A reforma tributária brasileira começa a sair do papel e entra em uma fase de adaptação que deve alterar gradualmente a forma como os impostos são cobrados no país. Considerada uma das principais reestruturações do sistema desde a redemocratização, a mudança inaugura um período de transição em que regras antigas e novas passam a conviver simultaneamente. O novo modelo prevê a substituição de cinco tributos — ICMS, ISS, IPI, PIS e Cofins — por dois novos impostos: o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
Apesar da promessa de simplificação, o mercado se divide entre os setores que terão fôlego extra e os que enfrentarão uma reestruturação profunda. O setor de serviços — que engloba desde grandes redes de serviços gerais e TI até consultorias e profissionais liberais — é o ponto de maior atenção. No modelo atual, esses setores costumam ser tributados pelo ISS com alíquotas baixas. Com a unificação, a alíquota estimada para o novo IVA Dual deve ser superior, criando um "choque de custos".
Diferente da indústria, o prestador de serviços gerais tem uma cadeia produtiva curta e poucos insumos para gerar créditos tributários. Como a maior parte de seu custo é composta por mão de obra — que não gera crédito no sistema de IVA —, há um risco real de que esse aumento de carga seja repassado ao preço final ou corroa as margens de lucro das empresas.
João Victor da Silva, economista e analista de Mercado da Orsitec
Indústria e exportação: o fim do efeito cascata
No lado oposto, a indústria de transformação é apontada como a grande beneficiada. O sistema atual é marcado pela cumulatividade, onde os impostos "grudam" em cada etapa da produção. Com o novo modelo, baseado na lógica do Imposto sobre Valor Adicionado (IVA), as fábricas poderão compensar créditos relativos aos tributos pagos nas fases anteriores, eliminando o "imposto sobre imposto". Além disso, a desoneração total das exportações tende a aumentar a competitividade do produto brasileiro no exterior.
A urgência da transição em 2026
Embora a implementação completa ocorra de forma gradual até 2033, os primeiros efeitos já exigem atenção imediata. Para o economista e analista de Mercado João Victor da Silva, da Orsitec, o momento é de análise e preparação estratégica.
“A reforma tributária altera a lógica de funcionamento do sistema atual. Mesmo antes da substituição completa dos tributos, as empresas precisam começar a entender como o novo modelo pode impactar custos, cadeia de fornecedores e estrutura de apuração dos impostos”, explica o especialista. 4
Segundo ele, o cumprimento das obrigações fiscais pelos parceiros comerciais passa a ser um risco financeiro direto: “Se um fornecedor não estiver em conformidade, a empresa compradora perde o direito ao crédito tributário. Isso transforma a gestão fiscal em uma decisão estratégica de diretoria”.
O que empresas e contribuintes podem fazer agora:
-
Revisar contratos comerciais: Incluir cláusulas de reequilíbrio para as mudanças de alíquota.
-
Auditoria de fornecedores: Avaliar se a cadeia de suprimentos está preparada para gerar créditos no novo sistema.
-
Avaliar formação de preços: Simular o impacto do IVA nas margens para evitar prejuízos na implementação plena.
-
Acompanhar o IRPF: Atentar-se à ampliação da faixa de isenção para rendimentos de até R$ 5 mil, que já integra o novo ambiente tributário.
-
Investir em gestão de dados: A organização documental será o divisor de águas para atravessar o período de transição com segurança.

Folha de Florianópolis
Comentários: