Aguarde, carregando...

Domingo, 20 de Setembro 2026
A inteligência da cidade está nas pessoas
Coluna do Guga Dias

A inteligência da cidade está nas pessoas

Conectividade, serviços digitais e automação só fazem sentido quando ampliam a capacidade das pessoas de viver a cidade com autonomia.

Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A inteligência de uma cidade não está na quantidade de tecnologia que ela instala, mas na capacidade dessa tecnologia de melhorar a vida das pessoas que nela vivem.” - Guga Dias


Antes de ser rede, aplicativo ou plataforma de serviços, uma cidade é uma construção humana. Nela vivem pessoas com idades, condições físicas, renda, escolaridade e graus de autonomia diferentes. Há quem atravesse a cidade sem pensar nisso e há quem dependa de uma mão para atravessar a rua, de alguém para compreender um formulário, de um filho para marcar uma consulta ou de um atendente para acessar um serviço. Se queremos discutir inteligência urbana, talvez seja por essas pessoas que precisemos começar.

Durante muito tempo, construímos outra imagem de cidade inteligente. Pensamos em sensores, câmeras, centrais de monitoramento, dados em tempo real e serviços públicos digitalizados. Tudo isso pode aumentar a eficiência urbana. O problema começa quando a modernização avança mais rápido do que a capacidade das pessoas de participar dela.

Alguém pode carregar um smartphone no bolso, usar redes sociais durante horas e ainda não conseguir acessar sozinho um benefício público, identificar uma fraude ou realizar uma operação bancária. A tecnologia pode estar em toda parte e, ainda assim, aumentar a dependência.

É essa diferença que vem mudando a discussão internacional. A UN-Habitat trabalha com o conceito de cidades inteligentes centradas nas pessoas. A transformação digital deixa de ser medida apenas pela infraestrutura e passa a considerar também participação, inclusão e qualidade de vida.

Em 2025, cerca de 6 bilhões de pessoas estavam conectadas à internet no mundo, enquanto 2,2 bilhões continuavam fora dela. Mais de 96% da população mundial, porém, já estava coberta por redes móveis de banda larga. Levar o sinal continua importante, mas já não basta. A pergunta seguinte é o que uma pessoa consegue fazer depois que está conectada.

Algumas cidades vêm respondendo de maneiras diferentes. Helsinque aposta na autonomia. O apoio digital gratuito está distribuído por mais de 150 pontos, além de suporte remoto e domiciliar. A ideia não é fazer a tarefa por quem pede ajuda, mas ajudá-lo a usar serviços e dispositivos de forma cada vez mais independente.

Singapura enfrenta outro problema. Uma sociedade pode digitalizar quase tudo e, por isso mesmo, precisa evitar que eficiência se transforme em barreira. O princípio é digital primeiro, mas não exclusivamente digital. A tecnologia avança, mas permanecem orientação, atendimento e alternativas para quem ainda precisa delas.

Medellín aproxima a inclusão digital do território. Sua rede de bibliotecas também funciona como espaço de alfabetização digital. Entre 2024 e 2025, milhares de atividades alcançaram mais de 35 mil adultos e idosos. A biblioteca passa a ser também o lugar onde alguém aprende a acessar serviços, proteger-se e depender menos de terceiros.

As experiências são diferentes, mas convergem em um ponto. O desafio não é apenas colocar pessoas diante da tecnologia. É criar condições para que consigam transformá-la em possibilidade de ação.

Isso se torna mais urgente porque saúde, trabalho, educação, transporte, bancos e relações com o poder público passam cada vez mais por uma tela. Quando alguém não consegue operar esse ambiente, a dificuldade deixa de ser apenas tecnológica e começa a limitar sua autonomia.

No Brasil, essa distância já aparece nos dados. Na TIC Domicílios de 2025, 29% dos usuários de internet disseram não realizar nenhuma das habilidades digitais apresentadas pela pesquisa. Apenas metade informou ter verificado se uma informação encontrada na internet era verdadeira. Entre usuários com 16 anos ou mais, 12% disseram ter pedido a outra pessoa que acessasse o Gov.br para realizar um serviço público em seu lugar. Na Região Sul, eram 15%.

Essas pessoas estão conectadas e muitas usam a internet todos os dias. Ainda assim, em algum momento precisam entregar a outra pessoa uma tarefa que diz respeito à própria vida.

A ideia de capacidade ajuda a compreender isso. O economista Amartya Sen mostrou que possuir um recurso não é o mesmo que ter liberdade real para transformá-lo em algo valioso. No ambiente digital, acesso é condição necessária, mas o benefício só aparece quando a pessoa consegue convertê-lo em possibilidade concreta.

Isso não diz respeito apenas a idosos ou a pessoas com pouca escolaridade. Um jovem pode dominar aplicativos e não reconhecer uma fraude. Um profissional qualificado pode não saber proteger seus dados. Um pequeno empresário pode administrar o negócio pelo celular e ainda depender de alguém para certos serviços. Idade, renda ou formação não eliminam automaticamente a vulnerabilidade.

Por isso, educação digital não pode significar apenas ensinar onde clicar. É preciso aprender a compreender, avaliar, proteger-se, escolher e decidir. Em uma sociedade atravessada por algoritmos, inteligência artificial e desinformação, saber interpretar tornou-se tão importante quanto saber operar.

Isso também muda a forma de imaginar a infraestrutura de uma cidade inteligente. Uma biblioteca onde alguém aprende a utilizar um serviço digital pode produzir tanta autonomia quanto uma nova plataforma. Um centro comunitário que ajuda pessoas a compreender tecnologia também faz parte dessa infraestrutura. E manter atendimento humano para quem ainda não consegue navegar sozinho por determinado sistema pode representar desenvolvimento, não atraso.

Florianópolis construiu uma identidade associada à tecnologia e à inovação. Temos empresas, universidades, talentos e programas de formação que ajudaram a consolidar essa imagem. Mas a pergunta que vale para Helsinque, Singapura ou Medellín também vale para nós.

A medida não deveria ser apenas quanto de tecnologia existe ao nosso redor, mas quanto dela conseguimos transformar em autonomia, participação e qualidade de vida. A cidade não existe para demonstrar que sua tecnologia funciona. A tecnologia existe para ajudar a cidade a funcionar melhor para o ser humano que vive nela.

Uma cidade se torna inteligente quando sua tecnologia aumenta a autonomia de quem vive nela. E talvez a pergunta mais simples seja também a mais reveladora.

Quem consegue agir sozinho?

Jogo que segue...


Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade
Estratégia, comportamento e performance para posições de alta responsabilidade
Advogado especialista em Propriedade Intelectual

FONTE/CRÉDITOS: **Fontes:** UN-Habitat; International Telecommunication Union (ITU); Prefeitura de Helsinque; Governo de Singapura; Prefeitura de Medellín; Cetic.br, TIC Domicílios 2025; Amartya Sen, *Development as Freedom*.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Imagem gerada por inteligência artificial para uso do autor.

Comentários

O autor do comentário é o único responsável pelo conteúdo publicado, inclusive nas esferas civil e penal. Este site não se responsabiliza pelas opiniões de terceiros. Ao comentar, você concorda com os Termos de Uso e Privacidade.
 Guga Dias

Publicado por:

Guga Dias

Guga Dias, Budista, advogado, especialista em Propriedade Intelectual (desde 1986) e Empresário, com especialização em Propriedade Intelectual pela WIPO (World Intellectual Property Organization), Pós-graduando em Gestão Pública e Gestão do...

Saiba Mais

/Dê sua opinião

De onde você acessa o Portal Folha de Florianópolis? (Where do you access the Folha de Florianópolis Portal from?)

Nossas notícias no celular

Receba as notícias do Folha de Florianópolis no seu app favorito de mensagens.

Whatsapp
Entrar
Folha de Florianópolis ( sua empresa aqui)
Folha de Florianópolis (Sua empresa aqui)

Não possui uma conta?

Você pode ler matérias exclusivas, anunciar classificados e muito mais!
WhatsApp Folha de Florianópolis
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR