Durante muito tempo, o crachá foi suficiente.
Ele definia quem mandava, quem obedecia, quem falava e quem apenas concordava com a cabeça. A hierarquia organizacional resolvia quase tudo: conflitos, dúvidas, divergências, incômodos. Bastava uma frase clássica: “Enquanto você estiver aqui, vai ser com o eu falo”.
Funcionou por décadas. Até que apareceu a geração de pessoas que começou a olhar para isso e perguntar: “Mas por quê?”.
É aí que o crachá deixou de ser suficiente.
Essa geração é aquela que você ajudou a criar, ela está entrando nas empresas com uma combinação explosiva: acesso integral à informação, nenhum medo das autoridades hierárquica e uma sensibilidade muito maior para as incoerências.
Não é que eles não respeitem ninguém.
Pra eles "respeito" vem depois do entendimento e das razões.
Nas empresas, a tradução desse movimento é direta.
O que muitos líderes chamam de “falta de comprometimento” é, muitas vezes, apenas uma recusa a repetir rituais que não fazem sentido.
O que é rotulado de “falta de resiliência” é, em diversos casos, uma recusa a aceitar práticas abusivas normalizadas por anos.
E o que se acusa como “sensibilidade excessiva” é, quase sempre, alguém nomeando aquilo que sempre incomodou todo mundo, mas ninguém ousava dizer.
Não é confortável ter alguem ao seu lado questionando o seu próprio modelo de liderança.
Para uma geração que cresceu ouvindo “engole o choro e continua”, ouvir um jovem dizer “isso não faz sentido para mim, to fora” soa quase como afronta.
Mas talvez não seja afronta.
Talvez seja apenas evolução.
Dentro das empresas, o conflito de gerações não aparece com toga, discurso ou tese acadêmica. Ele aparece em situações simples, concretas, do dia a dia.
- Numa reunião - um jovem questiona por que o time precisa ficar até mais tarde trabalhando apenas pra aumentar a produção.
- No feedback - alguém é chamado de “pouco engajado” porque não responde mensagens do whatsapp no final de semana.
- Na piada “inofensiva” sobre aparência, gênero, sotaque ou origem, que por anos era considerado normal e corriqueira, agora volta com um nome incômodo: falta de respeito.
O que muitos chamam de frescura de jovem é, na prática, o espelho do que a geração anterior aceitou em silêncio, sem contestar, para sobreviver.
Quando alguém diz “na minha época ninguém reclamava disso”, a frase está, quase sempre, incompleta.
O correto da frase é: “na minha época ninguém podia reclamar disso”.
Havia o medo de perder o emprego, o medo de ser rotulado como baderneiro, medo de não ser promovido.
Hoje, a geração que chega tem medo também. Mas tem algo a mais: menos disposição para pagar o preço de viver mal para parecer bem.
Isso não significa que toda crítica dos jovens é madura, justa ou bem formulada.
Há exageros, impulsos, ingenuidades, ruídos.
Mas isso sempre existiu.
O que muda agora é que essa energia encontrou um contexto que amplifica tudo: redes sociais, escassez de talentos, novas formas de trabalho e um mercado que não pensa duas vezes antes de contratar alguém que saiu daqui para fazer a mesma coisa em outro lugar, com mais coerência e retornou.
Por trás de um “essa geração não quer saber de nada” pode haver um desconforto real com metas inalcançáveis, comunicação truncada, reuniões improdutivas e uma cultura que cobra resultado, mas não oferece condições adequada, não prepara seus lideres para o novo e é intolerante a qualquer inovação.
Por trás de um “não aguentam pressão” pode estar a constatação de que aquilo que antes era apenas “pressão” sempre foi, na verdade, excesso, descuido ou desorganização, sem qualquer reclamação.
E por trás de um “não tem fibra” pode estar a simples recusa a repetir um modelo de submissão vendido como virtude.
Crachá dá poder. Pode dar bônus, status, vaga na garagem, sala com janela.
Mas não dá razão por decreto.
A geração que está chegando nas empresas traz uma reflexão silenciosa a cada líder:
“Seu jeito de liderar funciona para nós ou só funcionou para você?”, "seu jeito de liderar é o único que você sabe ou você pode fazer diferente?".
O lider que responde com conversa, escuta e ajuste, GANHA.
O lider responde com ironia, deboche ou explicações forçadas, acelera sua a própria IRRELEVÂNCIA.
As empresas que não entendem esse movimento pagam um preço alto — e, muitas vezes, em silêncio.
Perdem gente boa sem entender bem por quê.
Vêem talentos se desengajando aos poucos, entregando apenas o mínimo.
Compram discursos prontos sobre “a geração que não quer nada” enquanto a concorrência se organiza para aproveitar justamente essa mesma geração de um jeito diferente.
É claro que empresa não é terapia.
Resultados importam. Compromisso importa. Responsabilidade importa muito.
Mas nada disso está em conflito com o que a nova geração pede.
O que está em conflito é o modelo de relação com o trabalho, não o trabalho em si.
Liderar hoje é menos sobre dizer “faça” e mais sobre responder “por que fazemos assim?”.
É menos sobre exigir presença física e mais sobre construir presença real.
É menos sobre mandar e mais sobre inspirar.
A hierarquia ainda é necessária.
Mas a autoridade, cada vez mais, precisa ser merecida.No fim, o conflito de gerações dentro das empresas não é um problema de RH.
É um teste de evolução da liderança.
O crachá vai continuar dando poder.
A razão, porém, vai ficar com quem tiver coragem de mudar junto com o mundo.
Folha de Florianópolis
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