Existe um equívoco comum sobre a origem da doutrinação cultural de esquerda. Muitos a atribuem a Antonio Gramsci e sua teoria da hegemonia cultural. Gramsci certamente teorizou bem o tema, mas a prática veio antes. E veio da Rússia, de homens cujos nomes quase ninguém conhece hoje.
O primeiro deles é Piotr Tkachev. Enquanto Marx acreditava que a doutrinação socialista deveria preceder a tomada do poder, Tkachev pensava o contrário: era perda de tempo tentar convencer os trabalhadores antes da revolução. O caminho era mais direto. Um pequeno grupo de revolucionários profissionais tomaria o poder por um golpe de Estado e, a partir daí, usaria toda a máquina estatal, os jornais, a arte e a educação, para moldar a consciência da população. A doutrinação viria depois, financiada e imposta pelo Estado conquistado.
Lenin leu Tkachev com atenção. Não apenas leu: recomendou seus textos como leitura obrigatória aos próprios seguidores. O modelo que aplicou em 1917 foi, em boa medida, o de Tkachev. A chamada doutrinação gramsciana que se instalou nas universidades brasileiras tem raízes mais antigas e mais violentas do que seus praticantes costumam admitir.
Mas Tkachev não estava sozinho. Havia também Vissarion Belinski, crítico literário do século XIX que defendeu uma ideia então revolucionária: a arte não deve ser julgada pelo seu valor estético, mas pelo seu conteúdo político. Quanto mais engajada a obra, melhor ela seria. Belinski é o pai da crítica social da literatura, não só na Rússia, mas em toda a Europa. Foi ele quem primeiro transformou a cultura em campo de batalha ideológico.
Essa visão contaminou os bolcheviques. No regime soviético, todo artista era obrigado a ser propagandista do Estado. Quem recusasse enfrentava o ostracismo ou os gulags. O método ganhou nome oficial no primeiro Congresso de Escritores Soviéticos, em 1934: realismo socialista. Seu introdutor, Máximo Gorki, descreveu o método sem pudor como a mentira consoladora necessária para criar uma nova realidade. Os delegados aplaudiram.
O caso de Gorki é exemplar. Ele havia sido um dos primeiros críticos dos bolcheviques quando chegaram ao poder, apesar de ser socialista e amigo pessoal de Lenin, a quem financiava generosamente. Mas Stalin sabia o que estava fazendo. Nos anos 1930, ofereceu ao escritor mais lido da Rússia o título de pai da literatura soviética, uma mansão que antes pertencera a um milionário moscovita, casas de campo, criados, motoristas e segurança pagos pelo Estado. Gorki voltou à União Soviética e passou a defender o regime. O partido havia comprado não apenas um escritor, mas um símbolo.
O modelo funcionou além das fronteiras soviéticas. Ao longo do século XX, a filiação ao Partido Comunista tornou-se um passaporte para a imortalidade artística. Picasso era um multimilionário que morava em castelos e batia em suas mulheres, mas sua carteirinha do partido o blindava de qualquer crítica da esquerda. Pablo Neruda escreveu odes a Stalin mesmo depois de seus crimes serem de conhecimento público. Sua perseguição política no Chile lhe rendeu a aura de mártir e favoreceu o Nobel de Literatura em 1971. O partido ganhava o prestígio do artista. O artista ganhava proteção, prêmios e eternidade.
No Brasil, o mecanismo foi o mesmo. A relação entre o Partido Comunista Brasileiro e a produção artística criou uma rede de prestígio que garantiu a consagração de nomes como Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha e Oscar Niemeyer. O caso de Glauber Rocha é revelador pelo avesso: depois de anos tratado como gênio incontestável, ele passou a apoiar o regime militar e perdeu imediatamente a aura. O talento não havia mudado. A filiação, sim.
Vale esclarecer o que está em jogo aqui. Todo artista tem o direito de defender suas convicções. O problema não é a liberdade de expressão, é exatamente o contrário. O socialismo, tanto no passado soviético quanto em suas versões contemporâneas, não admite que o artista tenha convicções próprias. No 11º Congresso do Partido Comunista Francês, Laurent Casanova foi direto ao ponto: não é função dos escritores conceber ou discutir a política do partido. É função deles aplicá-la. O militante não pensa por si mesmo. O partido pensa e se expressa por meio dele.
O escritor soviético Ewald Ilenkov, vencedor do Prêmio Stalin em 1949, celebrou essa uniformidade com entusiasmo perturbador: 'Durante milhares de anos os homens sofreram pelo fato de não pensarem do mesmo modo. Nós soviéticos, pela primeira vez, somos destinados a pensar de maneira idêntica sobre as coisas principais da vida. Ficamos fortes com essa unidade ideológica.' O livro se chamava A Estrada Mestra. Era, de fato, uma estrada. Só que de mão única.
A lição que fica não é sobre o passado soviético. É sobre o presente. Quando a qualidade de uma obra é avaliada pelo seu engajamento político, quando prêmios literários recaem sistematicamente sobre determinadas visões de mundo, quando artistas são cancelados não pelo que fazem mas pelo que pensam, o método de Belinski está funcionando. Os nomes mudaram. O mecanismo é o mesmo.
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