Quando a infância deixa de ser um lugar seguro: a violência que continua atravessando gerações
Por Fatima Rozz — Mentora das Emoções | Reprogramação Emocional | Expansão da Consciência
Estamos em 2026. Temos acesso à informação, falamos cada vez mais sobre saúde emocional e conhecemos melhor os impactos da violência na vida humana. Ainda assim, muitas crianças continuam vivendo situações que deveriam ser inaceitáveis dentro de qualquer família.
Recentemente, ouvi relatos que me fizeram refletir sobre uma realidade que não pode ser ignorada. Adolescentes que praticam esportes, frequentam a escola, convivem com amigos e participam de competições, também podem carregar dores que ninguém imagina. Algumas dessas dores são tão intensas que chegam à automutilação, como uma tentativa de lidar com um sofrimento emocional que não conseguem expressar de outra maneira.
Os relatos incluíam agressões físicas dentro de casa, humilhações e cobranças que ultrapassaram todos os limites do cuidado e da educação.
Diante disso, uma pergunta precisa ser feita: quantas crianças estão tentando sobreviver emocionalmente dentro do lugar onde deveriam se sentir protegidas?
Educar não é provocar medo. Corrigir não é humilhar. Amar não é ferir.
Uma criança que tira uma nota abaixo do esperado não merece violência. Um adolescente que perdeu uma competição não merece ser tratado como um fracasso. Filhos não são extensões das expectativas dos pais, tampouco máquinas programadas para produzir resultados.
Quando o desempenho se torna mais importante do que a dignidade, algo precisa ser revisto nas relações familiares.
A dor que não aparece nos boletins
Nem toda criança que sofre apresenta sinais evidentes. Algumas continuam estudando, sorrindo, praticando esportes e tentando corresponder às expectativas dos adultos. Outras desenvolvem medo, isolamento, ansiedade, dificuldades de relacionamento ou comportamentos que demonstram sofrimento.
A automutilação, por exemplo, não deve ser confundida automaticamente com um diagnóstico específico. Ela pode estar relacionada a diferentes formas de sofrimento e precisa ser avaliada por profissionais qualificados.
O caminho não é julgar, ameaçar ou castigar a criança por aquilo que está acontecendo. É garantir sua segurança, escutar e buscar ajuda adequada.
Também precisamos compreender que a violência não se limita à agressão física. Humilhações constantes, ameaças, intimidação e desvalorização podem comprometer profundamente a sensação de segurança de uma criança.
Quando a história se repete
Conheço essa realidade também pela minha própria história. Vivi situações de violência durante a infância e carreguei marcas que me acompanharam por muitos anos.
Na adolescência, cheguei a um limite de sofrimento e reagi de uma maneira que também trouxe consequências. Hoje, consigo olhar para aquela história com mais consciência e compreender a importância de interromper ciclos de violência, sem justificar as agressões que aconteceram de nenhum dos lados.
Foi também a partir das minhas experiências que passei a valorizar o acompanhamento profissional e o trabalho de compreensão das emoções.
Sou mãe e tenho uma filha adolescente. Procuro oferecer a ela um ambiente diferente daquele em que cresci. Isso não significa acreditar que posso evitar todas as dores da vida, mas reconhecer que posso escutar, respeitar seus sentimentos e procurar ajuda quando necessário.
Às vezes, aquilo que um adulto considera pequeno pode ser enorme para um adolescente. Minha filha, por exemplo, pode se cobrar intensamente quando não alcança a nota que esperava, mesmo sem receber essa exigência de mim.
É nesse momento que precisamos escutar, em vez de comparar. A dor de uma pessoa não deixa de existir porque outra considera que ela deveria ser menor.
Romper o ciclo exige responsabilidade
A história de uma família não precisa determinar o futuro das próximas gerações. Mas interromper a violência exige mais do que boas intenções.
Pais que não conseguem controlar a agressividade precisam buscar ajuda e interromper os comportamentos violentos. Crianças e adolescentes que sofrem agressões precisam de proteção. E os adultos responsáveis devem reconhecer que o cuidado emocional também faz parte da criação dos filhos.
A psicoterapia e outros acompanhamentos profissionais adequados podem ajudar pessoas e famílias a compreender padrões, desenvolver recursos emocionais e construir relações mais saudáveis. Quando existe violência, entretanto, o primeiro passo é garantir a segurança da vítima.
Como mentora das emoções e profissional de reprogramação emocional, acredito na importância da consciência e da responsabilidade sobre aquilo que fazemos com a nossa dor.
Mas essa transformação não acontece culpando a criança, exigindo que ela seja forte ou esperando que o tempo resolva tudo.
Ela começa quando o adulto reconhece o próprio comportamento e decide agir de outra maneira.
Talvez não possamos mudar a infância que tivemos. Podemos, porém, procurar ajuda para que ela não continue determinando nossas relações e as experiências dos nossos filhos.
Uma criança não deveria precisar adoecer, se machucar ou chegar ao seu limite para que alguém perceba que ela precisa de ajuda.
Que possamos construir famílias em que o respeito não dependa das notas, das medalhas, do comportamento perfeito ou da capacidade de esconder o sofrimento.
Porque o verdadeiro desenvolvimento de uma criança não pode ser medido apenas pelos resultados que apresenta ao mundo, mas também pela segurança que sente para ser quem é dentro de casa.
Folha de Florianópolis
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