Aguarde, carregando...

Quinta-feira, 17 de Setembro 2026
Nem todos começam do mesmo lugar
Coluna da Camile

Nem todos começam do mesmo lugar

O tempo pode ser igual para todos, mas as oportunidades nunca foram.

Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Nem todos começaram do mesmo lugar

Talvez a maior injustiça seja exigir os mesmos resultados de quem nunca teve as mesmas oportunidades.

Existe uma frase que ouvimos com frequência: “todos têm as mesmas 24 horas”.

Tecnicamente, sim.

Mas talvez essa seja uma das formas mais simplistas de falar sobre igualdade.

Porque duas pessoas podem ter exatamente as mesmas 24 horas e viver dias completamente diferentes.

Enquanto uma acorda em uma casa segura, tem acesso à educação, alimentação, internet, saúde, transporte e uma rede de apoio, outra pode começar o dia pensando em como chegar ao trabalho, cuidar dos filhos, pagar as contas ou simplesmente garantir a próxima refeição.

O relógio é o mesmo.

As condições, não.

E é aí que a desigualdade deixa de ser apenas um número em uma estatística e passa a ser uma experiência cotidiana.

Estamos acostumados a olhar para o resultado final. Quem conseguiu. Quem venceu. Quem empreendeu. Quem estudou. Quem comprou uma casa. Quem conseguiu “dar a volta por cima”.

Mas quase nunca perguntamos de onde cada pessoa partiu.

Existe uma tendência perigosa de transformar privilégio em mérito e dificuldade em falta de esforço.

Se alguém conseguiu, concluímos que bastaria querer para que todos conseguissem também.

Mas não basta querer.

O esforço importa, evidentemente. A dedicação importa. As escolhas importam.

Mas as oportunidades também.

E oportunidades não são distribuídas de maneira igual.

A desigualdade aparece quando duas pessoas são colocadas diante da mesma porta, mas uma delas já recebeu a chave e a outra sequer teve a chance de aprender onde fica a fechadura.

Por isso, falar em igualdade não deveria significar simplesmente oferecer exatamente a mesma coisa para todo mundo.

Às vezes, tratar todos da mesma maneira apenas mantém a desigualdade existente.

É preciso reconhecer que existem pessoas que precisam de mais suporte para alcançar aquilo que outras conseguem alcançar com muito menos obstáculos.

Isso não significa tirar de alguém para dar a outra pessoa.

Significa entender que uma sociedade realmente justa não deveria medir apenas quem chegou mais longe, mas também observar quais caminhos estavam disponíveis para cada um.

Talvez devêssemos ter mais cuidado quando dizemos que alguém “venceu sozinho”.

Ninguém constrói uma trajetória completamente sozinho.

Existe uma escola, uma família, uma oportunidade, uma indicação, um professor, um empregador, uma política pública, uma rede de apoio, uma condição econômica ou simplesmente uma circunstância favorável que, muitas vezes, não aparece na fotografia do sucesso.

E reconhecer isso não diminui o mérito de ninguém.

Pelo contrário.

Talvez nos torne mais honestos sobre o mundo em que vivemos.

A desigualdade não está apenas na diferença entre quem tem muito e quem tem pouco.

Ela também está na diferença entre quem pode escolher e quem apenas reage às circunstâncias.

Entre quem pode errar e recomeçar e quem sabe que um único erro pode significar não pagar uma conta.

Entre quem tem tempo para pensar no futuro e quem precisa sobreviver ao presente.

Por isso, talvez a pergunta não devesse ser apenas:

“O que você fez para chegar até aqui?”

Mas também:

“O que você teve acesso para conseguir chegar até aqui?”

Porque não começamos do mesmo lugar.

E reconhecer isso não é criar desculpas.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
Camile Joana Sperb Secco

Publicado por:

Camile Joana Sperb Secco

Camile Joana, 25 anos, é publicitária e mestranda em Engenharia da Mídia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde pesquisa comunicação digital com foco em acessibilidade em museus brasileiros sob a perspectiva semiótica.

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR