Durante anos ouvimos e repetimos que o povo reflete os políticos, como se a corrupção tivesse nascido em Brasília e depois contaminado o resto do país. Mas a verdade é o contrário, por mais doloroso que seja admitir. Os políticos refletem o povo. Eles saíram das urnas e das nossas casas.
A corrupção que assola o Brasil não começou nos gabinetes. Começou nas ruas, nos mercados, nos hospitais, nas repartições públicas. Começou no atestado médico falso, no desconto sem nota fiscal, naquele "só dessa vez" que nunca é só uma vez. O Congresso Nacional não é um acidente. É uma consequência.
O brasileiro aprendeu a admirar o malandro e a desprezar quem é honesto. O jeitinho virou virtude, e seguir as regras virou coisa de otário. Sonegar é ser esperto. Subornar é ter habilidade. Fingir que trabalha é um costume.
Não dá para esperar políticos honestos de um povo que aplaude quem trapaceia e ri de quem cumpre a lei. O eleitor que troca seu voto por uma cesta básica ou um favor não tem moral para reclamar quando o político que elegeu é preso por roubar.
A verdade que dói é esta. O brasileiro não é vítima do sistema. É cúmplice. Reclama da corrupção na TV, mas comemora quando o conhecido consegue se aposentar fraudando o INSS. Fala de ética, mas dá propina ao guarda para escapar da multa. Quer justiça, desde que não seja contra ele.
Ficamos revoltados com a impunidade dos poderosos, mas sorrimos quando o parente resolve um problema através de pistolão. Condenamos os escândalos de corrupção, mas compramos produto pirata sem pensar duas vezes. Dizemos uma coisa e fazemos outra. É nessa distância entre palavra e ação que a democracia apodrece.
Hoje no Brasil tudo virou negociável. A lei, a moral, a verdade. Trocamos o que é certo pelo que é conveniente, não porque acreditamos nisso, mas porque temos medo do que vão pensar de nós. Quando tudo pode ser relativizado, nada mais tem valor.
No dia a dia, o vale-tudo virou regra. Estacionar em vaga de idoso. Furar o sinal quando ninguém está olhando. Copiar trabalho da internet. Dar troco errado de propósito. As pequenas desonestidades foram aceitas como normais, e isso abriu caminho para as grandes.
Continuamos esperando que apareça um salvador da pátria, alguém que vai limpar toda a sujeira. Mas não existe como construir um país sério em cima de gente desonesta. Não existe Congresso limpo vindo de povo sujo. Não se elege gente decente numa cultura que idolatra bandido.
A mudança de verdade só vai começar quando o brasileiro parar de achar graça do jeitinho, de passar a mão na cabeça do amigo desonesto, de tratar trapaça como se fosse esperteza. Quando ser honesto voltar a ser motivo de orgulho, não de piada.
Até lá, vamos continuar tendo exatamente os políticos que merecemos.
FONTE/CRÉDITOS (IMAGEM DE CAPA): Brasilianismo – Uol
Folha de Florianópolis
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