Criticamente ameaçado de extinção, o tubarão-mangona (Carcharias taurus) parece ter encontrado um refúgio na costa norte de São Paulo para acasalar e se reproduzir. É o que revela um estudo realizado por cientistas e mergulhadores no Arquipélago de Alcatrazes, uma área marinha protegida localizada a 35 quilômetros do litoral de São Sebastião.
Apoiados pela FAPESP e pela Petrobras, os pesquisadores registraram uma fêmea com marcas recentes de acasalamento no verão e outra grávida no inverno. Os estudos disponíveis até então relatavam que os mangonas se acasalavam na Argentina, no Uruguai e no sul do Brasil e depois migravam para as águas mais quentes da costa sudeste brasileira para a gestação e parto.
“Mostramos que eles estão aqui não apenas no inverno, como se pensava, mas também no verão, realizando todo o ciclo reprodutivo em águas brasileiras”, conta Ana Clara Athayde, primeira autora do estudo e bolsista da FAPESP no Instituto do Mar (IMar) da Unifesp.
Os registros foram realizados no Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes e reforçam a importância das unidades de conservação marinhas tanto para as espécies quanto para os serviços ecossistêmicos, como a provisão de alimento para as comunidades de pescadores. A área de proteção, criada em 2016, é gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
“Existem registros históricos da captura incidental de mangonas na costa de São Paulo, mas não havia nenhum registro científico até o feito por nós no inverno de 2022 em Alcatrazes”, conta Fabio Motta, professor do IMar-Unifesp e coordenador de projeto apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA.
A maior parte dos registros foi obtida por meio dos chamados BRUVs, sigla em inglês para sistemas de estéreo-filmagens subaquáticas remotas com isca. Nessa técnica, um suporte com duas câmeras e um braço com iscas na ponta é mantido submerso por cerca de uma hora. Depois de as imagens serem realizadas em diversos pontos, são analisadas para a detecção das espécies flagradas pelo equipamento.
Ciência cidadã
Para o trabalho, os BRUVs foram postos na água 315 vezes em 38 pontos do arquipélago, em profundidades que variavam de 2 a 50 metros. As amostragens foram realizadas no inverno e no verão, entre 2022 e 2025, como parte do programa Mar de Alcatrazes, dedicado ao monitoramento da biodiversidade do arquipélago e patrocinado pela Petrobras.
Os tubarões foram contados e medidos a partir das imagens. Além dos registros feitos pelos pesquisadores, o estudo contou com a colaboração de mergulhadores recreativos que visitam o arquipélago regularmente, num modelo de ciência cidadã. O biólogo e condutor de mergulho Guilherme Bertuzo, que também assina o artigo, conseguiu filmar nove indivíduos de tubarão-mangona durante o verão de 2024, entre 5 e 10 metros de profundidade.
“Os tubarões-mangona têm uma morfologia muito particular, com tamanho e posição das nadadeiras que os diferencia de outras espécies costeiras do Atlântico Sudoeste. Por isso, conseguimos identificá-los mesmo quando a visibilidade não era das melhores”, relata Motta.
Sempre que possível, os pesquisadores identificaram ainda o sexo e o grau de maturidade (juvenil ou adulto), além de marcas corporais distintivas. A gravidez era inferida com base na distensão da região ventral do corpo das fêmeas.
Além disso, um método publicado pouco antes nos Estados Unidos permitiu estimar o tempo em que as fêmeas tinham acasalado, a partir das marcas de mordidas deixadas pelos machos durante a cópula, e o tempo de gestação.
“Ao observar a cicatrização dessas feridas em fêmeas em cativeiro e compará-las com outras na natureza, a partir de registros de ciência cidadã, esses pesquisadores conseguiram estimar quando ocorreu a cópula e, por conseguinte, o tempo de gestação. Utilizando esse método, mostramos que as fêmeas estão em Alcatrazes na cópula”, diz Athayde.
Criticamente ameaçado
O tubarão-mangona apresenta um modo de reprodução bastante especializado e particular. Na espécie, foi descrito pela primeira vez o chamado canibalismo intrauterino, em que os filhotes, ainda no ventre da mãe, se alimentam dos óvulos, por vezes já fecundados, e mesmo dos irmãos mais novos.
Com isso, normalmente as fêmeas geram apenas dois filhotes por gestação, que costuma durar de 9 a 12 meses e pode ocorrer a cada dois anos. Os filhotes nascem grandes, com cerca de 90 centímetros. A baixa fecundidade é uma das fragilidades desta e de outras espécies de tubarão, que não dão conta de suportar a pressão da pesca e outros impactos, como a poluição marinha e a perda de hábitats.
Segundo os pesquisadores, uma vez que o mangona é uma espécie migratória, o arquipélago de Alcatrazes e outras áreas de proteção marinha próximas, como a laje de Santos e a ilha da Queimada Grande, podem formar um corredor ecológico importante para a conservação.
Em 2025, Alcatrazes foi designada uma Área Importante para Tubarões e Raias (ISRA, na sigla em inglês), como parte de um programa da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), que identificou áreas do tipo no mundo inteiro.
“Nossos resultados reforçam a importância dessa unidade de conservação em particular, mas também de outras áreas onde a pesca é controlada, para proteger os tubarões costeiros. Além disso, ao revelar a dinâmica espacial e temporal da espécie, o estudo pode dar suporte para estratégias de conservação”, encerra Motta.

Folha de Florianópolis
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