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Terça-feira, 19 de Maio 2026
Quando a competência vira punição

COLUNA DO DIOGO ROCHA
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Quando a competência vira punição

Quanto mais você entrega, mais carga recebe, e o sistema começa a punir exatamente quem mais performa

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Existe um fenômeno silencioso dentro das organizações modernas que raramente aparece nos relatórios de gestão, mas que muitos profissionais de alta performance reconhecem imediatamente quando o encontram. Ele não costuma ser discutido em reuniões estratégicas, tampouco aparece como indicador formal de cultura organizacional. Ainda assim, molda profundamente a dinâmica de muitas equipes.

É a lógica invisível segundo a qual, quanto mais competente alguém se torna, mais carga passa a receber.

No início da carreira, essa dinâmica parece natural. Profissionais que demonstram capacidade de resolver problemas, assumir responsabilidade e entregar resultados passam a ganhar confiança da liderança. Projetos mais relevantes surgem. Desafios maiores aparecem. A exposição aumenta. Em um primeiro momento, tudo isso é percebido como reconhecimento.

Com o tempo, porém, algo começa a mudar.

Novos projetos continuam chegando, mas raramente substituem os anteriores. Problemas complexos passam a ser automaticamente direcionados para a mesma pessoa. Situações críticas são encaminhadas sempre ao mesmo profissional. O raciocínio implícito é simples: se alguém resolve bem, faz sentido que continue resolvendo.

Gradualmente, a competência passa a funcionar como um ímã de responsabilidades.

O que antes parecia um prêmio começa a se transformar em sobrecarga estrutural.

Esse fenômeno não nasce, necessariamente, de decisões conscientes. Em muitos casos ele surge de um padrão organizacional bastante comum: a tendência de concentrar desafios nas pessoas que demonstram maior capacidade de execução. Quando um sistema corporativo opera sob pressão constante por resultados, a busca por eficiência imediata faz com que líderes recorram sempre aos profissionais mais confiáveis.

No curto prazo, essa estratégia funciona.

No longo prazo, ela gera distorções profundas.

O professor da Stanford Graduate School of Business, Jeffrey Pfeffer, que há décadas estuda o impacto dos ambientes corporativos sobre comportamento e saúde organizacional, observa que muitas empresas recompensam desempenho elevado com um aumento contínuo de pressão e expectativa. O profissional passa a ser visto como alguém que sempre estará disponível para absorver novas demandas, resolver conflitos e sustentar projetos críticos.

A competência deixa de ser apenas um atributo valorizado.

Ela passa a representar disponibilidade permanente.

Esse processo costuma se intensificar porque profissionais altamente competentes também desenvolvem uma forte identificação com sua capacidade de entrega. Resolver problemas torna-se parte de sua identidade profissional. Ser reconhecido como alguém confiável gera satisfação, pertencimento e propósito.

Dizer “não” passa a ser emocionalmente difícil.

Aceitar mais uma responsabilidade parece, quase sempre, a decisão natural.

Assim, forma-se um ciclo silencioso. A organização continua delegando porque o profissional responde bem. O profissional continua aceitando porque quer manter seu padrão de excelência. E a carga aumenta progressivamente.

A pesquisadora Teresa Amabile, da Harvard Business School, investigou por décadas os fatores que sustentam a motivação e a criatividade no trabalho. Um de seus conceitos mais conhecidos, o chamado “progress principle”, demonstra que o progresso significativo em tarefas importantes é um dos principais motores de motivação humana. Quando as pessoas percebem que avançam em projetos relevantes, sua energia psicológica aumenta.

O problema surge quando o número de demandas supera a capacidade de foco e reflexão.

Nesse cenário, o progresso deixa de ser percebido. As tarefas tornam-se fragmentadas, urgentes e desconectadas. A mente passa a operar em modo reativo, respondendo a estímulos constantes em vez de construir soluções profundas.

O profissional continua produzindo.

Mas já não consegue pensar com a mesma clareza.

Esse padrão é particularmente visível entre líderes. Muitos gestores chegam às posições de liderança justamente por sua capacidade de execução. São profissionais que se destacaram por resolver problemas complexos, assumir responsabilidade e entregar resultados consistentes.

No entanto, ao assumir uma posição de liderança, algo curioso frequentemente acontece.

Em vez de se afastarem da operação para pensar estrategicamente, eles se tornam o ponto de convergência de todos os problemas do sistema. Conflitos da equipe, demandas da diretoria, pressões de clientes e desafios operacionais passam a se acumular sobre a mesma pessoa.

O líder se transforma em um amortecedor organizacional.

Ele absorve tensões que vêm de cima, de baixo e dos lados.

Durante algum tempo, isso funciona. Mas lentamente surge um tipo específico de desgaste: a exaustão funcional. O líder continua performando, continua tomando decisões e conduzindo o time, mas internamente começa a operar no limite cognitivo.

Outro fator estrutural reforça esse fenômeno: a forma como muitas organizações distribuem responsabilidades. Em teoria, o desenvolvimento de equipes deveria envolver a distribuição progressiva de desafios para diferentes membros do time, permitindo que novas competências sejam formadas.

Na prática, porém, a lógica da urgência costuma prevalecer.

Quando algo precisa ser resolvido rapidamente, o problema vai para quem já demonstrou capacidade. O sistema privilegia a eficiência imediata em vez da construção de capacidade coletiva.

O resultado é previsível: alguns profissionais ficam sobrecarregados enquanto outros permanecem subutilizados.

O economista e cientista organizacional Herbert Simon, prêmio Nobel e pioneiro do estudo da racionalidade limitada nas decisões humanas, explicava que sistemas complexos frequentemente evoluem por meio de decisões locais que parecem eficientes no curto prazo, mas produzem distorções no longo prazo.

A concentração de responsabilidades nos mais competentes é um exemplo clássico desse fenômeno. Cada decisão isolada parece lógica. Mas o sistema, como um todo, torna-se progressivamente desequilibrado.

Algumas organizações conhecidas ilustram bem esse paradoxo. Durante seu período de expansão acelerada, a Netflix construiu uma cultura organizacional baseada em alta autonomia e alto desempenho. Profissionais altamente competentes recebiam liberdade significativa para tomar decisões e conduzir projetos importantes. Ao mesmo tempo, essa cultura também implicava um nível intenso de responsabilidade. Aqueles considerados “altamente talentosos” frequentemente assumiam múltiplos desafios simultaneamente, sustentando o ritmo de inovação da empresa.

A competência era celebrada, mas também vinha acompanhada de enorme exigência.

Outro exemplo amplamente discutido envolve a Amazon, especialmente em sua fase de crescimento exponencial. A empresa desenvolveu mecanismos para identificar profissionais capazes de elevar o padrão das equipes, frequentemente chamados de “bar raisers”. Esses profissionais eram direcionados para os projetos mais críticos, com prazos agressivos e alto nível de responsabilidade estratégica.

Esse modelo contribuiu para o crescimento extraordinário da organização. Mas também evidenciou um padrão recorrente: os mais capazes tornavam-se o epicentro das maiores pressões.

Esses casos não são exceções. Eles refletem um comportamento estrutural presente em muitas organizações orientadas por performance.

O risco desse modelo é que, ao longo do tempo, a competência passa a gerar desgaste acumulado. Profissionais altamente capazes podem começar a reduzir iniciativa, evitar exposição excessiva ou até buscar ambientes menos intensos.

O sistema perde exatamente as pessoas que mais precisava preservar.

Por isso, organizações mais maduras têm começado a repensar essa lógica. Em vez de concentrar responsabilidades apenas em quem resolve melhor, elas buscam transformar competência em multiplicação de capacidade.

Profissionais experientes deixam de ser apenas solucionadores de problemas e passam a atuar como desenvolvedores de outros talentos.

O foco deixa de ser “quem resolve”.

Passa a ser “quem constrói sistemas que resolvem”.

Outra mudança importante envolve a redefinição do próprio conceito de desempenho. Em muitas culturas corporativas, o profissional mais valorizado é aquele que assume mais tarefas, responde mais rápido e participa de mais projetos.

Entretanto, organizações que buscam sustentabilidade de longo prazo começam a valorizar outro tipo de contribuição: a capacidade de estruturar processos, formar equipes autônomas e reduzir dependências operacionais.

Nesse modelo, competência não significa fazer mais. Significa tornar o sistema mais inteligente.

Existe também uma dimensão individual importante nesse debate. Profissionais altamente competentes precisam desenvolver discernimento sobre onde investir energia. Aceitar todas as demandas pode parecer sinal de comprometimento, mas muitas vezes apenas dilui a própria excelência.

Sustentar performance ao longo do tempo exige escolhas conscientes.

Talvez a reflexão mais relevante seja esta: organizações verdadeiramente inteligentes não exploram a competência de seus melhores profissionais até o limite.

Elas a protegem. Porque sabem que talento não é um recurso infinito.

E quando a competência começa a se transformar em punição silenciosa, o sistema inteiro está sinalizando que algo precisa ser redesenhado.

A pergunta final, portanto, permanece aberta.

Nas organizações que estamos construindo, estamos premiando competência…

ou simplesmente transferindo para ela o peso de sustentar sistemas que ainda não aprenderam a distribuir responsabilidade de forma inteligente?

FONTE/CRÉDITOS: Diogo Monticeli Rocha
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Autoral
Comentários:
 DIOGO MONTICELI ROCHA

Publicado por:

 DIOGO MONTICELI ROCHA

É executivo, consultor e desenvolvedor de pessoas, com mais de 18 anos de experiência em liderança, gestão de pessoas e educação corporativa. 

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