“A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes [...] obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.” - Constituição Federal, artigo 37
Toda eleição deveria renovar direção. Não destruir memória.
Mas o Brasil ainda confunde alternância de poder com licença para desmontar a máquina pública. Muda o governo, apaga-se o quadro. Cancela-se o projeto. Dispensa-se a equipe técnica. Reabre-se o diagnóstico. Recomeça-se do zero. E chama-se isso, com espantosa naturalidade, de democracia.
Não é! E nunca será!
Democracia é o direito de trocar quem governa. Não o direito de implodir a capacidade de governar.
Esse é um dos defeitos menos debatidos e mais caros da vida pública brasileira. Fala-se muito, e com razão, em corrupção, desperdício, loteamento político e ineficiência. Mas existe uma doença mais silenciosa corroendo o país por dentro. A incapacidade de construir continuidade institucional.
Governo é transitório. Estado, esse é permanente.
A diferença parece simples, mas o Brasil ainda não a assimilou de forma madura. Governo escolhe prioridades, imprime direção política, acelera ou freia agendas. Estado é a estrutura que precisa continuar prestando serviço, preservando conhecimento, executando políticas e sustentando entregas mesmo quando muda quem ocupa a cadeira.
Quando essa distinção não é respeitada, a cidade deixa de funcionar como organismo público e passa a ser tratada como espólio eleitoral. Cada novo ciclo se comporta como se tivesse recebido não uma administração em andamento, mas um terreno vazio. O que foi feito antes deixa de ser avaliado pelo mérito e passa a ser julgado pela origem. Não importa se funciona. Importa de quem veio.
O resultado é perverso. Obras são interrompidas não porque eram ruins, mas porque pertenciam ao antecessor. Equipes técnicas são desmontadas não por deficiência, mas por associação política. Contratos e programas passam a viver sob suspeita automática. O que exigiria aperfeiçoamento vira objeto de demolição. E o município perde anos reaprendendo o que já sabia.
O Tribunal de Contas da União tem mostrado, em escala nacional, o peso concreto desse tipo de fragilidade administrativa. Em 2025, o painel do órgão registrava 11.469 obras paralisadas entre 22.621 mapeadas com recursos federais. Mais da metade. Não se trata de detalhe contábil. Trata-se de escolas que não abriram, unidades de saúde que não atenderam, estruturas de mobilidade que não chegaram à população. O próprio tribunal aponta como causas relevantes a baixa capacidade técnica e operacional dos entes públicos, além de falhas de coordenação e governança.
Isso ajuda a pôr o debate no lugar certo. O problema não é apenas moral. É institucional! E, por isso mesmo, muito mais difícil de resolver com discurso de campanha.
O mandato é variável política. A capacidade estatal é variável civilizatória.
País sério entende isso. Cidade séria também precisa entender. Infraestrutura estratégica, planejamento urbano, sistema educacional, gestão de saúde, drenagem, saneamento, mobilidade e habitação não podem depender do humor, da vaidade ou do ressentimento de cada troca de comando. Em experiências mais maduras, grandes projetos sobrevivem aos ciclos eleitorais porque são tratados como compromissos públicos de longo prazo. O caso do Hudson Tunnel Project, entre Nova York e Nova Jersey, é emblemático nesse sentido. Não importa aqui o folclore político do momento. Importa a percepção de que certas obras pertencem à coletividade, não ao governante da vez.
No Brasil, em contraste, ainda há quem confunda ruptura com coragem administrativa. Como se desfazer do que recebeu fosse prova de autonomia. Como se preservar quadros competentes, contratos úteis, diagnósticos bem feitos e projetos consistentes fosse sinal de fraqueza política. Não é!! É sinal de maturidade.
Florianópolis é um bom exemplo disso. Pois vem refletindo sobre esse tema com seriedade nos últimos anos.
A capital catarinense já não é uma cidade pequena tentando descobrir o próprio rumo. É uma cidade visível, disputada, desejada, com peso crescente em tecnologia, serviços, turismo, inovação e economia do conhecimento. Justamente por isso, não tem mais o direito de operar sob lógica de improviso sucessório. Quanto mais a cidade cresce em complexidade, mais depende de continuidade administrativa, memória técnica e integração entre políticas públicas.
E esse não é um argumento abstrato. Os próprios instrumentos formais de planejamento do município apontam nessa direção. Programa de metas, monitoramento, indicadores, articulação com o Plano Plurianual e integração entre habitação, saneamento, mobilidade e meio ambiente existem porque cidades sérias não se governam apenas com vontade política. Governam-se com método, registro, capacidade técnica e continuidade.
Isso não significa congelar a política. Ninguém está defendendo a eternização de agenda, equipe ou prioridade. Trocar rumos faz parte da democracia. Corrigir erros também. Revisar escolhas é legítimo. O que não é legítimo é transformar cada sucessão em um incêndio administrativo. O novo governante tem o direito de mudar o que precisa ser mudado. Não tem o direito de desperdiçar o que funciona só para parecer fundador de um mundo novo.
Existe, aliás, uma ilusão perigosa na cultura pública brasileira. A de que o governante forte é aquele que rompe com tudo o que recebeu. Na prática, muitas vezes é o contrário. O governante fraco precisa destruir o passado porque não consegue governar sobre ele. O governante maduro sabe discernir. Corrige o que falhou, preserva o que serve, melhora o que pode evoluir e segue adiante.
É assim que sociedades constroem Estado. Não pela negação permanente do que veio antes, mas pela capacidade de acumular aprendizado.
Uma cidade não pode voltar à estaca zero a cada quatro anos porque a vida real não volta. A criança que esperava a escola continua crescendo. O paciente que aguardava atendimento continua adoecendo. O bairro que esperava drenagem continua alagando. O cidadão não vive em mandatos. Vive em tempo corrido.
Por isso, talvez uma das marcas mais claras de imaturidade institucional seja esta. O governante passa. A cidade paga. O governo muda. A população fica com a conta do recomeço.
Democracia adulta não é a arte de refazer tudo. É a capacidade de mudar comando sem destruir capacidade.
E, no Brasil, ainda estamos devendo essa maturidade ao país, aos municípios e às próximas gerações.
Jogo que segue…
Guga Dias
Treinador Corporativo e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO da GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram: @gugavdias
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Folha de Florianópolis
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