Seu Portal de Notícias

Aguarde, carregando...

Quarta-feira, 01 de Abril 2026

Coluna do Rogério Franco
62 Acessos

A arte a serviço da revolução

Como o socialismo transformou a cultura em propaganda e por que isso ainda importa

IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Existe um equívoco comum sobre a origem da doutrinação cultural de esquerda. Muitos a atribuem a Antonio Gramsci e sua teoria da hegemonia cultural. Gramsci certamente teorizou bem o tema, mas a prática veio antes. E veio da Rússia, de homens cujos nomes quase ninguém conhece hoje.

 O primeiro deles é Piotr Tkachev. Enquanto Marx acreditava que a doutrinação socialista deveria preceder a tomada do poder, Tkachev pensava o contrário: era perda de tempo tentar convencer os trabalhadores antes da revolução. O caminho era mais direto. Um pequeno grupo de revolucionários profissionais tomaria o poder por um golpe de Estado e, a partir daí, usaria toda a máquina estatal, os jornais, a arte e a educação, para moldar a consciência da população. A doutrinação viria depois, financiada e imposta pelo Estado conquistado.

 Lenin leu Tkachev com atenção. Não apenas leu: recomendou seus textos como leitura obrigatória aos próprios seguidores. O modelo que aplicou em 1917 foi, em boa medida, o de Tkachev. A chamada doutrinação gramsciana que se instalou nas universidades brasileiras tem raízes mais antigas e mais violentas do que seus praticantes costumam admitir.

 Mas Tkachev não estava sozinho. Havia também Vissarion Belinski, crítico literário do século XIX que defendeu uma ideia então revolucionária: a arte não deve ser julgada pelo seu valor estético, mas pelo seu conteúdo político. Quanto mais engajada a obra, melhor ela seria. Belinski é o pai da crítica social da literatura, não só na Rússia, mas em toda a Europa. Foi ele quem primeiro transformou a cultura em campo de batalha ideológico.

 Essa visão contaminou os bolcheviques. No regime soviético, todo artista era obrigado a ser propagandista do Estado. Quem recusasse enfrentava o ostracismo ou os gulags. O método ganhou nome oficial no primeiro Congresso de Escritores Soviéticos, em 1934: realismo socialista. Seu introdutor, Máximo Gorki, descreveu o método sem pudor como a mentira consoladora necessária para criar uma nova realidade. Os delegados aplaudiram.

 O caso de Gorki é exemplar. Ele havia sido um dos primeiros críticos dos bolcheviques quando chegaram ao poder, apesar de ser socialista e amigo pessoal de Lenin, a quem financiava generosamente. Mas Stalin sabia o que estava fazendo. Nos anos 1930, ofereceu ao escritor mais lido da Rússia o título de pai da literatura soviética, uma mansão que antes pertencera a um milionário moscovita, casas de campo, criados, motoristas e segurança pagos pelo Estado. Gorki voltou à União Soviética e passou a defender o regime. O partido havia comprado não apenas um escritor, mas um símbolo.

 O modelo funcionou além das fronteiras soviéticas. Ao longo do século XX, a filiação ao Partido Comunista tornou-se um passaporte para a imortalidade artística. Picasso era um multimilionário que morava em castelos e batia em suas mulheres, mas sua carteirinha do partido o blindava de qualquer crítica da esquerda. Pablo Neruda escreveu odes a Stalin mesmo depois de seus crimes serem de conhecimento público. Sua perseguição política no Chile lhe rendeu a aura de mártir e favoreceu o Nobel de Literatura em 1971. O partido ganhava o prestígio do artista. O artista ganhava proteção, prêmios e eternidade.

 No Brasil, o mecanismo foi o mesmo. A relação entre o Partido Comunista Brasileiro e a produção artística criou uma rede de prestígio que garantiu a consagração de nomes como Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha e Oscar Niemeyer. O caso de Glauber Rocha é revelador pelo avesso: depois de anos tratado como gênio incontestável, ele passou a apoiar o regime militar e perdeu imediatamente a aura. O talento não havia mudado. A filiação, sim.

 Vale esclarecer o que está em jogo aqui. Todo artista tem o direito de defender suas convicções. O problema não é a liberdade de expressão, é exatamente o contrário. O socialismo, tanto no passado soviético quanto em suas versões contemporâneas, não admite que o artista tenha convicções próprias. No 11º Congresso do Partido Comunista Francês, Laurent Casanova foi direto ao ponto: não é função dos escritores conceber ou discutir a política do partido. É função deles aplicá-la. O militante não pensa por si mesmo. O partido pensa e se expressa por meio dele.

 O escritor soviético Ewald Ilenkov, vencedor do Prêmio Stalin em 1949, celebrou essa uniformidade com entusiasmo perturbador: 'Durante milhares de anos os homens sofreram pelo fato de não pensarem do mesmo modo. Nós soviéticos, pela primeira vez, somos destinados a pensar de maneira idêntica sobre as coisas principais da vida. Ficamos fortes com essa unidade ideológica.' O livro se chamava A Estrada Mestra. Era, de fato, uma estrada. Só que de mão única.

 A lição que fica não é sobre o passado soviético. É sobre o presente. Quando a qualidade de uma obra é avaliada pelo seu engajamento político, quando prêmios literários recaem sistematicamente sobre determinadas visões de mundo, quando artistas são cancelados não pelo que fazem mas pelo que pensam, o método de Belinski está funcionando. Os nomes mudaram. O mecanismo é o mesmo.

Para saber mais, assista ao vídeo no YouTube e adquira o livro Lênin, o Homem por Trás do Mito, de Alyson Nonato.

Comentários:
Rogério Mazzetto Franco

Publicado por:

Rogério Mazzetto Franco

Rogério Mazzetto Franco é formado em Direito, pós-graduado em Direito Penal e Processo Penal, e também formado em Filosofia. Atua como ativista político, unindo rigor jurídico e reflexão filosófica na defesa de uma sociedade mais justa e racional.

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR