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Domingo, 20 de Setembro 2026
A escola diante de uma geração que já chega ao trabalho perguntando por autonomia, propósito e inteligência artificial
Coluna do Laôr

A escola diante de uma geração que já chega ao trabalho perguntando por autonomia, propósito e inteligência artificial

As pesquisas sobre a geração Z mostram jovens interessados em liderança e estabilidade, mas menos dispostos a aceitar antigas relações de trabalho. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial começa a modificar justamente as funções de entrada no mercado. A escola não pode prever todas as profissões que existirão, mas pode preparar os estudantes para aprender, decidir, conviver e se adaptar.

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As reportagens publicadas pelo Estadão neste domingo, 20 de setembro, sobre juventude e mercado de trabalho ajudam a desfazer uma caricatura que se tornou comum nos últimos anos. A geração Z brasileira não parece simplesmente rejeitar emprego formal, liderança, carreira ou responsabilidade. O quadro apresentado é bem mais contraditório e, justamente por isso, mais interessante para quem trabalha com educação.

A pesquisa do Instituto Ipsos apresentada pelo jornal mostra, por exemplo, que 41% dos jovens de 16 a 29 anos afirmam ter muito interesse em ocupar cargos de liderança ou gestão. Ao mesmo tempo, 25% dizem não ter interesse. Quando a pergunta é sobre vínculo profissional, 35% consideram o trabalho autônomo mais atraente, 27% preferem a carteira assinada e 37% avaliam as duas alternativas como igualmente vantajosas.

Talvez o dado mais inquietante para a escola esteja em outra reportagem da mesma série: 56% da geração Z declara grande preocupação com o risco de a inteligência artificial substituir ocupações e profissões.

É uma combinação curiosa. O jovem quer crescer, mas questiona o modelo tradicional de chefia. Busca autonomia, mas não necessariamente rejeita a segurança. Quer flexibilidade, sem abrir mão de renda. Usa tecnologia intensamente e, ao mesmo tempo, teme o que ela poderá fazer com seu trabalho.

Isso coloca uma questão diretamente no colo da educação: para qual mundo estamos preparando nossos estudantes?

A missão da escola ficou mais complexa

Seria um erro transformar a escola em uma espécie de curso preparatório para o primeiro emprego. Educação básica tem uma finalidade muito maior.

Mas também seria difícil defender uma escola completamente indiferente às transformações que seus alunos encontrarão poucos anos depois de sair dela.

A própria concepção curricular ajuda a compreender isso. Gimeno Sacristán lembra que o currículo concretiza as funções sociais e culturais atribuídas à educação escolar e funciona como uma ponte entre sociedade e escola. Portanto, quando a sociedade muda profundamente, não é razoável imaginar que currículo e práticas escolares possam permanecer intocados.

A inteligência artificial torna essa discussão particularmente urgente porque começa a atingir tarefas tradicionalmente utilizadas como porta de entrada dos jovens no mercado: produção de textos básicos, organização de informações, atendimento, pesquisa preliminar, análise de dados, programação inicial e atividades administrativas.

Isso não significa que o emprego juvenil desaparecerá. Significa que algumas tarefas pelas quais alguém começava a aprender uma profissão estão sendo reorganizadas.

E aqui surge um problema educacional importante.

Durante muito tempo, a escola preparou o estudante para responder corretamente a perguntas formuladas por outra pessoa. O ambiente profissional que está emergindo exige, cada vez mais, algo adicional: saber identificar problemas, formular perguntas, selecionar informações confiáveis, trabalhar com outras pessoas, comunicar decisões, aprender uma ferramenta nova e revisar a própria estratégia quando ela deixa de funcionar.

A IA pode produzir uma resposta em segundos. Isso aumenta, e não reduz, a importância de saber julgar a qualidade dessa resposta.

Os Conselhos de Educação começaram a se movimentar

Essa preocupação já deixou de ser apenas uma discussão acadêmica.

Em São Paulo, o Conselho Estadual de Educação publicou a Deliberação CEE nº 233/2025, estabelecendo diretrizes para Educação Digital e Computação na Educação Básica. A norma articula cultura digital, pensamento computacional e utilização ética e crítica das tecnologias ao currículo paulista. Posteriormente, o Conselho aprovou complemento específico sobre Educação Digital e Midiática.

Santa Catarina tomou outro caminho interessante. O Conselho Estadual de Educação realizou pesquisa com professores e estudantes sobre inteligência artificial e criou uma Comissão Especial de Estudos de Novas Estratégias para a Educação. Em 2024, o plenário aprovou parecer específico sobre “A inteligência artificial e educação” e, depois, outro sobre “Os impactos da inteligência artificial no campo da educação”.

No Paraná, o movimento já alcançou a educação profissional. Em 2026, o CEE/PR autorizou cursos técnicos de Inteligência Artificial e Dados, integrados ao Ensino Médio, em caráter de experimento pedagógico. Novas autorizações foram concedidas posteriormente para diferentes escolas da rede estadual.

O próprio CEE paranaense também divulgou a consulta pública do Conselho Nacional de Educação sobre diretrizes orientadoras para o uso de inteligência artificial na educação brasileira, ressaltando a necessidade de participação da comunidade educacional nessa construção.

Há, portanto, um movimento regulatório em curso. Mas regulamentar o uso da IA é apenas uma parte do problema.

Talvez a pergunta mais importante seja anterior à tecnologia

Quando um estudante diz que deseja autonomia no trabalho, como a escola responde?

Quando afirma que gostaria de liderar, onde aprende efetivamente a liderar?

Quando precisa negociar uma decisão coletiva, em que situações escolares exercita isso?

Quando fracassa em uma tarefa difícil, aprende apenas que tirou uma nota baixa ou recebe condições para analisar o erro, tentar novamente e construir outro repertório?

A discussão sobre erro e aprendizagem é antiga. O material organizado por Julio Groppa Aquino chama atenção justamente para o perigo de tratar o fracasso como característica do aluno, quando ele precisa ser analisado dentro das condições em que a aprendizagem ocorre.

Esse raciocínio ganha uma dimensão nova diante do mercado descrito pelas reportagens.

Adaptabilidade não é uma característica misteriosa que algumas pessoas possuem e outras não. Ela pode ser ensinada e exercitada.

Autonomia também.

Cooperação, liderança, tomada de decisão, persistência e capacidade de aprender diante de situações novas dependem das experiências oferecidas aos jovens.

Se durante doze anos o estudante recebe instruções, executa tarefas predeterminadas, espera a resposta correta do professor e raramente participa de decisões reais, não podemos esperar que, aos 18 anos, ele atravesse o portão da escola demonstrando subitamente autonomia, iniciativa e capacidade de liderar.

A comunidade escolar inteira entra nessa conversa

Essa discussão não deveria ficar restrita à aula de tecnologia.

A direção escolar pode aproximar currículo e realidade promovendo projetos nos quais estudantes investiguem problemas concretos da comunidade. Professores podem propor situações em que existam decisões a tomar, informações a selecionar e diferentes soluções possíveis. Empresas e profissionais do território podem mostrar como determinadas ocupações estão mudando. Ex-alunos podem relatar percursos profissionais menos lineares do que aqueles imaginados pelos estudantes.

As famílias também precisam participar.

Parte da ansiedade juvenil diante da profissão nasce da tentativa de aplicar a um mundo em transformação uma representação de carreira construída em outro período histórico: escolher uma profissão, entrar numa organização, subir progressivamente na hierarquia e permanecer nela durante décadas.

Essa trajetória continuará existindo para algumas pessoas. Para outras, a vida profissional poderá combinar emprego formal, projetos, empreendedorismo, mudanças de área, formação contínua e períodos de reinvenção profissional.

A escola pode criar espaços para que pais e estudantes conversem sobre essas possibilidades sem apresentar um único modelo como correto.

Também precisa discutir IA com as famílias. Não apenas para decidir se o aluno pode ou não utilizar determinada ferramenta em uma tarefa, mas para compreender privacidade, autoria, vieses, confiabilidade das informações, proteção de dados, ética e consequências sociais da automação.

O movimento federal segue nessa direção. Em 2026, o MEC lançou um Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação e um documento orientador voltado à integração curricular e às práticas éticas de IA. Também criou um sandbox regulatório para testar soluções sob princípios como proteção de dados, equidade e interesse público.

A ideia de comunidade também aparece nas políticas de convivência. Neste ano, o MEC orientou escolas a envolver estudantes, profissionais, gestores, famílias e parceiros do território em ações de participação, fortalecimento de vínculos e prevenção de violências.

Esse princípio pode ser aplicado à preparação para o futuro do trabalho.

O professor continua no centro

Existe uma ironia nessa história. Quanto mais sofisticada fica a tecnologia, mais importante se torna a qualidade da intervenção humana.

Um estudante pode ter acesso a um sistema capaz de explicar física, escrever código, traduzir textos e resolver uma equação. Ainda assim, alguém precisa organizar situações nas quais ele aprenda a pensar, identificar seus erros, persistir, argumentar, trabalhar coletivamente e utilizar aquilo que sabe para resolver problemas.

É justamente por isso que a formação docente não pode ser esquecida.

A literatura sobre formação mostra há décadas que professores constroem e reorganizam seus saberes profissionais na interação entre conhecimento, experiência e prática. Nóvoa também relaciona formação profissional ao desenvolvimento pessoal do professor e ao próprio desenvolvimento da escola como organização.

Entregar uma ferramenta de IA ao professor e chamá-lo de inovador é insuficiente. Ele precisa compreender o que a tecnologia faz, seus limites e, principalmente, quando utilizá-la pedagogicamente e quando não utilizá-la.

A escola não precisa adivinhar quais profissões existirão em 2040

Essa talvez seja uma tarefa impossível.

Há, porém, algo muito concreto que ela pode fazer agora.

Pode formar jovens capazes de continuar aprendendo quando aquilo que aprenderam já não for suficiente.

Pode proporcionar situações reais de escolha e responsabilidade. Pode ensinar a trabalhar com pessoas diferentes. Pode fazer o estudante argumentar, pesquisar, testar, errar, receber retorno e tentar novamente. Pode desenvolver alfabetização digital e em inteligência artificial sem abandonar leitura, escrita, matemática, ciência, história, artes e formação humana.

Pode ainda aproximar estudantes, professores, famílias, universidades, empresas e comunidade para discutir um mundo profissional que nenhum desses grupos, isoladamente, compreende por inteiro.

As reportagens sobre a geração Z talvez sejam menos um retrato definitivo de uma geração e mais uma fotografia de jovens tentando encontrar seu lugar em uma sociedade que está mudando enquanto eles entram nela.

A missão da escola não é escolher esse lugar por eles.

É ampliar o repertório necessário para que consigam construí-lo.

FONTE/CRÉDITOS: Laôr Fernandes de Oliveira
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira

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Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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