Durante décadas, a escola brasileira naturalizou uma ideia sedutora: errar seria parte indispensável do aprender. A máxima popular “errando é que se aprende” atravessou salas de aula, discursos pedagógicos e políticas educacionais, frequentemente usada para justificar práticas pouco eficazes de ensino. No entanto, uma leitura mais cuidadosa da literatura educacional e psicológica revela um ponto incômodo: nem todo erro ensina — e muitos deles produzem fracasso, esquiva e desmotivação.
Julio Groppa Aquino, ao analisar o fenômeno do erro escolar, alerta que o fracasso não nasce subitamente, mas se constrói de forma cumulativa, a partir de sucessivas experiências de insucesso mal compreendidas e mal mediadas pela escola (Aquino, 1997). O erro, quando reiterado e exposto sem estratégia pedagógica clara, deixa de ser informativo e passa a operar como marcador de incapacidade.
É nesse ponto que a discussão sobre ensino sem erro ganha relevância e urgência.
O erro como produção institucional
Aquino desloca o olhar do aluno para a estrutura escolar. Ao perguntar “onde está o erro?”, o autor evidencia que muitas dificuldades de aprendizagem não podem ser atribuídas exclusivamente ao estudante, mas às formas de ensinar, avaliar e intervir adotadas pela escola (Aquino, 1997). O erro, nesse contexto, não é apenas um dado cognitivo, mas um produto institucional.
Quando o ensino se organiza pela tentativa e erro indiscriminada, o aluno é frequentemente exposto a situações em que não possui ainda os repertórios necessários para responder com sucesso. O resultado previsível é a repetição do erro, acompanhada de ansiedade, comportamentos de esquiva e, em muitos casos, rejeição à escola.
O fracasso escolar, portanto, não é um evento pontual: é uma trajetória construída.
Ensinar sem errar não é esconder o erro — é preveni-lo
A Análise do Comportamento oferece uma contribuição decisiva a esse debate ao propor o ensino sem erro como tecnologia educacional. Diferentemente do senso comum, essa abordagem não nega a existência do erro, nem transforma o aluno em um sujeito passivo. Ela parte de um princípio simples e poderoso: o ensino deve ser organizado de modo que o aluno tenha alta probabilidade de acertar desde o início.
Melo, Carmo e Hanna (2014) demonstram que erros frequentes durante a aprendizagem podem interferir na precisão de desempenhos já estabelecidos, além de gerar respostas emocionais indesejadas e esquiva da tarefa ou do professor. Em resposta a isso, os autores descrevem procedimentos baseados no controle de estímulos — como modelagem gradual, esvanecimento de dicas e uso de prompts atrasados — capazes de produzir aprendizagens precisas com poucos ou nenhum erro.
Ensinar sem erro, portanto, significa programar o ensino, e não improvisá-lo.
O impacto emocional do erro repetido
Um dos aspectos mais negligenciados na prática pedagógica é o efeito emocional do erro. O aluno que erra repetidamente aprende algo — mas não o conteúdo. Aprende que não é capaz, que a escola não é para ele, que sua participação é arriscada.
Melo et al. (2014) são claros ao afirmar que erros não são neutros. Eles podem fortalecer comportamentos de evitação e comprometer a relação do estudante com o conhecimento. Nesse sentido, insistir em metodologias que dependem do erro como motor da aprendizagem pode ser pedagogicamente caro — e socialmente injusto.
Aquino (1997) converge com essa análise ao mostrar que o fracasso escolar frequentemente se cristaliza em identidades negativas atribuídas aos chamados “alunos-problema”, quando, na verdade, o problema está na lógica do ensino.
Ensino eficaz é ensino planejado
A defesa do ensino sem erro não é uma defesa da facilidade, mas da intencionalidade pedagógica. Exige do professor planejamento fino, análise das tarefas, sequenciação adequada dos conteúdos e acompanhamento sistemático do desempenho dos alunos.
Quando o ensino é bem programado, o erro deixa de ser protagonista e passa a ser exceção — não porque foi proibido, mas porque foi desnecessário.
Para o professor, isso representa uma mudança de paradigma: ensinar deixa de ser expor conteúdos esperando que o aluno “descubra”, e passa a ser organizar condições para que ele aprenda com sucesso.
Entre a cultura do erro e a ética do ensinar
Talvez o maior desafio da escola contemporânea seja abandonar a romantização do erro sem cair em práticas autoritárias ou punitivas. O ensino sem erro oferece um caminho ético e tecnicamente consistente: reduzir o sofrimento escolar, ampliar o acesso ao sucesso acadêmico e tornar o aprender uma experiência possível para todos.
Como provocação final, fica a pergunta: se sabemos que é possível ensinar com menos erro, menos frustração e mais aprendizagem, por que insistimos em métodos que produzem fracasso?
Folha de Florianópolis
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