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Essa estranha mosca se esconde em ninhos com um milhão de vespas gigantes
Estudo & Pesquisa
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Essa estranha mosca se esconde em ninhos com um milhão de vespas gigantes

A mosca enganadora de vespas descrita por pesquisadores da USP possui características raras e pertence a uma nova espécie e um novo gênero

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Um novo gênero e espécie de mosca da família Tachinidae foram descritos por pesquisadores do Museu de Zoologia (MZ) da USP. A mosca Brevialata deceptrix, do gênero Brevialata, é um parasitoide com características e comportamentos incomuns – como a presença de asas reduzidas e a capacidade de confundir seu hospedeiro. Ela parasita a espécie de vespa Agelaia vicina, considerado o maior grupo de vespas sociais, com ninhos que abrigam até um milhão de indivíduos.

B. deceptrix também tem cerdas reduzidas e pernas robustas, traços que ainda não haviam sido registrados na família Tachinidae. A presença de pernas fortes torna as moscas eficientes em agarrar estruturas, capacidade que possivelmente adquiriram em decorrência do tamanho das asas.

Não há registros em literatura de uma mosca dessa família com asas tão reduzidas. Segundo Rodrigo Dios,  pesquisador do MZ e primeiro autor do estudo, os outros taquinídeos conhecidos que parasitam ninhos de vespas possuem asas bem desenvolvidas. “Todas elas [moscas da mesma família] têm asas grandes, voam super bem. Elas são parasitóides, então precisam buscar o hospedeiro ou a fêmea para reproduzirem”, completa.

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Os insetos parasitoides, como os da família Tachinidae, passam parte do seu desenvolvimento sobre ou dentro de um único hospedeiro, alimentando-se de seus tecidos. Os alvos são uma ampla gama de artrópodes.  A B. deceptrix, em especial, chama a atenção por ter a capacidade de entrar e sair de um inóspito habitat, os ninhos de vespas gigantes, sem ser atacada. Por isso, também é chamada de “mosca enganadora de vespas”.

A imagem contém um homem, seu cabelo é grande e loiro. Ele usa uma jaqueta
Rodrigo de Vilhena Perez Dios - Foto: Lattes

Rodrigo Dios explica que o grupo de pesquisadores descreveu a espécie a partir de materiais da coleção entomológica do Museu. Porém, o processo começou antes, quando um aluno de graduação coletou uma mosca e mostrou ao pesquisador. Apesar de identificar que o inseto pertencia à família Tachinidae – que ele estuda –, afirmou que nunca tinha visto aquele ser vivo antes.

Em entrevista ao Jornal da USP, o cientista contou que guardou essa informação por alguns anos até entrar no pós-doutorado e ter a oportunidade de avaliar a coleção do MZ como um todo. Foi nesse momento que ele encontrou mais moscas parecidas com a coletada pelo estudante e decidiu que aquela era a hora de investigá-las. No total, foram avaliados oito moscas machos.

O material foi coletado em maio de 1993, mais de 30 anos antes da pesquisa ser publicada, em ninhos de Agelaia vicina na Fazenda Santa Carlota, na cidade de Cajuru, em São Paulo. As amostras fizeram parte de pesquisas para entender o funcionamento dos grandes ninhos de vespas. Os coletores relataram a Rodrigo Dios que achavam curioso as moscas voarem no ninho sem serem atacadas pelas vespas, que, em geral, protegem a prole para evitar contaminação.

A B. deceptrix também tem cerdas reduzidas e pernas robustas, traços que ainda não haviam sido registrados na família Tachinidae. A presença de pernas fortes torna as moscas eficientes em agarrar estruturas, capacidade que possivelmente adquiriram em decorrência do tamanho das asas.

Características únicas

Apesar de todos os animais avaliados serem machos, os pesquisadores conseguem ter uma ideia das características das fêmeas. Segundo Dios, é possível que elas possuam asas ainda mais reduzidas ou que não possuam asas. É provável que as fêmeas vivam em tempo integral no ninho – já que é vantajoso estarem perto de onde irão botar os ovos, neste caso no hospedeiro – e por isso não precisem de asas. “É uma hipótese, mas é porque não faz sentido achar um monte de machos, eles não estariam vivendo dentro do ninho perdendo tempo, as fêmeas deveriam estar lá dentro”, completa.

Em um primeiro momento, o grupo pensou que a B. deceptrix pudesse se tratar de algum tipo de mutação, mas como outros indivíduos apresentaram as mesmas características, entenderam que se tratava de uma nova espécie. A partir das observações, Dios conta que entender que se tratava de um novo gênero “foi bem fácil”.

Ao contrário da Brevialata deceptrix, outras espécies da mesma família apresentam asas alongadas – Foto: Rodrigo Dios

Museus de história natural

A imagem contém uma mosca da espécie Brevialata deceptrix vista de lado
Seu nome é derivado da combinação do adjetivo latino brevis (=curto) e do adjetivo alata (=alado), referindo-se à asa reduzida - Foto: Rodrigo Dios

Para os próximos passos, os pesquisadores têm como meta encontrar fêmeas de B. deceptrix. “Seria muito legal descobrir como é que é a fêmea; talvez a morfologia dela possa indicar a que grupo ela pertence”, completa Dios.

Também está nos planos encontrar moscas frescas para examinar o seu material genético e poder classificá-la com maior precisão. Nesse sentido, o pesquisador destaca que os museus de história natural “são como grandes bibliotecas de conhecimento de um tempo e espaço que não existem mais. Muitos dos insetos que estão lá foram coletados em lugares que a vegetação, por exemplo, foi destruída. Mas a gente tem essa ‘fotografia’ parada do tempo”. Ele conta que, graças aos materiais desses museus, foi possível identificar amostras coletadas na década de 1940, possivelmente já extintas.

FONTE/CRÉDITOS:  Jornal da USP
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Seu nome é derivado da combinação do adjetivo latino brevis (=curto) e do adjetivo alata (=alado), referindo-se à asa reduzida - Foto: Rodrigo Dios

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