Aguarde, carregando...

Sexta-feira, 02 de Outubro 2026
A resposta ficou barata. A pergunta, não.
COLUNA DO DIOGO ROCHA

A resposta ficou barata. A pergunta, não.

Liderança na era da IA: a pergunta vale mais que a resposta

Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

Em 2023, pesquisadores de Harvard, do MIT e da Wharton fizeram um experimento com 758 consultores do Boston Consulting Group. Não eram estagiários. Eram profissionais selecionados em um dos processos mais exigentes do mercado.

Metade recebeu acesso ao GPT-4. Todos receberam tarefas realistas de consultoria.

Em um conjunto de tarefas, o resultado foi o que qualquer entusiasta de IA esperaria: quem usou a ferramenta concluiu mais tarefas, trabalhou mais rápido e entregou com qualidade significativamente superior.

Mas os pesquisadores tinham desenhado uma armadilha. Uma das tarefas parecia simples, mas exigia combinar dados de planilha com pistas espalhadas em entrevistas, algo que o modelo, na época, fazia mal. Nessa tarefa, os consultores que usaram IA tiveram probabilidade 19 pontos percentuais menor de chegar à resposta correta do que os que trabalharam sozinhos.

Os autores chamaram isso de fronteira tecnológica irregular. A IA é excelente em algumas tarefas e surpreendentemente fraca em outras que parecem igualmente fáceis. E, pior: a resposta errada chega com a mesma fluência, a mesma formatação e a mesma confiança da resposta certa.

Quero propor que esse experimento contém, em miniatura, a nova descrição de cargo do líder.

O gargalo mudou de lugar

Por muito tempo, o gargalo das organizações foi o acesso à informação. Quem sabia mais decidia melhor, e a hierarquia era, em boa medida, o canal por onde o conhecimento circulava. Fazia sentido que o chefe soubesse mais.

Esse gargalo se desfez. Um estudo de Erik Brynjolfsson com mais de 5 mil atendentes mostrou que um assistente de IA aumentou a produtividade dos menos experientes em 34%, e quase nada a dos mais experientes. A ferramenta, em essência, distribuiu para todos o conhecimento que antes pertencia aos melhores.

Quando o conhecimento se distribui, o valor migra.

E, pelo que vejo, ele migra para três lugares.

1. Formular a pergunta

Uma resposta perfeita para a pergunta errada é pior do que nenhuma resposta, porque dá à equipe a sensação de progresso enquanto ela corre na direção errada.

A IA responde ao que você pergunta. Ela não questiona se aquela é a pergunta certa. Quando o time pede "como reduzir o tempo de atendimento", ninguém no prompt pergunta "o tempo de atendimento é realmente o que está afastando os clientes?".

Quase toda equipe tem uma história assim: semanas investidas em resolver um problema que, visto de outro ângulo, nem era o problema. A diferença raramente estava na qualidade da solução. Estava na qualidade da pergunta que a antecedeu.

Formular bem é, cada vez mais, o trabalho mais sênior de uma equipe.

2. Fornecer o contexto

Nenhum modelo sabe o que a sua empresa decidiu não fazer, o que já foi tentado e falhou, quem confia em quem, e em que estado emocional o time chega à terceira reestruturação do ano.

Peter Drucker já descrevia o trabalhador do conhecimento como alguém que entende mais da própria função do que o chefe. Se isso já era verdade antes, agora é ainda mais.

O líder que tenta competir em conhecimento técnico perde.

O líder que fornece contexto, o que não está escrito em lugar nenhum, torna o conhecimento do time utilizável.

3. Julgar a resposta

É aqui que o experimento do BCG fica desconfortável. Os consultores não erraram por falta de competência. Erraram porque confiaram em uma resposta que parecia boa. Os pesquisadores observaram que parte deles simplesmente adotou o que a ferramenta produziu, sem questionar.

Julgamento não é desconfiar de tudo. É saber onde está a fronteira: em que tipo de tarefa a ferramenta é confiável e em que tipo ela produz erros elegantes.

E essa calibragem não se aprende em curso. Aprende-se revisando, discutindo, errando com segurança.

O que muda na prática

Três práticas que qualquer líder pode começar na próxima semana:

Comece as reuniões pela pergunta, não pela solução. Antes de discutir o que fazer, dedique dez minutos a validar se o problema está bem formulado. Parece perda de tempo. É o tempo mais bem investido da reunião.

Documente as renúncias. Mantenha um registro curto das decisões que a equipe tomou de não fazer, e por quê. É o contexto que se perde primeiro quando alguém sai, e é o que nenhuma ferramenta recupera.

Transforme a revisão de respostas de IA em treino de julgamento. Quando alguém trouxer uma análise gerada por IA, não pergunte só "está certo?". Pergunte "como você sabe?". A pergunta obriga a equipe a mapear a própria fronteira.

A pergunta que fica

Se o valor do líder estava em saber mais, a IA o tornou dispensável. Se estava em fazer o time pensar melhor, ela o tornou indispensável.

A diferença entre os dois não está na tecnologia. Está na forma como cada um entende o próprio trabalho.

Qual das duas descrições está mais próxima do que você faz hoje?

Esta é a primeira de quatro edições sobre como o trabalho mudou de natureza e o que isso exige de quem lidera. Na próxima semana: por que o desgaste virou um passivo que não aparece no balanço. Se esta edição chegou até você encaminhada, assine para receber as próximas.

Referências: Dell'Acqua et al. (2023), "Navigating the Jagged Technological Frontier", Harvard Business School; Brynjolfsson, Li e Raymond (2023), "Generative AI at Work", NBER; Peter Drucker, "Management Challenges for the 21st Century".

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
 DIOGO MONTICELI ROCHA

Publicado por:

 DIOGO MONTICELI ROCHA

É executivo, consultor e desenvolvedor de pessoas, com mais de 18 anos de experiência em liderança, gestão de pessoas e educação corporativa. 

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR