“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.”
Nelson Mandela
Florianópolis gosta de se ver como vitrine de inovação. E, em parte, é! O setor de tecnologia já tem peso real na economia da cidade, responde por 25% do PIB municipal e alcançou faturamento de R$ 12 bilhões em 2023. Em Santa Catarina, a projeção do setor é de quase 100 mil contratações entre 2025 e 2027. Os números são expressivos, alimentam o orgulho local e ajudam a sustentar a imagem da capital como um dos centros mais dinâmicos do país na área de tecnologia. Mas existe uma pergunta anterior a todas essas celebrações. O que acontece quando a cidade acelera digitalmente e parte do seu povo não consegue acompanhá-la?
Aqui está a contradição que Florianópolis precisa encarar com mais honestidade. Uma cidade não se torna verdadeiramente tecnológica apenas porque reúne startups, centros de inovação, empresas digitais e eventos de ecossistema. Ela só se torna tecnológica de fato quando transforma conhecimento em acesso, e acesso em participação social. Tecnologia, hoje, não é apenas um setor produtivo. É linguagem básica da vida contemporânea. Quem não domina minimamente esse idioma perde espaço no trabalho, na renda, na informação, nos serviços públicos e até na autonomia para resolver tarefas simples do cotidiano.
Durante muito tempo, o debate público sobre inovação urbana foi sequestrado por um imaginário superficial de modernidade. Falou-se demais em aplicativos, sensores, automação, mobilidade conectada e gestão por dados. Tudo isso importa. Mas não basta. A própria Carta Brasileira para Cidades Inteligentes é clara ao definir essa agenda como uso responsável e inovador da transformação digital para um desenvolvimento urbano sustentável e inclusivo, orientado pela ideia de que a tecnologia deve estar a serviço do cidadão. Em outras palavras, cidade inteligente não é a que apenas instala tecnologia. É a que organiza a vida urbana para que as pessoas consigam viver dentro dela com dignidade, autonomia e participação.
E aqui a discussão amadurece. Cidade inteligente que não ensina sua população a operar o mundo digital é inteligente só no marketing. Pode ter plataforma, sistema, cadastro eletrônico, aplicativo público e linguagem de futuro. Mas, se jovens, adultos e idosos não tiverem repertório para acessar, compreender e usar essas ferramentas, a tecnologia deixa de ser ponte e passa a ser filtro. A cidade se digitaliza, mas a exclusão permanece. Em alguns casos, apenas muda de forma.
Dados nacionais mostram por que isso não é teoria. Na TIC Domicílios 2024, entre os lares sem acesso à internet, 51% indicaram como motivo o fato de os moradores não saberem usar a rede. O dado é ainda mais eloquente do que a falta de infraestrutura, porque revela que o problema não é apenas conexão. É capacidade de uso. É insegurança. É ausência de letramento. É distância prática entre ter tecnologia disponível e conseguir transformá-la em ferramenta de vida.
Ao mesmo tempo, o Brasil acelera a digitalização dos seus serviços públicos. A Rede GOV.BR já alcançava, em dezembro de 2025, 2.500 municípios, além dos 26 estados e do Distrito Federal, ampliando a presença de autenticação digital, assinatura eletrônica, integração de serviços e outros instrumentos da administração pública digital. Isso significa que a vida cívica brasileira está migrando, cada vez mais, para ambientes digitais. E quanto mais isso avança, mais grave se torna a omissão em matéria de educação digital. Porque, nesse cenário, não saber operar o mundo digital deixa de ser apenas uma desvantagem técnica. Passa a ser obstáculo concreto ao exercício da cidadania.
Florianópolis tem, nesse contexto, uma oportunidade rara. Poucas cidades brasileiras reúnem, ao mesmo tempo, densidade econômica no setor, legitimidade institucional, marca pública associada à inovação e demanda real por talentos. Isso lhe dá condição de liderar um debate que interessa ao país inteiro. Mas essa liderança só será madura se a cidade entender que o próximo passo não é apenas fortalecer o setor tecnológico. É socializar o acesso a ele. É fazer com que o vocabulário da inovação desça do palco, saia dos eventos e atravesse escolas, bairros, centros comunitários, trajetórias de reconversão profissional e a rotina de quem já passou da juventude, mas ainda precisa continuar economicamente ativo.
É por isso que a educação digital precisa ser tratada como política de cidade, e não apenas como treinamento de mercado. Jovens precisam dela para entrar no futuro. Adultos precisam dela para não serem expulsos do presente. Idosos precisam dela para não depender de terceiros em tarefas que já se tornaram básicas. Pequenos empreendedores precisam dela para vender, cobrar, organizar fluxo, aparecer e competir. Trabalhadores precisam dela para buscar vaga, atualizar currículo, aprender novas ferramentas e se reposicionar. Cidadãos precisam dela para acessar serviços, documentos, canais públicos e oportunidades. Quando a cidade ensina tecnologia, ela não está apenas formando mão de obra. Está redistribuindo capacidade.
Neste ponto, iniciativas locais que buscam democratizar o ensino tecnológico merecem atenção, porque apontam uma direção importante. O programa Floripa Mais Tec, por exemplo, foi desenhado para atender jovens e adultos, com trilhas que passam por iniciação digital, formação profissional e jornada voltada a estudantes do ensino fundamental da rede municipal. A própria estrutura do programa já diz muito. A trilha de iniciação digital não se limita à fantasia da alta tecnologia. Ela trabalha com internet, e-mail, planilhas, documentos, currículo e busca de trabalho online. Isso revela o que está realmente em jogo. Antes de formar especialistas, é preciso garantir condições mínimas de entrada.
Mas o debate não pode parar na oferta de curso. Curso, por si só, não resolve. Curso sem ponte para empregabilidade corre o risco de virar estatística de matrícula. Curso sem apoio humano perde justamente quem mais precisava dele. Curso sem leitura territorial reforça a centralização. Curso sem atualização envelhece rápido. E curso sem conexão com transformação concreta de vida pode até ensinar, mas não necessariamente incluir. O critério de sucesso precisa ser mais sério. Não basta contar quantas vagas foram abertas. É preciso perguntar quantas pessoas passaram a viver com mais autonomia, mais inserção e mais dignidade por causa desse aprendizado.
É nesse ponto que Florianópolis pode oferecer ao Brasil uma reflexão valiosa. O país inteiro fala em smart cities. Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra. Inteligente para quem? Porque uma cidade pode ser eficiente, conectada, automatizada e cheia de painéis de controle, e ainda assim continuar desigual naquilo que mais importa. O futuro urbano não será medido apenas pela inteligência dos sistemas. Será medido também pela capacidade de as cidades ensinarem as pessoas a participar deles.
Florianópolis só merecerá plenamente o discurso de “ilha do silício” quando deixar de tratar tecnologia como setor econômico de ponta e passar a tratá-la também como linguagem básica de cidadania. Esse é o salto de maturidade que separa a cidade inovadora da cidade realmente transformadora. E essa é uma discussão que ultrapassa a capital catarinense. Vale para o Brasil inteiro. Num país que digitaliza serviços, trabalho, comunicação, educação e acesso ao Estado, a alfabetização digital não é mais luxo, nem diferencial periférico. É infraestrutura humana do presente.
A verdadeira cidade inteligente não começa no prédio mais moderno, nem no discurso mais sedutor, nem no painel mais sofisticado. Ela começa na sala de aula, no laboratório acessível, no curso bem desenhado, no professor que traduz, na política pública que alcança, na oportunidade que chega a quem estava fora. Começa quando tecnologia deixa de ser privilégio de poucos e passa a ser instrumento de pertencimento para muitos.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
X: @augustodias
Folha de Florianópolis
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