Faz pouco tempo, um jogo era capaz de fazer o prédio inteiro gritar junto. O vizinho que você só cumprimenta de cabeça no elevador virou parceiro de churrasco por uma tarde. Famílias que mal se falavam no grupo de WhatsApp se reencontraram na frente da TV, unidas por uma coisa tão simples quanto torcer pelo mesmo gol. Durante alguns dias, o Brasil coube inteiro dentro de uma camisa amarela.
Esse parêntese está fechando. E o que vem a seguir é o oposto exato: outubro, com sua eleição presidencial, prestes a testar se a mesma intensidade que nos uniu numa Copa consegue nos dividir com a mesma força.
Porque é isso que a política virou: torcida. Não se discute mais proposta, histórico, coerência escolhe-se um lado e se defende esse lado como quem defende o escudo do peito, mesmo quando o time erra feio. Divergir passou a ser sinônimo de trair. E onde deveria haver debate, sobra bronca.
As sequelas disso já são velhas conhecidas: famílias que se calam nos grupos de família para não brigar ou brigam e nunca mais se calam, amizades de vinte anos encerradas por um comentário mal digerido, almoços de domingo em que todo mundo evita um assunto específico como quem evita pisar em vidro quebrado. Na ânsia de provar que está do lado certo da história, muita gente esquece o motivo pelo qual a política deveria existir: servir a vida das pessoas, não corroer o que existe entre elas.
Resta a pergunta prática: como se atravessa esse período sem sair do outro lado com menos gente ao redor?
Primeiro, é útil lembrar quem estava ali antes da urna. A pessoa sentada à sua frente não se resume ao voto que vai dar. É quem segurou sua mão num momento ruim, quem te conhece desde criança, quem construiu vida ao seu lado. Nenhum candidato vai aparecer na sua casa num domingo à noite. Trocar um vínculo real por uma figura pública que nem sabe que você existe é, no fim, um péssimo negócio.
Segundo, dá para substituir a torcida pela pergunta. No instante em que a conversa vira disputa em que alguém só ganha se o outro perder, existe uma saída simples: perguntar de verdade. "O que te faz pensar assim?" abre mais portas do que qualquer argumento pronto. Quase sempre, por trás de posições opostas, moram os mesmos medos: segurança, dinheiro no fim do mês, o futuro dos filhos.
Terceiro, limite também é cuidado. Não falar de política em certos momentos não é fraqueza nem covardia é reconhecer que alguns espaços foram feitos para outra coisa. Saber guardar um assunto para depois é, muitas vezes, o que garante que ainda vai haver um depois.
A democracia existe justamente para abrigar o desacordo. O problema nunca foi discordar é deixar de enxergar humanidade em quem discorda. Outubro vai passar, as urnas vão fechar, os discursos vão parar. E vai sobrar uma pergunta bem mais difícil de responder nas urnas: quem vai continuar por perto quando a poeira baixar?
Se a polarização levar embora os laços que resistiram a tudo até aqui, a política terá vencido uma disputa que nunca deveria ter existido.
Folha de Florianópolis
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