“Não tenho medo de ser cobrado. Tenho medo de ninguém mais esperar algo de mim.” – Guga Dias
A frase parece falar sobre cobrança, desempenho e responsabilidade. Mas talvez esconda uma inquietação mais profunda. O medo de deixar de ocupar um lugar verdadeiro na vida das pessoas. Não de perder uma função ou um cargo, mas de perceber que nossa presença já não desperta confiança, interesse ou expectativa.
Esperamos algo de alguém quando acreditamos que aquela pessoa ainda pode compreender, aconselhar, ensinar, acolher, participar ou transformar alguma coisa. Por isso, a ausência completa de expectativa pode ser sentida como uma forma de apagamento social. A pessoa continua presente, mas deixa de ser procurada. Acumula experiências, mas ninguém pergunta o que ela pensa. Possui histórias, aprendizados e afetos, mas já não encontra espaços nos quais possa compartilhá-los.
A psicologia utiliza o conceito de mattering para explicar uma experiência humana composta por dois movimentos. Sentir que somos valorizados e perceber que ainda conseguimos acrescentar valor. Não se trata apenas de reconhecimento. Também precisamos experimentar que nossa presença produz alguma consequência positiva na vida de alguém ou na comunidade da qual fazemos parte.
Esse ponto exige cuidado. Ninguém deveria depender da cobrança ou da expectativa alheia para reconhecer o próprio valor. Uma vida orientada apenas pelo que os outros exigem pode perder autonomia e transformar afeto, responsabilidade e participação em obediência. Também não podemos sugerir que uma pessoa só merece consideração enquanto produz, resolve problemas ou permanece útil.
A dignidade humana não depende de produtividade. Uma pessoa não perde valor quando envelhece, adoece, se aposenta ou já não consegue acompanhar o ritmo que a sociedade costuma impor. O problema surge quando confundimos dignidade com participação e usamos a primeira como desculpa para abandonar a segunda.
Todo ser humano possui valor. Mas uma vida socialmente significativa também depende da disposição de permanecer em relação com os outros. Isso pode acontecer por meio do trabalho, mas não se limita a ele. Pode estar numa conversa atenta, numa lembrança compartilhada, numa orientação oferecida sem arrogância, numa escuta verdadeira ou na decisão de participar da vida comunitária.
Talvez nossa sociedade tenha reduzido demais a ideia de contribuição. Valorizamos quem acelera, entrega, lidera, vende, decide e aparece. Com isso, deixamos de perceber formas silenciosas de presença humana. Há pessoas que pouco aparecem, mas sustentam famílias, preservam memórias, acolhem fragilidades, ensinam pelo exemplo e ajudam outras pessoas a compreender melhor a própria vida.
Ao mesmo tempo, também existe uma responsabilidade pessoal na construção dos vínculos. Muitas vezes esperamos telefonemas que não fazemos, desejamos convites sem criar encontros e reclamamos de não sermos ouvidos depois de perdermos a disposição de escutar. Isso não significa ignorar o abandono, a exclusão ou a solidão involuntária. Existem rupturas reais que não podem ser atribuídas à falta de iniciativa individual. Significa apenas reconhecer que pertencimento também exige reciprocidade.
A Organização Mundial da Saúde – OMS, informou em 2025 que aproximadamente uma em cada seis pessoas no mundo experimenta solidão. O dado revela que a desconexão não é apenas uma dificuldade privada. Ela se tornou um problema social. Estamos construindo ambientes nos quais as pessoas trabalham, consomem, publicam e circulam sem necessariamente sentir que pertencem a alguma coisa.
A tecnologia ampliou nossa capacidade de aparecer, mas aparecer não é o mesmo que fazer parte. Ser visto não significa ser reconhecido. Receber reações não significa construir vínculos. Ter seguidores não garante que exista alguém disposto a ouvir quando a imagem pública perde a força.
Fazer parte exige mais do que presença física ou visibilidade. Exige abertura. Quem acumulou conhecimento precisa continuar disposto a aprender. Quem viveu mais não pode transformar experiência em superioridade. Quem é mais jovem não deveria tratar tudo o que veio antes como inútil ou ultrapassado. Uma sociedade amadurece quando cria pontes entre memória e renovação.
A experiência só se torna legado quando aceita o diálogo com o presente. Não basta dizer que se viveu muito. É necessário compreender que o mundo mudou e que as novas gerações possuem perguntas, linguagens e desafios diferentes. Da mesma forma, a novidade não deveria servir como justificativa para desprezar aprendizados que poderiam evitar a repetição de antigos erros.
Continuar relevante, portanto, não é permanecer no centro. Também não é impedir que os outros desenvolvam autonomia. O líder que precisa ser indispensável não construiu relevância. Construiu dependência. O pai ou a mãe que não aceita a autonomia dos filhos não preserva o vínculo. Tenta preservar o controle. O profissional que retém conhecimento para continuar necessário não protege sua importância. Revela medo de deixar de ocupar poder.
A relevância humana aparece de outra maneira. Ela está na capacidade de melhorar uma conversa, fortalecer uma decisão, transmitir conhecimento, oferecer cuidado e criar condições para que outras pessoas também cresçam. Quem verdadeiramente contribui não precisa manter todos ao redor dependentes de sua presença.
Talvez o medo contido na frase inicial não deva ser o de que ninguém mais nos cobre. A cobrança pode desaparecer por muitos motivos e, em alguns momentos, libertar-nos de expectativas que nunca foram nossas. O cuidado necessário é outro. Não permitir que a acomodação, o ressentimento, o isolamento ou a recusa em aprender nos afastem tanto da vida coletiva que já não saibamos como participar dela.
Uma vida socialmente significativa não precisa ser grandiosa. Ela precisa ser compartilhada. Enquanto houver disposição para escutar, aprender, cuidar, transmitir e construir vínculos, ainda haverá algo humano a oferecer.
No fim, continuar relevante não é continuar sendo necessário para tudo. É continuar fazendo parte.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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