“Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos.”
Nelson Rodrigues
Na semana de aniversário de Florianópolis, 353 anos, talvez valha fazer uma pergunta que ultrapassa a capital catarinense. O Brasil está mesmo preparado para a nova fase urbana que começa a se desenhar diante de nós? Falamos cada vez mais em inovação, mobilidade limpa, edifícios inteligentes e futuro sustentável. Cresce a presença dos carros elétricos nas ruas, a instalação de pontos de recarga e o discurso de modernização. Mas há uma parte decisiva desse debate que continua quase invisível. E não está na vitrine. Mas na estrutura elétrica dos prédios, na capacidade das redes, na lógica de consumo das cidades e nas regras que ainda não criamos para organizar tudo isso.
A eletrificação da mobilidade já não é hipótese distante. Em janeiro de 2026, os veículos leves eletrificados chegaram a 15 por cento de participação no mercado brasileiro daquele mês, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). No horizonte mais amplo, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta milhões de veículos eletrificados em circulação no país até 2035. Ao mesmo tempo, o consumo de energia continuará crescendo. Isso significa que a discussão deixou de ser apenas ambiental ou simbólica. Ela passou a ser estrutural.
No podenos resumir tudo no erro de se fazer a pergunta mais apressada de todas. De onde vamos tirar tanta energia(?). Essa pergunta é legítima, mas incompleta. O problema não está apenas em produzir mais. Está em distribuir melhor, medir melhor, regular melhor e usar melhor a energia que já temos e a que ainda precisaremos expandir. A Agência Internacional de Energia (IEA), organismo de referência mundial em política energética, vem alertando que as redes elétricas podem se tornar um dos principais gargalos da transição energética se não forem modernizadas no mesmo ritmo em que cresce a nova demanda.
Aqui que o debate fica mais sério. O carro elétrico, por si só, não cria o problema. O problema nasce quando milhares de decisões individuais se acumulam sobre uma infraestrutura coletiva que não foi pensada para essa nova realidade. Em um condomínio residencial ou comercial, a questão não é apenas instalar um carregador. A questão é saber se o edifício suporta essa carga, como medir o consumo de cada usuário, quem paga a adaptação da estrutura, como evitar sobrecarga nos horários de pico e de que forma transformar um interesse legítimo de alguns moradores em uma solução justa para todos. A Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc) já tem norma específica para estações de recarga em edificações de uso coletivo, justamente porque o tema deixou de ser teórico.
O mundo mais atento a esse processo já percebeu que não basta multiplicar carregadores. É preciso organizar a recarga. A IEA mostra que a infraestrutura pública de recarga continua crescendo de forma acelerada, mas o debate internacional amadureceu. Hoje a discussão relevante não é apenas quantos pontos existem. É como eles se integram à rede, como se distribui o consumo ao longo do dia, como os edifícios são preparados desde a origem e como a cidade evita transformar a transição energética em novo fator de conflito urbano.
A União Europeia (UE) já se moveu nessa direção ao exigir preparação mais robusta dos edifícios para a mobilidade elétrica. A lógica ali é simples e inteligente. Adaptar depois custa mais, gera mais conflito e atrasa a mudança. Preparar antes reduz o atrito e dá racionalidade à expansão. Nos Estados Unidos, os materiais públicos de orientação para habitações multifamiliares tratam exatamente dos mesmos pontos que logo ocuparão o centro da discussão brasileira, capacidade elétrica, modelo de cobrança, operação, manutenção, governança e acesso dos moradores à recarga.
O Brasil corre o risco de repetir um velho vício. Modernizar a aparência sem reorganizar a base. Compramos o símbolo antes de enfrentar a estrutura. É um padrão conhecido em mobilidade, em urbanismo e em infraestrutura. Agora ele pode reaparecer na eletrificação urbana. Podemos celebrar a frota nova, os prédios modernos e o marketing da cidade inteligente sem discutir seriamente o que sustentará tudo isso no cotidiano. E cotidiano, nesse caso, significa conta de energia, quadro de carga, entrada elétrica, segurança da instalação, medição individual, critério de rateio e capacidade real da rede.
Mas criticar isso sem apontar saída seria pouco. O bom debate público precisa ir além do diagnóstico. E a verdade é que há caminhos bastante claros.
O primeiro é urbanístico e regulatório. Novos empreendimentos residenciais e comerciais já deveriam nascer com preparação mínima para expansão futura da recarga elétrica. Não apenas com a vaga desenhada, mas com previsão de infraestrutura, capacidade escalável e medição adequada. Continuar aprovando edifícios como se o padrão de consumo do passado ainda bastasse para o futuro é empurrar um custo maior para depois. A experiência europeia mostra justamente o contrário. Planejar antes é mais inteligente do que improvisar depois.
O segundo caminho é condominial. Prédios e conjuntos empresariais precisarão tratar esse tema como governança de ativo coletivo, não como improviso de assembleia em momento de tensão. Isso passa por estudo técnico, planejamento de expansão por etapas, regras transparentes de uso, medição clara e critério justo para divisão de custos. Quando isso não é feito no início, a tendência é que o problema chegue primeiro como conflito entre vizinhos e só depois como solução de mobilidade.
O terceiro caminho é tecnológico. O país precisa discutir menos a ideia de recarga pura e simples e mais a ideia de recarga inteligente. Nem todo veículo precisa carregar ao mesmo tempo, na mesma potência e justamente no horário em que o sistema elétrico já está mais pressionado. A IEA vem mostrando que uma gestão mais inteligente da recarga pode reduzir picos de demanda, usar melhor a infraestrutura existente e tornar a eletrificação mais eficiente para consumidores e redes.
O quarto caminho é energético. A mobilidade elétrica não pode ser tratada separadamente da agenda de eficiência energética, digitalização da rede, geração distribuída e armazenamento. O debate inteligente não é apenas sobre produzir mais energia, mas sobre usar melhor, distribuir melhor e aliviar a pressão sobre a infraestrutura nos momentos mais críticos. Redes mais inteligentes e sistemas mais flexíveis são parte central da solução.
O quinto caminho é institucional. Municípios, distribuidoras, incorporadoras, administradoras de condomínio, construtoras e reguladores precisam conversar antes da crise. Nenhuma cidade se torna realmente inteligente quando cada agente decide isoladamente. Uma aprova o prédio, outra vende a inovação, outra reage à sobrecarga, outra tenta arbitrar o conflito quando ele já explodiu. Isso não é planejamento. Isso é apenas reação tardia.
Florianópolis me ajuda a enxergar essa discussão porque torna visível, em escala urbana, uma questão que já é nacional. O ponto central não é o Brasil. O modo como o país entra em uma nova etapa do consumo elétrico sem ter ainda decidido, com seriedade suficiente, como preparar edifícios, redes e regras de uso para esse futuro próximo. O tema já chegou ao Congresso Nacional, com projeto de lei voltado a pontos de recarga em condomínios. Isso por si só mostra que a transição saiu do campo da curiosidade e entrou no campo da política, da regulação e da convivência urbana.
O Brasil pode estar entrando na era da cidade elétrica com mentalidade analógica de infraestrutura. Mas esse atraso ainda pode ser corrigido. Para isso, será preciso trocar a estética da inovação pela disciplina do planejamento. Não basta eletrificar a frota. É preciso alfabetizar a infraestrutura.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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