“...uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos...”
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, Preâmbulo.
Entre janeiro e agosto de 2026, foram abertos 3,93 milhões de pequenos negócios no Brasil. No primeiro semestre, as micro e pequenas empresas registraram saldo de 543,5 mil empregos formais. Os números impressionam porque, por trás deles, há milhões de escolhas cotidianas de pessoas que assumem riscos e tentam melhorar a própria vida. Mas a quantidade de iniciativas não responde a uma pergunta que merece atenção. Estamos aprendendo apenas a começar novos negócios ou também a construir condições para que prosperem e permaneçam?
Essa inquietação alcança muito além da atividade empresarial. Em diferentes escalas, somos bons em anunciar começos. Gostamos dos planos, dos marcos inaugurais, das promessas de mudança. A continuidade costuma receber menos atenção, embora seja nela que aparecem os custos, as responsabilidades e a verdadeira qualidade das escolhas. A construção de uma sociedade também se revela na capacidade de sustentar o que vale a pena, corrigir o que não funciona e preservar conquistas depois que passa a novidade.
Acabamos de atravessar mais um período eleitoral conturbado. É compreensível que tanta atenção tenha se concentrado na disputa, nas propostas e nos resultados. A escolha de representantes importa. Mas o futuro do Brasil não se esgota em uma eleição, nem pode depender apenas da capacidade de um governo de fazer as coisas acontecerem. O desenvolvimento também nasce das decisões cotidianas de quem trabalha, educa, empreende, cuida de outras pessoas e administra recursos que não são exclusivamente seus.
É nesse ponto que a palavra nação me parece mais importante do que a palavra país. Temos um território, instituições, leis e uma história compartilhada. Ainda assim, a existência desses elementos não responde, por si só, à questão de como convivemos e do que estamos dispostos a construir juntos. Uma nação se reconhece também na disposição de assumir responsabilidades que ultrapassam o interesse imediato de cada pessoa ou grupo.
Isso não exige que sejamos iguais. Não precisamos votar nos mesmos candidatos, professar a mesma religião ou adotar uma interpretação única da vida. A diversidade de ideias, crenças e experiências produz conflitos reais, muitos deles necessários para questionar injustiças e corrigir rumos. O que precisamos examinar é se, no meio dessas diferenças, ainda conseguimos identificar algum compromisso com o futuro comum.
A Constituição brasileira oferece uma referência que merece ser lembrada. Entre os objetivos fundamentais da República, seu artigo 3º estabelece a construção de uma sociedade livre, justa e solidária e a garantia do desenvolvimento nacional. São compromissos amplos, sujeitos a interpretações e disputas legítimas sobre os melhores caminhos. Mas há algo importante nessa escolha. O desenvolvimento aparece como responsabilidade pública permanente, não como propriedade de uma corrente política ou promessa exclusiva de um mandato.
A convivência se deteriora quando cada divergência passa a ser tratada como uma ameaça à existência do outro. A vitória eleitoral de um grupo não deveria obrigar os demais a desejar o fracasso do país, assim como a derrota não deveria retirar de ninguém o direito de participar da construção coletiva. Podemos fiscalizar, contestar, protestar e cobrar mudanças sem transformar as dificuldades da sociedade em instrumentos de revanche. Essa talvez seja uma das provas mais exigentes de pertencimento a uma nação.
Um propósito comum não apaga desigualdades nem interesses em conflito. Invocar a unidade sem enfrentar as diferenças reais de acesso à educação, aos direitos e às oportunidades seria apenas uma forma de encobri-las. O desafio está em manter a possibilidade de disputar caminhos sem perder o compromisso com a vida coletiva.
Há uma semelhança entre esse desafio e uma confusão frequente na cultura empresarial contemporânea. Crescimento costuma ser celebrado como se fosse, por si mesmo, sinal de prosperidade. Uma empresa pode aumentar faturamento e estrutura enquanto perde capacidade de sustentar o próprio funcionamento. Pode parecer maior e estar mais vulnerável. Seu valor real depende também da qualidade das escolhas, da continuidade do trabalho e das condições de vida que ajuda a criar.
Com uma nação, a questão ganha outra escala. Precisamos de crescimento econômico, investimentos e inovação, mas os indicadores não descrevem sozinhos a qualidade do desenvolvimento. Mais atividade não garante automaticamente melhores relações sociais ou instituições confiáveis. Desprezar a produção, os empregos e a riqueza seria ignorar condições materiais indispensáveis à vida coletiva. A questão é o que conseguimos construir e preservar com aquilo que produzimos.
Esse trabalho não acontece apenas nos gabinetes. A maneira como tratamos as regras comuns, como reconhecemos os direitos de quem pensa diferente e como reagimos quando nossos interesses deixam de prevalecer também participa da formação de uma nação. O comportamento cotidiano não substitui políticas públicas, instituições competentes ou investimentos bem planejados. Ele lhes dá sustentação social e, quando necessário, a pressão crítica para que melhorem.
Talvez por isso a pergunta que me acompanha, depois de tantas discussões sobre o futuro do Brasil, seja menos sobre quem venceu e mais sobre quem estamos nos tornando. Que povo somos nós? Conseguimos discordar profundamente sem perder a responsabilidade por aquilo que compartilhamos?
Temos, sem dúvida, um Brasil para fazer crescer. Mas esse crescimento merece ser pensado como obra de uma sociedade inteira, construída ao longo do tempo, entre conflitos, escolhas, erros e correções. Nenhuma eleição entrega uma nação pronta. Cada geração participa da tarefa de torná-la mais capaz de conviver, produzir e oferecer perspectivas melhores à seguinte. O que faremos com essa responsabilidade dirá mais sobre a nação que somos do que qualquer discurso de vitória.
Jogo que segue...
Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
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X @augustodias
Folha de Florianópolis
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