Bonito, mas alguém entendeu?
Vivemos em uma época em que tudo precisa ser bonito.
O feed precisa ser bonito. A embalagem precisa ser bonita. A loja precisa ser bonita. O vídeo precisa ter uma boa estética. A fotografia precisa estar bem enquadrada. A identidade visual precisa combinar. Até o café que tomamos parece precisar estar pronto para uma fotografia.
E não há nada de errado com isso. A estética importa. A arte importa. O design importa. O problema começa quando confundimos ser bonito com comunicar.
Na publicidade, existe uma diferença enorme entre uma peça que chama atenção e uma peça que consegue transmitir uma mensagem. Uma arte pode ser impecável, ter uma tipografia sofisticada, uma fotografia incrível e uma composição digna de portfólio. Mas, se depois de olhar para ela ninguém sabe o que aquela empresa oferece, para quem oferece ou por que aquilo deveria importar, alguma coisa deu errado.
Comunicação não termina no “ficou bonito”.
Aliás, talvez esse seja um dos grandes desafios da comunicação atualmente: estamos cercados por imagens, textos, vídeos, anúncios, notificações, stories, reels, podcasts e mensagens. Nunca produzimos tanto conteúdo. Nunca tivemos tantas ferramentas para falar. E, ainda assim, muitas vezes temos a sensação de que estamos nos comunicando cada vez menos.
Estamos falando demais e prestando atenção de menos.
Todos os dias recebemos centenas de estímulos. Uma marca quer vender alguma coisa, um influenciador quer nossa atenção, uma empresa quer divulgar uma promoção, um amigo quer conversar, uma notícia quer ser lida. Tudo parece urgente. Tudo parece precisar de alguns segundos da nossa atenção.
Nesse cenário, simplesmente aparecer já não é suficiente.
Uma empresa pode publicar todos os dias e continuar sendo esquecida. Pode investir em uma identidade visual bonita e não construir uma marca. Pode produzir vídeos todos os dias e não ter nada relevante para dizer.
Porque comunicação não é apenas presença. É intenção.
Talvez por isso algumas campanhas simples sejam mais memoráveis do que produções milionárias. Algumas marcas conseguem dizer uma coisa com uma frase, enquanto outras precisam de dez posts, três vídeos e um carrossel para explicar o que queriam dizer.
E isso vale para muito além da publicidade.
Pense em uma placa de sinalização. Ela não precisa ser artisticamente revolucionária. Precisa ser compreendida.
Pense em uma embalagem. Ela pode ser linda, mas também precisa informar.
Pense em uma empresa. Ela pode ter um excelente produto, mas precisa conseguir explicar por que alguém deveria escolhê-la.
Pense até nas nossas próprias redes sociais. Às vezes, passamos tanto tempo tentando construir uma imagem que esquecemos de construir uma mensagem.
A estética pode fazer alguém parar.
A comunicação precisa fazer essa pessoa entender.
E talvez exista ainda uma terceira etapa: fazer com que ela se lembre.
É aí que publicidade, arte e comunicação se encontram. A estética não é inimiga da estratégia. Muito pelo contrário. Uma boa comunicação pode — e deve — ser bonita. Mas a beleza precisa estar a serviço de alguma coisa.
Uma cor pode despertar uma sensação. Uma fotografia pode contar uma história. Uma tipografia pode transmitir personalidade. Um anúncio pode provocar uma emoção. O design pode facilitar uma escolha.
Quando tudo isso acontece junto, o resultado deixa de ser apenas bonito. Ele passa a ter significado.
Talvez a pergunta que deveríamos fazer antes de publicar qualquer coisa não seja apenas “está bonito?”.
Talvez seja: “o que eu quero que alguém entenda depois de ver isso?”
Porque, no fim, comunicar não é ocupar espaço.
É deixar alguma coisa depois que a atenção passa.
E, em um mundo onde todos querem ser vistos, talvez a verdadeira diferença esteja justamente em conseguir ser compreendido.
Folha de Florianópolis
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