“A aprovação que temos de nós mesmos vem principalmente da aprovação dos outros. O resultado é conformidade.”
Mark Twain, Corn-Pone Opinions — tradução livre. A passagem corresponde ao texto de Twain sobre conformidade e formação das opiniões.
Voltar a Mark Twain tantos anos depois de tê-lo lido pela primeira vez me fez perceber uma coisa que certamente eu não saberia explicar quando criança. Talvez o que mais me interessasse em Tom Sawyer e Huckleberry Finn não fossem apenas as aventuras, mas as pessoas. Seus personagens tinham coragem e medo, mentiam, buscavam aprovação, reproduziam preconceitos, faziam escolhas ruins e quase sempre encontravam boas razões para explicar aquilo que haviam feito. Eu não pensava nesses termos naquela época, mas as pessoas já estavam ali e talvez seja por isso que Twain tenha permanecido comigo.
Há agora uma nova razão. Tenho pensado muito sobre o comportamento humano e, principalmente, sobre a distância que pode existir entre aquilo que imaginamos ser e aquilo que demonstramos ser quando agimos. Vivemos orgulhosos de nossa capacidade tecnológica, do conhecimento acumulado e da velocidade com que produzimos e recebemos informação. Nem sempre encontro a mesma evolução quando observo a maneira como formamos opiniões, escolhemos grupos, reagimos ao contraditório ou justificamos nossas próprias escolhas.
Samuel Langhorne Clemens nasceu em 1835, no Missouri, e cresceu dentro de uma sociedade escravista. Antes de se tornar Mark Twain, trabalhou como tipógrafo, jornalista e piloto de barcos no Mississippi, tentou a mineração, atravessou diferentes regiões dos Estados Unidos e conheceu gente de muitos lugares e posições sociais. Viveu a Guerra Civil, a industrialização, o crescimento das grandes fortunas, a corrupção política e a transformação de seu país em potência. Sua formação intelectual aconteceu em grande parte nesse contato com a vida. Talvez por isso tenha aprendido a prestar tanta atenção não apenas no que as pessoas diziam, mas na distância entre aquilo que diziam e aquilo que faziam.
O humor que o tornou famoso nasceu desse olhar, mas não ficou limitado ao riso. Com o tempo, sua sátira se tornou uma maneira de retirar a solenidade das certezas humanas. Em The Gilded Age, escrito com Charles Dudley Warner, Twain encontrou matéria na corrupção, na especulação, no poder e na obsessão pelo enriquecimento. Em Huckleberry Finn, levou a questão para um lugar ainda mais delicado. Huck havia aprendido com sua sociedade o que deveria considerar certo e errado, mas sua convivência com Jim começa a colocar em conflito aquilo que lhe ensinaram e aquilo que ele experimentava como ser humano. Surge então a possibilidade incômoda de que até nossa consciência possa ter sido educada pelo erro.
Esse aspecto da obra ganha força porque Twain também havia sido formado por aquele mundo. Cresceu numa sociedade escravista e carregou preconceitos de seu tempo. Não nasceu esclarecido, nem observou o século XIX de algum lugar moralmente protegido. Seu pensamento mudou, e essa mudança me interessa mais do que qualquer tentativa de transformá-lo artificialmente em alguém parecido conosco. Há algo intelectualmente valioso em acompanhar uma pessoa capaz de rever aquilo que recebeu como verdade e perceber que algumas de suas próprias certezas precisavam ser examinadas novamente.
Nos anos 1880, essa transformação alcança outro nível. Twain mais tarde trataria aquele período como um tempo de esclarecimento sobre a natureza humana. Já não bastava satirizar a corrupção, a religião, a riqueza ou os preconceitos de uma sociedade. Seu olhar avançava sobre os próprios seres humanos que criavam, aceitavam e defendiam tudo aquilo. É nesse ponto que encontro o Twain que mais me interessa hoje. Ele começa a desconfiar não apenas das instituições, mas das explicações que damos para aquilo que pensamos, acreditamos e fazemos.
A partir daí, Twain percebe cada vez mais o peso do ambiente, da educação, dos costumes e da aprovação dos outros sobre aquilo que chamamos de opinião própria. Começa a desconfiar da imagem de um indivíduo inteiramente racional, independente e consciente das razões que orientam suas escolhas. Não era psicólogo e não conhecia os conceitos que a ciência comportamental desenvolveria muito tempo depois. Era um escritor observando pessoas, inclusive a si mesmo, e percebendo que compreender nossos condicionamentos não significa automaticamente escapar deles. Inteligência também não oferece imunidade. Podemos continuar seguindo grupos, defendendo absurdos e construindo argumentos sofisticados para justificar aquilo em que já queríamos acreditar.
Um episódio de sua própria vida ajuda a dar corpo a essa ideia. Twain chegou a imaginar que a atuação dos Estados Unidos nas Filipinas pudesse representar uma ação de libertação. Depois voltou aos fatos, estudou melhor o que estava acontecendo e mudou de posição, tornando-se crítico do imperialismo norte-americano. Mais do que discutir aqui a posição política que adotou, interessa-me o movimento intelectual. Ele colocou uma convicção própria novamente diante dos fatos e aceitou que ela não sobrevivera ao exame. Encontrar erros nas ideias alheias é relativamente fácil. Pensamento crítico se torna muito mais exigente quando a ideia colocada em risco é a nossa.
É por isso que, ao reencontrar Mark Twain adulto, encontro um escritor diferente daquele de que me lembrava. Tom Sawyer, Huck Finn, o Mississippi e o humor continuam lá, mas hoje consigo perceber com muito mais clareza um homem que passou da observação de sua sociedade para uma investigação cada vez mais inquieta da natureza humana. Sua trajetória pode ser lida como um progressivo desmonte das certezas que construímos sobre nós mesmos, especialmente a confiança em nossa racionalidade, na independência de nossas opiniões e na capacidade de compreender com precisão as razões do próprio comportamento.
Tenho dúvidas cada vez maiores sobre a facilidade com que usamos palavras como progresso, evolução e inteligência para falar de nós mesmos. Foi durante essa releitura que percebi que algumas das inquietações de Twain entram em harmonia com pensamentos que venho construindo há algum tempo. Não porque tenha encontrado nele respostas prontas ou uma confirmação conveniente para aquilo que penso. Encontrei algo mais útil. Um autor que me obriga a olhar novamente para perguntas que já vinham me inquietando e a desconfiar também das minhas próprias respostas.
Quando menino, cheguei a Mark Twain pelas aventuras. Décadas depois, volto porque percebi que, por trás delas, ele estava falando das pessoas. E são essas pessoas, tão distantes no tempo e ao mesmo tempo tão reconhecíveis, que hoje me fazem permanecer.
Jogo que segue...
Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade
Estratégia, comportamento e performance para posições de alta responsabilidade
Advogado especialista em Propriedade Intelectual
Folha de Florianópolis
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