa ser feita daquela maneira. Perguntam se existe uma alternativa. Questionam uma regra que parece sem sentido.
Isso pode irritar quem ocupa uma posição de liderança. Afinal, muitos gestores foram formados em um ambiente onde questionar era confundido com desafiar.
Mas perguntar não é necessariamente desrespeitar. Em muitos casos, é uma tentativa de compreender.
O empresário que deseja formar bons profissionais precisa explicar o trabalho, estabelecer limites e oferecer orientação. A autoridade não desaparece quando o líder escuta. Pelo contrário: pode se tornar mais legítima.
O jovem também precisa aprender que liberdade vem acompanhada de responsabilidade. Se decidiu aceitar uma vaga, deve cumprir o combinado. Se perceber que não deseja continuar, precisa comunicar com respeito e antecedência. Desistir de uma oportunidade pode ser legítimo. Desaparecer sem conversar não é.
A empresa não é uma extensão da casa dos pais. Há prazos, clientes, colegas e consequências. Uma decisão individual pode afetar todo o grupo.
O desafio está justamente nesse encontro entre dois mundos.
De um lado, empresários que reclamam da falta de comprometimento dos jovens, mas continuam oferecendo ambientes pouco transparentes, sem treinamento e sem perspectiva.
De outro, jovens que desejam autonomia, propósito e flexibilidade, mas nem sempre compreendem que competência também se constrói com disciplina, repetição e paciência.
A estagiária que desistiu no terceiro dia talvez não seja apenas um caso de falta de vontade. Ela pode representar uma geração que não aceita mais entregar tempo e energia sem entender o motivo.
Mas também pode representar alguém que ainda não aprendeu que toda profissão exige algum esforço que não aparece nas promessas de realização pessoal.
Contratar jovens hoje é difícil porque o antigo pacto do trabalho foi rompido.
Antes, o funcionário oferecia lealdade e resistência em troca de estabilidade. Hoje, a estabilidade é menor, as carreiras são mais incertas e a lealdade precisa ser construída diariamente.
Os jovens não querem apenas um salário. Querem saber o que estão ajudando a construir. As empresas, por sua vez, não precisam transformar cada tarefa em uma experiência extraordinária. Precisam ser honestas sobre o trabalho, oferecer condições dignas e mostrar que existe um caminho possível.
Talvez a pergunta não seja apenas... "Por que os jovens não querem trabalhar?."
Talvez seja preciso perguntar:
Que tipo de trabalho você esta oferecendo?
Estamos preparados para ensinar ou apenas para cobrar?
Ao entrar o candidato ja sabe claramente quais as rotinas, as atividades e as responsabilidades ele vai ter?
Você esta preparado transformar um jovem inexperiente em um grande profissional ou apenas quer encontrar alguém disposto a aceitar qualquer condição?
O jovem precisa amadurecer para o trabalho. As empresas também precisam amadurecer para receber essa nova geração.
No fim, contratar não é apenas preencher uma vaga. É construir uma relação.
E relações baseadas somente na necessidade duram pouco. Para que alguém permaneça, é preciso existir respeito, clareza, aprendizado e algum sentido.
O trabalho continuará exigindo dedicação. A diferença é que, hoje, cada vez mais pessoas querem saber para onde estão dedicando a própria vida.
E você... O que pensa sobre esse tema?
Folha de Florianópolis
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