Ao longo da história, o poder foi uma categoria fluida, moldada por força, riqueza, informação e tecnologia. Nas sociedades antigas, sua origem esteve fundamentalmente associada ao domínio físico e militar. Impérios como Egito, Roma e China consolidaram‑se graças à capacidade de organizar exércitos e controlar territórios. A força — bruta ou estrategicamente aplicada — era vista como o instrumento legítimo para ordenar sociedades e determinar quem governava. Nesse período, o poder era tangível, material e diretamente associado à violência institucionalizada.
Na Idade Média, a centralidade do poder deslocou‑se significativamente para o campo simbólico. O controle espiritual e moral desempenhado por instituições religiosas conferiu às autoridades eclesiásticas um papel crucial na legitimação do domínio. A nobreza mantinha a força militar, mas dependia da igreja para justificar linhagens, ordens e a própria ideia de autoridade divina. O poder tornou‑se menos físico e mais narrativo: quem dominava a crença, dominava as massas. Assim, o discurso religioso funcionou como tecnologia social que organizava comportamentos, legitimava governantes e estruturava a vida cotidiana.
Com o advento da modernidade, o poder migrou novamente de eixo. Os Estados nacionais e o capitalismo consolidaram o protagonismo da burguesia, das corporações nascentes e do capital financeiro. A Revolução Industrial multiplicou a escala produtiva e conferiu às empresas — antes entidades acessórias — um papel central na vida humana. O poder passou a se expressar pelo controle sobre os meios de produção, transporte e energia. A riqueza industrializada permitiu que empresários influenciassem governos, moldassem políticas públicas e orientassem a modernização das sociedades. A maximização da eficiência tornou‑se o novo dogma.
No século XX, a expansão dos meios de comunicação de massa inaugurou uma forma inédita de poder: o controle da atenção. O rádio, a televisão e, mais tarde, a internet transformaram‑se em arenas de influência capazes de construir consensos, alterar percepções e redefinir identidades. O poder simbólico — antes monopolizado pela religião — agora era disputado por conglomerados midiáticos e especialistas em comunicação. Em paralelo, governos e indústrias ampliaram seu alcance por meio de sistemas burocráticos complexos, dando origem à tecnocracia moderna: uma forma de gestão baseada em conhecimento especializado e na autoridade técnica.
No século XXI, essa lógica tecnocrática se entrelaçou com a revolução digital de forma profunda. As BigTechs emergiram como instituições sem precedentes, acumulando simultaneamente dados, infraestrutura, capacidade computacional, inteligência artificial e capital global. Diferentemente das empresas industriais, que dependiam de recursos físicos, as corporações digitais passaram a operar sobre informações — o novo recurso estratégico da humanidade. Seus produtos tornaram‑se ubíquos, suas plataformas mediam relações sociais, econômicas e culturais, e seus algoritmos passaram a influenciar comportamentos, preferências e fluxos de informação. O poder migrou para mãos que dominam a infraestrutura invisível que sustenta a vida contemporânea.
É nesse cenário que muitos estudiosos apontam o surgimento de uma nova tecnocracia, na qual proprietários e líderes de BigTechs ocupam posição estratégica na arquitetura do mundo digital. Seu poder decorre não apenas de riqueza, mas da capacidade de moldar sistemas, ferramentas e ambientes onde bilhões de pessoas vivem, interagem e produzem valor. À diferença dos imperadores, sacerdotes, industriais ou magnatas do século XX, esses novos atores detêm um tipo de poder difuso e silencioso: o poder estrutural, exercido por meio de plataformas que mediam a própria realidade social. Se o passado foi definido por quem controlava terras, exércitos ou fábricas, o futuro pode muito bem ser moldado por quem controla dados, códigos e inteligências artificiais — os pilares da tecnocracia digital emergente.
Folha de Florianópolis
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