Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 19 de Junho 2026
Carregando jogos...
Você já leu “A Ficcionista”?
Coluna da Carmem
83 Acessos

Você já leu “A Ficcionista”?

Análise da obra do autor Godofredo de Oliveira Neto

IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
Foto do lançamento
Foto do lançamento

O escritor e acadêmico prof Godofredo de Oliveira Neto, catarinense de Blumenau, lançou recentemente o seu livro “A Ficcionista: Sonhos e fantasias de uma narradora”.

Abro a cena da interpretação.  No papel dramático e voraz da leitura, rompo a expectativa comum por ações e me atenho a encontrar um ponto de vista ao entorno das narrativas e pulsões psíquicas das personagens. Sugo-lhes a alma pelas palavras.  A obra se passa em entrevistas entre um autor e uma narradora, que entrega ao autor uma história de sua vida, argumento do qual nasce o questionamento: afinal, quem de fato escreve esse enredo?

Como leitora inquieta, gosto de obras cruéis. Gosto também do primoroso trabalho da editora Batel: papel delícia ao tato, diagramação com leveza  e a capa, uma belíssima capa com imagem do quadro O Jardim das Delícias Terrenas de Bosch em um recorte delicado do Jardim do Éden da asa lateral esquerda. Um paraíso, pensaria? Um livro de fantasias de uma terra encantada de levezas? Então vamos à quarta capa. Um trecho forte, feroz, violento, doloroso. Recorte de um inferno interior,  nas personagens, nas mentes. O inferno animalesco do inconsciente, dos medos e pavores que vazam da vida para a tragédia íntima de conviver e reescrever a violência que é viver, na realidade, no dia a dia, na fuga, na fantasia, na ficção, no pesadelo, no terreno obscuro e indizível do Real.

Na obra, à medida que a personagem narradora Nikki, contratada por um escritor para narrar sua vida, passa a inventar histórias cada vez mais mirabolantes, com crimes, drogas, prostituição e, principalmente, messianismos, mais a trama se afasta da veracidade de uma narrativa de fatos. Há algo além nela. Pensei logo em Fernando Pessoa: uma fingidora. Afinal, ficcionar é narrar! E vice-versa. Será que ela inventa o que vive? Será que vive o que inventa? Será que ela sabe o limite entre o inventado e a realidade? A mente de Nikki é o que quero desvendar.

Diante da ficção, a narradora de Godofredo me levou a revisitar Luigi Pirandello: “Assim é se lhe parece”. Segundo o próprio Pirandello, uma farsa, cuja trama nasce de um relato. Mas o que é verdade e o que é falso? Neste aspecto, a obra de Godofredo brinca com os deslimites da era da pós-verdade. Cada um que a crie e acredite na compreensão que está ao seu alcance. Qual o limite da mente de Nikki?

Seguem os capítulos, cenas cheias de ações, entrelaçadas pelo fato de serem todos relatos prontos a serem escritos ou reinventados. Cada capítulo um início e fim em si mesmo, também isolados.

Diante das cenas, contudo, conforme o próprio autor já declarou em entrevista, constrói-se um cinema na mente do leitor. É justo neste ponto que o livro insere minhas interpretações pelos meandros de Hitchcock. Psicose? As narrativas de Nikki se assemelham à mente psicótica. Hora de convocar Freud. Seja pelo uso de substâncias, seja por sintomas psíquicos manifestos na narradora, um mergulho psicanalítico em personagens, a meu ver, é parte do essencial na literatura enquanto reprodução verossímil ou não da natureza humana. Onde mais nasce o absurdo senão na mente humana?

A psicose atinge, além do sofrimento psíquico, da dor, do trauma e da realidade externa. A psicose é ruptura, rompimento, ficção desregrada do racional.

Enquanto a literatura busca uma recriação do real, mesmo que pela fantasia e pelo fantástico, a psicose substitui a realidade por uma outra dimensão do real, uma versão apenas interna, desvencilhada do social, que passa a ser narrada pelo sujeito sem filtros com a verdade externa. Ocorrem delírios, alucinações, “vozes”, religiosidades messiânicas e excessivas, voracidades, obsessões. Ah, Nikki! A psicose pode levar a matar. A psicose pode levar a se suicidar. A psicose não sabe como lidar com o outro, com o monstro ou animal interior que a todos nos habita.

Na ficção literária, afinal, quem narra? Afinal, quem escreve? Afinal, quem ficciona?  Até Bergman apareceu para mim antes de eu terminar a leitura: há um jogo de xadrez entre a narradora e o autor personagem, a saber, um tabuleiro de palavras entre a vida, a fantasia e a morte. Um finge, o outro rouba a cena. Uma hora, um engole o outro. Pronto: uma ficção pode ser uma loucura ou pode ser um romance.

FONTE/CRÉDITOS: Carmem Teresa Elias
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): A autora

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
Carmem Teresa Elias

Publicado por:

Carmem Teresa Elias

Docente, pesquisadora e palestrante em Literatura Comparada e Análise de Gêneros Textuais. Autora de 16 livros publicados ( romances, crônicas, contos, poemas). Curadora e artista plástica.

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR