Planejar a educação nunca foi simples. Mas, no século XXI, improvisar tornou-se imperdoável. Sistemas educacionais que seguem reagindo apenas às crises — pandemia, evasão, queda de aprendizagem, escassez de professores — caminham para um colapso silencioso. É justamente esse alerta que ecoa com força em The Future of Educational Planning, obra clássica de Philip H. Coombs, publicada sob a égide da UNESCO e ainda desconfortavelmente atual.
Coombs foi direto: a educação entra em crise quando cresce sem planejamento, sem coerência interna e sem conexão com a sociedade. Décadas depois, o diagnóstico segue válido — e talvez mais grave.
A crise não é apenas de recursos, é de direção
O autor desmonta uma ilusão recorrente: a de que investir mais, por si só, resolve os problemas educacionais. Sem planejamento sistêmico, o aumento de recursos apenas amplia ineficiências. Expansão desordenada de matrículas, currículos inchados, formação docente desconectada da realidade e avaliações que não retroalimentam decisões são sintomas clássicos dessa falha estrutural.
No Brasil, convivemos com esse paradoxo diariamente: mais políticas, mais programas, mais discursos — e resultados teimosamente desiguais. Falta o elo central que Coombs defendia: planejamento educacional como processo contínuo, técnico e político, orientado por dados e por finalidades sociais claras.
Planejar é decidir — e decidir envolve escolhas difíceis
Um dos pontos mais provocativos do livro é lembrar que planejar educação não é apenas projetar cenários otimistas, mas assumir escolhas. Quem priorizar? Onde investir primeiro? Que etapas precisam de choque de qualidade e quais demandam consolidação?
Coombs defende que o planejamento educacional precisa articular:
- projeções demográficas realistas;
- análise de custos e sustentabilidade;
- qualidade do ensino, não apenas acesso;
- coerência entre educação, trabalho e desenvolvimento social.
Ou seja: planejar educação é governar o futuro. E isso exige coragem técnica e política.
O papel do gestor público: menos improviso, mais método
Para secretários de educação, dirigentes e gestores escolares, a mensagem é cristalina: boas intenções não substituem bons modelos de planejamento. A ausência de visão de médio e longo prazo cobra seu preço — em evasão, desmotivação docente e fracasso escolar.
Coombs já advertia que sistemas educacionais que não se adaptam às transformações sociais acabam se tornando obstáculos ao próprio desenvolvimento. Em tempos de inteligência artificial, novas formas de trabalho e profundas desigualdades educacionais, planejar deixou de ser burocracia: virou estratégia de sobrevivência institucional.
Educação não se corrige no improviso
Se há uma lição central em The Future of Educational Planning, é esta: educação não se conserta com medidas emergenciais permanentes. Ela exige visão, método, dados e, sobretudo, compromisso público com decisões sustentáveis.
Planejar é antecipar. Planejar é escolher. Planejar é assumir responsabilidade histórica. Quem não planeja a educação, transfere o custo — e o fracasso — para as próximas gerações.
E elas, ao contrário dos discursos, não aceitam desculpas.
Folha de Florianópolis
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