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Quarta-feira, 11 de Fevereiro 2026
Entre o erro e o aprender: por que ensinar sem errar é um caminho mais eficaz

Coluna do Laôr
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Entre o erro e o aprender: por que ensinar sem errar é um caminho mais eficaz

Quando a escola transforma o erro em método, o fracasso deixa de ser exceção e passa a ser regra

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Durante décadas, a escola brasileira naturalizou uma ideia sedutora: errar seria parte indispensável do aprender. A máxima popular “errando é que se aprende” atravessou salas de aula, discursos pedagógicos e políticas educacionais, frequentemente usada para justificar práticas pouco eficazes de ensino. No entanto, uma leitura mais cuidadosa da literatura educacional e psicológica revela um ponto incômodo: nem todo erro ensina — e muitos deles produzem fracasso, esquiva e desmotivação.

Julio Groppa Aquino, ao analisar o fenômeno do erro escolar, alerta que o fracasso não nasce subitamente, mas se constrói de forma cumulativa, a partir de sucessivas experiências de insucesso mal compreendidas e mal mediadas pela escola (Aquino, 1997). O erro, quando reiterado e exposto sem estratégia pedagógica clara, deixa de ser informativo e passa a operar como marcador de incapacidade.

É nesse ponto que a discussão sobre ensino sem erro ganha relevância e urgência.

O erro como produção institucional

Aquino desloca o olhar do aluno para a estrutura escolar. Ao perguntar “onde está o erro?”, o autor evidencia que muitas dificuldades de aprendizagem não podem ser atribuídas exclusivamente ao estudante, mas às formas de ensinar, avaliar e intervir adotadas pela escola (Aquino, 1997). O erro, nesse contexto, não é apenas um dado cognitivo, mas um produto institucional.

Quando o ensino se organiza pela tentativa e erro indiscriminada, o aluno é frequentemente exposto a situações em que não possui ainda os repertórios necessários para responder com sucesso. O resultado previsível é a repetição do erro, acompanhada de ansiedade, comportamentos de esquiva e, em muitos casos, rejeição à escola.

O fracasso escolar, portanto, não é um evento pontual: é uma trajetória construída.

Ensinar sem errar não é esconder o erro — é preveni-lo

A Análise do Comportamento oferece uma contribuição decisiva a esse debate ao propor o ensino sem erro como tecnologia educacional. Diferentemente do senso comum, essa abordagem não nega a existência do erro, nem transforma o aluno em um sujeito passivo. Ela parte de um princípio simples e poderoso: o ensino deve ser organizado de modo que o aluno tenha alta probabilidade de acertar desde o início.

Melo, Carmo e Hanna (2014) demonstram que erros frequentes durante a aprendizagem podem interferir na precisão de desempenhos já estabelecidos, além de gerar respostas emocionais indesejadas e esquiva da tarefa ou do professor. Em resposta a isso, os autores descrevem procedimentos baseados no controle de estímulos — como modelagem gradual, esvanecimento de dicas e uso de prompts atrasados — capazes de produzir aprendizagens precisas com poucos ou nenhum erro.

Ensinar sem erro, portanto, significa programar o ensino, e não improvisá-lo.

O impacto emocional do erro repetido

Um dos aspectos mais negligenciados na prática pedagógica é o efeito emocional do erro. O aluno que erra repetidamente aprende algo — mas não o conteúdo. Aprende que não é capaz, que a escola não é para ele, que sua participação é arriscada.

Melo et al. (2014) são claros ao afirmar que erros não são neutros. Eles podem fortalecer comportamentos de evitação e comprometer a relação do estudante com o conhecimento. Nesse sentido, insistir em metodologias que dependem do erro como motor da aprendizagem pode ser pedagogicamente caro — e socialmente injusto.

Aquino (1997) converge com essa análise ao mostrar que o fracasso escolar frequentemente se cristaliza em identidades negativas atribuídas aos chamados “alunos-problema”, quando, na verdade, o problema está na lógica do ensino.

Ensino eficaz é ensino planejado

A defesa do ensino sem erro não é uma defesa da facilidade, mas da intencionalidade pedagógica. Exige do professor planejamento fino, análise das tarefas, sequenciação adequada dos conteúdos e acompanhamento sistemático do desempenho dos alunos.

Quando o ensino é bem programado, o erro deixa de ser protagonista e passa a ser exceção — não porque foi proibido, mas porque foi desnecessário.

Para o professor, isso representa uma mudança de paradigma: ensinar deixa de ser expor conteúdos esperando que o aluno “descubra”, e passa a ser organizar condições para que ele aprenda com sucesso.

Entre a cultura do erro e a ética do ensinar

Talvez o maior desafio da escola contemporânea seja abandonar a romantização do erro sem cair em práticas autoritárias ou punitivas. O ensino sem erro oferece um caminho ético e tecnicamente consistente: reduzir o sofrimento escolar, ampliar o acesso ao sucesso acadêmico e tornar o aprender uma experiência possível para todos.

Como provocação final, fica a pergunta: se sabemos que é possível ensinar com menos erro, menos frustração e mais aprendizagem, por que insistimos em métodos que produzem fracasso?

FONTE/CRÉDITOS: AQUINO, J. G. Erro e fracasso na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1997. MELO, R. M.; CARMO, J. S.; HANNA, E. S. Ensino sem erro e aprendizagem de discriminação. Trends in Psychology / Temas em Psicologia, v. 22, n. 1, p.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Laôr Fernandes de Oliveira
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Laôr Fernandes de Oliveira

Publicado por:

Laôr Fernandes de Oliveira

Laôr Fernandes de Oliveira é doutor em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com trajetória acadêmica e profissional dedicada à educação, à psicologia educacional e à gestão de projetos educacionais. É graduado em Ciências...

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