Atualmente, as terras raras representam um elemento chave na transformação estrutural do mundo, impulsionada pela descarbonização, digitalização e inovação tecnológica. Esses 17 metais, incluindo o escândio e o ítrio, estão presentes em aplicações essenciais para a economia do século XXI, como turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas fotovoltaicos e dispositivos médicos de alta precisão. Entretanto, a maior parte da capacidade de refino e processamento dessas matérias-primas está concentrada na China, que detém mais de 85% do mercado global, o que coloca o país em posição hegemônica e vulnerabiliza cadeias produtivas ocidentais.
Embora o Brasil possua a segunda maior concentração de terras raras no mundo, com suas reservas distribuídas por diversos estados, como Minas Gerais, Goiás, Bahia e regiões amazônicas, o potencial ainda é pouco explorado, e o país se encontra marginal na cadeia de valor global.
Para transformar esse potencial em vantagem competitiva, é fundamental desenvolver uma política industrial que envolva domínio tecnológico na separação, refino e agregação de valor, além de criar uma cadeia produtiva integrada no território nacional. Nesse contexto, é imprescindível estabelecer marcos regulatórios modernos e adotar práticas sustentáveis de mineração, garantindo a segurança ambiental e social.
Para inspirar esse processo, diversas experiências internacionais, como fundos estratégicos da China, Austrália, Estados Unidos e União Europeia, demonstram a importância de criar mecanismos de reserva e de estímulo à produção doméstica de minerais críticos. No Brasil, a proposta de um Fundo Mineral de Terras Raras (FMTR) visa fortalecer a soberania, incentivar a inovação tecnológica e promover a criação de uma cadeia de valor de alto impacto, que combine desde a exploração até a fabricação de componentes tecnológicos avançados. A estratégia busca garantir que o país deixe de ser apenas exportador de recursos brutos e passe a liderar em tecnologia e industrialização.
Regiões como Minas Gerais, Goiás, Bahia e a Amazônia apresentam, atualmente, um cenário promissor para o desenvolvimento dessas atividades. Estudos geológicos recentes indicam vastas reservas de minerais estratégicos, como monazita, bastnasita, nióbio e terras raras leves e pesadas, em complexos depositórios de alta potencialidade. A exploração sustentável, associada a tecnologias de baixo impacto ambiental, pode colocar o Brasil em uma posição de destaque na cadeia global de minerais críticos, fomentando a economia circular, inovação e inclusão social.
Contudo, esse processo exige mais do que simplesmente extrair recursos. É necessário criar uma estratégia de longo prazo que integre desenvolvimento científico, tecnológico, industrial e ambiental, promovendo uma mineração responsável, rastreável e que gere valor agregado no território nacional. Com a implementação de políticas públicas consistentes, investimentos em P&D e uma governança transparente, o Brasil pode transformar suas riquezas minerais em uma vantagem geopolítica, fortalecendo sua soberania e contribuindo para uma economia sustentável de alta tecnologia.
Por fim, o Brasil possui todas as condições para se posicionar como protagonista na cadeia de minerais críticos, principalmente as terras raras. Para isso, é preciso evoluir de uma lógica de exploração de recursos brutos para uma estratégia de inovação, sustentabilidade e valor agregado. A adoção de um modelo de desenvolvimento responsável, baseado em tecnologia, inclusão social e conservação ambiental, será fundamental para que o país capitalize suas riquezas naturais, liderando a nova economia verde e digital mundial, com um legado de sustentabilidade e protagonismo estratégico.
Folha de Florianópolis
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