Com a reeleição confirmada, o governo federal terá entre os desafios do próximo mandato reduzir a vulnerabilidade do Brasil ao mercado internacional de combustíveis. O país bate recordes de produção de petróleo, mas continua importando parte do diesel que abastece o transporte de cargas e a produção agrícola. Para Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas, o governo reeleito deve aproveitar as receitas do setor para avançar na diversificação energética.
“O Brasil ganha com a produção de petróleo, mas permanece exposto aos choques de preços desse mesmo mercado. O desafio no próximo mandato será aproveitar essa riqueza para diminuir a dependência que afeta o frete, os alimentos e a competitividade da economia”, afirma.
Em agosto de 2026, a produção brasileira de petróleo alcançou 4,6 milhões de barris por dia, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em outubro, o Ministério da Fazenda informou que cerca de um terço do diesel consumido no país era importado. A expansão da produção do pré-sal não foi acompanhada, no mesmo ritmo, pela capacidade nacional de refino.
Daza ressalta que ampliar o refino pode contribuir para a segurança do abastecimento e a substituição de derivados importados, desde que os projetos apresentem viabilidade econômica. Para reduzir também a dependência dos combustíveis fósseis, porém, será necessário avançar em eficiência no transporte de cargas, biocombustíveis sustentáveis e alternativas como o biometano.
“Produzir mais derivados no Brasil ajuda a reduzir a necessidade de importação. Diminuir o consumo de diesel fóssil exige também mudanças na forma de movimentar a economia. As duas agendas precisam caminhar juntas”, explica.
O especialista cita o Relatório Síntese do Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, divulgado para consulta pública pelo Ministério de Minas e Energia e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O documento projeta dependência externa de cerca de 25% para o diesel em 2036, apesar da expansão do refino.
Na avaliação de Daza, intervenções temporárias para proteger o abastecimento podem ser necessárias, mas devem vir acompanhadas de metas de redução da vulnerabilidade. Ele propõe que a continuidade das subvenções seja associada à divulgação de indicadores, como a participação do diesel importado no consumo nacional, a concentração de fornecedores e a cobertura dos estoques.
O financiamento público de combustíveis avançados também deve apresentar resultados verificáveis, incluindo os volumes de diesel fóssil substituídos e a redução de emissões dos projetos em operação. Para empreendimentos em implantação, o acompanhamento pode apresentar estimativas, diferenciando-as dos resultados já alcançados.
“O petróleo continuará relevante para o desenvolvimento brasileiro. A oportunidade está em usar os benefícios dessa produção para preparar o país para uma economia menos vulnerável às crises internacionais”, conclui.
Eric Fernando Boeck Daza é especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas, com mais de 15 anos de experiência e atuação em projetos em mais de 20 países. É assessor da LAC Clean Hydrogen Action Alliance, aliança voltada ao desenvolvimento do hidrogênio de baixas emissões na América Latina e no Caribe, e consultor da Meridian Climate & Energy Advisory.

Folha de Florianópolis
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