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Quarta-feira, 15 de Abril 2026
Bets, Mounjaro e a lógica ganho rápido

Coluna da Jaqueline Metzner
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Bets, Mounjaro e a lógica ganho rápido

A sedução dos atalhos explicam decisões emocionais, com impactos nas finanças, na saúde e nas relações

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Vivemos um tempo em que soluções estruturadas e de longo prazo parecem quase um defeito, tudo tem que ser para agora, em economia comportamental dizemos que o viés do presente se apresenta como uma lei universal.

Nesse aspecto, dois fenômenos latentes se apresentam, muito diferentes, à primeira vista, mas que revelam a mesma fragilidade humana: a sedução do resultado rápido. De um lado, as bets. Do outro, o uso de canetas emagrecedoras quando não há uma indicação clínica específica, mas sim a busca por um padrão corporal valorizado socialmente. Em comum, existe algo que o planejamento financeiro conhece bem: decisões tomadas sob forte carga emocional, que quase sempre custam mais caro do que inicialmente programado.

Nas apostas, a promessa é de dinheiro fácil. Tudo começa com valores pequenos, quase como entretenimento. Mas a dinâmica muda rápido, um ganho pontual funciona como prova de que “é possível fazer muito dinheiro”, até porque a publicidade desse e outros jogos está por toda parte: redes sociais, aplicativos de compras e até educacionais.

A partir daí, entra em cena um outro mecanismo conhecido da psicologia econômica: a tendência de valorizar mais os episódios que confirmam aquilo em que já queremos acreditar. A vitória ocasional se destaca às perdas sucessivas, que são tratadas como detalhe, azar passageiro ou etapa até o “grande ganho”.

O dinheiro que deveria cumprir funções específicas, como pagar contas, formar reserva ou sustentar metas de médio e longo prazo, financia tentativas repetidas de compensar perdas anteriores, ou buscar o que influencers prometem. Só que, na maioria das vezes, o dinheiro fácil aumenta o risco, o volume apostado e o desgaste silencioso da vida financeira.

No caso das canetas emagrecedoras, o tema exige mais cuidado. Há situações em que o uso faz sentido, com orientação médica, diante de questões de saúde, alterações hormonais ou dificuldade importante de emagrecimento. O problema está em outro lugar: no consumo movido por pressão estética, comparação social e valorização da magreza como sinal de status, controle ou pertencimento. E, mais uma vez, o viés de confirmação se manifesta: sempre achamos um “problema de saúde” para justificar.

Existe uma vitrine social em que o corpo magro, especialmente quando o resultado é rápido, funciona como símbolo de riqueza e status. Em certos grupos, a magreza se torna uma espécie de identidade, pela clavícula destacada, as roupas caindo. A motivação é maior do que ser magro ou magra, mas de reconhecimento e validação. O corpo passa a comunicar disciplina, distinção e autocontrole, ainda que o custo desse processo raramente receba a mesma atenção.

O efeito manada aparece com força. Quando muitas pessoas ao redor validam um comportamento, ele parece normal, e quem não usa, está fora, como foi o cigarro nos anos 50. Quando amigos, influenciadores ou grupos sociais reforçam os resultados visíveis, a reflexão sobre custo, continuidade e sentido nem foi cogitado. Os efeitos colaterais para a saúde, gastrointestinais, renais e até câncer, nem são considerados.  Se tantas pessoas estão fazendo, talvez eu também deva fazer.

Mas o que tudo isso tem a ver com planejamento financeiro?

Por quanto tempo essa decisão será sustentada? Porque não são os R$ 1.300,00 de custo da primeira caneta, ou os primeiros R$ 10,00 dos Bets que estão em jogo. Está na manutenção e continuidade, de manter-se parte do grupo e obter ou manter o resultado almejado. Nas canetas, abrir mão do sabor pela comida e bebida, dos Bets, abrir mão de outras atividades, e em ambas, um custo financeiro bem alto.

Assim como foi o cigarro no tempo de nossos avós, o que parecia elegante tornou-se recorrente por tempo indeterminado, viciante. A solução rápida se revela em um compromisso financeiro permanente.

O viés da confirmação faz a pessoa enxergar os casos de sucesso e não ver a massa silenciosa de perdas, frustrações ou dependências. A influência social transforma escolhas individuais em comportamento de grupo. O efeito manada reduz o senso crítico. E a busca por alívio rápido deixa o planejamento para depois, ou exclui esse item, “porque mereço”.

No fundo, não estamos falando apenas de dinheiro, aposta ou emagrecimento. Estamos falando de necessidades humanas muito conhecidas: pertencimento, reconhecimento, esperança, controle e resposta rápida para desconfortos existentes e que aflingem boa parte da população. Quem aposta, muitas vezes, não está só tentando ganhar. Está tentando sair de um aperto, provar alguma capacidade ou reverter uma sensação de fracasso. Quem busca um emagrecimento acelerado por pressão estética, muitas vezes, não está apenas querendo mudar o corpo. Está tentando alcançar aceitação, visibilidade ou algum tipo de paz com a própria imagem. Não é errado buscar um corpo legal, só não pode virar obstinação excessiva.

Planejar financeiramente abrange aprender a diferenciar necessidade, desejo, impulso e compensação. Sem isso, o orçamento se submete à emoção do momento, e ao desejo de ganhos fáceis, seja financeiro ou estético. A emoção sem filtro costuma cobrar caro, no bolso, na saúde ou no vício.

Pergunte-se: o que essa decisão está tentando resolver em mim?  

Apesar de que o questionamento “quanto isso vai impactar o meu orçamento?” seja indispensável, o mais importante é “o que essa adesão pode me custar no longo prazo?”

A resposta pode incluir questões mais amplas, e inclusive incorrer em endividamento, dependência, frustração recorrente e distanciamento da própria realidade e valores que, sem perceber, foram afetados.

Antes de encerrar, talvez você tenha se perguntado se eu já experimentei.

Sim, joguei quando estava buscando dados para escrever o livro “Against all odds: a dinâmica dos jogos de apostas e o comportamento financeiro”.

Já usei caneta emagrecedora por dois meses. Reduzi 7 kg. Fiquei R$ 1.300,00 menos rica. Perdi o gosto pelo vinho que tanto aprecio e que faz parte da cultura da nossa família (meu pai, e agora meu marido e cunhado, são viticultores). Foi bom inicialmente, mas aí percebi que teria que manter por praticamente toda vida. E percebi que não estava aderente a meus valores. Não usei mais, recuperei 5 quilos, e o gosto por apreciar um bom vinho! Cada um tem as suas experiências e motivações.

Não digo que fiz as escolhas certas, mas fiz as que mais fizeram sentido para mim, naquele momento. Talvez no futuro eu me arrependa. Ou não.

FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Criado por IA Adapta One
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Eliane Jaqueline D. Metzner

Publicado por:

Eliane Jaqueline D. Metzner

Eliane Jaqueline Metzner é planejadora financeira e possui a certificação CFP®, concedida pela Planejar. Mentora organizacional, educadora financeira, escritora de finanças pessoais e formadora de gerentes no mercado financeiro.

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