Abro esse artigo com uma citação: “Pois no fundo, é sobretudo mas coisas mais profundas e importantes, estamos indizivelmente sós,'' de Rainer Maria Rilke, in 'Cartas a um Jovem Poeta'.
Projeções baseadas em dados do Morgan Stanley indicam que cerca de 45% das pessoas estarão solteiras e sem filhos até 2030. Autores já denominam nossos dias como o Século da solidão.
Os relacionamentos, líquidos, superficiais e vulgares parecem agora evoluir para “o vazio do eu” sem perspectiva emocional. Ter sentimento passou a ser indesejável. O amor, ou simplesmente o sexo, não oferece conforto; ao contrário, tornou-se fonte de insatisfação, insaciedade, urgência por mais conquistas para falsear o desespero oculto da mente mergulhada no abismo do eu. Vive-se a era do relacionamento descartável : um usa o outro enquanto há algum proveito pessoal; depois joga-se fora. O ciclo de relacionamentos superficiais descartáveis se perpetua como disfarce da morte emocional em solidão. Ao se confundir amor com excitação constante não se criam vínculos pois a pessoa permanece presa ao próprio descontrole interno.
Relacionamentos - quaisquer- esbarram na barreira dos conflitos. O momento mais importante entre duas pessoas não é a química inicial, nem a animação repentina é repetida. Ao contrário, a maturidade entre duas pessoas depende unicamente da disposição e capacidade de enfrentar sem fuga a fase de conflito. Atravessar juntos a adversidade de cada um é um segredo simples, porém ignorado. Sob a desculpa de preservar e ostentar poder pessoal, ego, posicionamento, a arrogância resultante soa mais alto que a necessidade. Maturidade emocional entende e reconhece que a fragilidade das partes é a instância cabal da afetividade verdadeira. Assumir medo, inseguranças , angústias no relacionamento não é fraqueza: é o sinal mais forte de confiança no outro. É no momento de vulnerabilidade exposta que a validação por parte do outro é a ação precisa e necessária. Porém, construiu-se uma sociedade mecânica, fria e insensível em que gesto de aceitação, em que saber ceder na hora certa para o bem estar de ambos, demostrar gesto de carinho e atenção tornaram-se repugnantes aos olhos inconsequentes dos discursos que pregam a inutilidade do amor, a negação da convivência amorosa, o rompimento de vínculos estáveis e confiáveis.
E onde o sentimento, o amor, o respeito pela carência do outro são abominados não é a liberdade nem a auto-suficiência que assumem. O que impera é o tereno inconsciente da falta e suas sequelas: quem abandona no fundo reveja sua frustração oprimida, dor negada, ódio por si mesmo! O narcisista não se ama . Ele se odeia!
No esfacelamento do sentimento interpessoal germinam o fala do ódio, a agressão, a crueldade. Há uma fase em qualquer relacionamento em que perceber e acolher a vulnerabilidade do outro não é tornar-se fraco; ao contrário, é provar ser forte o bastante para jamais largar a mão, jamais deixar ir, jamais perder-se na arrogância, jamais perder-se na mentira de querer ser mais forte que o outro. Saber acolher na hora do desespero do outro é o que torna um homem um homem e uma mulher uma mulher.
O resto é isso : solidão insaciável contabilizada em conquistas fulgazes. O “eu te uso e te descarto” corrói, porque perde-se o que tornaria o ser mais humano, real e forte.
O inferno não são ou outros: o inferno é o ego prepotente que não enxerga a entrega do outro. Do indiferente, ao incapaz de amor, ao imbatível diante de um mundo em guerra, a única certeza é a solidão e a falta imensa de quem é incapaz de amar.
Como cita Fernando Namora, “o amor é fundamentalmente uma inocência”.
Carmem Teresa Elias
Folha de Florianópolis
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