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Quinta-feira, 16 de Abril 2026
Teu Crachá te dá poder, mas não te da razão.

Coluna do Laercio Santos
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Teu Crachá te dá poder, mas não te da razão.

O que os jovens estão dizendo e muitos líderes preferem não ver?

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Durante muito tempo, o crachá foi suficiente.

Ele definia quem mandava, quem obedecia, quem falava e quem apenas concordava com a cabeça. A hierarquia organizacional resolvia quase tudo: conflitos, dúvidas, divergências, incômodos. Bastava uma frase clássica: “Enquanto você estiver aqui, vai ser com o eu falo”.

Funcionou por décadas. Até que apareceu a geração de pessoas que começou a olhar para isso e perguntar: “Mas por quê?”.

É aí que o crachá deixou de ser suficiente.

Essa geração é aquela que você ajudou a criar, ela está entrando nas empresas com uma combinação explosiva: acesso integral à informação, nenhum medo das autoridades hierárquica e uma sensibilidade muito maior para as incoerências.

Não é que eles não respeitem ninguém.
Pra eles "respeito" vem depois do entendimento e das razões.

Nas empresas, a tradução desse movimento é direta.
O que muitos líderes chamam de “falta de comprometimento” é, muitas vezes, apenas uma recusa a repetir rituais que não fazem sentido.
O que é rotulado de “falta de resiliência” é, em diversos casos, uma recusa a aceitar práticas abusivas normalizadas por anos.
E o que se acusa como “sensibilidade excessiva” é, quase sempre, alguém nomeando aquilo que sempre incomodou todo mundo, mas ninguém ousava dizer.

Não é confortável ter alguem ao seu lado questionando o seu próprio modelo de liderança.

Para uma geração que cresceu ouvindo “engole o choro e continua”, ouvir um jovem dizer “isso não faz sentido para mim, to fora” soa quase como afronta.
Mas talvez não seja afronta.
Talvez seja apenas evolução.

Dentro das empresas, o conflito de gerações não aparece com toga, discurso ou tese acadêmica. Ele aparece em situações simples, concretas, do dia a dia.

  • Numa reunião - um jovem questiona por que o time precisa ficar até mais tarde trabalhando apenas pra aumentar a produção.
  • No feedback - alguém é chamado de “pouco engajado” porque não responde mensagens do whatsapp no final de semana.
  • Na piada “inofensiva” sobre aparência, gênero, sotaque ou origem, que por anos era considerado normal e corriqueira, agora volta com um nome incômodo: falta de respeito.

O que muitos chamam de frescura de jovem é, na prática, o espelho do que a geração anterior aceitou em silêncio,  sem contestar, para sobreviver.

Quando alguém diz “na minha época ninguém reclamava disso”, a frase está, quase sempre, incompleta.
O correto da frase é: “na minha época ninguém podia reclamar disso”.
Havia o medo de perder o emprego, o medo de ser rotulado como baderneiro, medo de não ser promovido.
Hoje, a geração que chega tem medo também. Mas tem algo a mais: menos disposição para pagar o preço de viver mal para parecer bem.

Isso não significa que toda crítica dos jovens é madura, justa ou bem formulada.
Há exageros, impulsos, ingenuidades, ruídos.
Mas isso sempre existiu.
O que muda agora é que essa energia encontrou um contexto que amplifica tudo: redes sociais, escassez de talentos, novas formas de trabalho e um mercado que não pensa duas vezes antes de contratar alguém que saiu daqui para fazer a mesma coisa em outro lugar, com mais coerência e retornou.

Por trás de um “essa geração não quer saber de nada” pode haver um desconforto real com metas inalcançáveis, comunicação truncada, reuniões improdutivas e uma cultura que cobra resultado, mas não oferece condições adequada, não prepara seus lideres para o novo e é intolerante a qualquer inovação.

Por trás de um “não aguentam pressão” pode estar a constatação de que aquilo que antes era apenas “pressão” sempre foi, na verdade, excesso, descuido ou desorganização, sem qualquer reclamação.

E por trás de um “não tem fibra” pode estar a simples recusa a repetir um modelo de submissão vendido como virtude.

Crachá dá poder. Pode dar bônus, status, vaga na garagem, sala com janela.
Mas não dá razão por decreto.

A geração que está chegando nas empresas traz uma reflexão silenciosa a cada líder:
Seu jeito de liderar funciona para nós ou só funcionou para você?”, "seu jeito de liderar é o único que você sabe ou você pode fazer diferente?".

O lider que responde com conversa, escuta e ajuste, GANHA.
O lider responde com ironia, deboche ou explicações forçadas, acelera sua a própria IRRELEVÂNCIA.

As empresas que não entendem esse movimento pagam um preço alto — e, muitas vezes, em silêncio.
Perdem gente boa sem entender bem por quê.
Vêem talentos se desengajando aos poucos, entregando apenas o mínimo.
Compram discursos prontos sobre “a geração que não quer nada” enquanto a concorrência se organiza para aproveitar justamente essa mesma geração de um jeito diferente.

É claro que empresa não é terapia.
Resultados importam. Compromisso importa. Responsabilidade importa muito.
Mas nada disso está em conflito com o que a nova geração pede.
O que está em conflito é o modelo de relação com o trabalho, não o trabalho em si.

Liderar hoje é menos sobre dizer “faça” e mais sobre responder “por que fazemos assim?”.
É menos sobre exigir presença física e mais sobre construir presença real.
É menos sobre mandar e mais sobre inspirar.

A hierarquia ainda é necessária.
Mas a autoridade, cada vez mais, precisa ser merecida.No fim, o conflito de gerações dentro das empresas não é um problema de RH.
É um teste de evolução da liderança.

O crachá vai continuar dando poder.
A razão, porém, vai ficar com quem tiver coragem de mudar junto com o mundo.

Comentários:
Laercio Santos

Publicado por:

Laercio Santos

Especialista em criatividade e inovação, filosofia antiga e pós-graduado em gestão estratégica de pessoa. Formado em gestão estratégica & liderança global pela university of California - San Diego - EUA

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