Fala-se muito sobre a “geração empreendedora”. Nas redes sociais, jovens aparecem criando startups, abrindo marcas próprias, vendendo soluções digitais e exibindo resultados quase instantâneos. A narrativa é sedutora: basta ter uma boa ideia, coragem e força de vontade. Mas a realidade, fora dos vídeos motivacionais, costuma ser bem mais dura.
Empreender no século XXI não é apenas criar um negócio. É disputar espaço em um mercado saturado, instável e altamente competitivo. Para o jovem, essa disputa começa antes mesmo do primeiro produto existir: falta capital, sobra desconfiança. Bancos exigem garantias que ele não tem; investidores preferem quem já errou, já venceu e já tem histórico. O jovem, em geral, só tem uma coisa: vontade.
Há também a barreira do conhecimento. O discurso meritocrático sugere que basta “se qualificar”, mas pouco se fala sobre o custo dessa qualificação. Cursos, mentorias e capacitações se tornaram produtos caros. Quem vem de contextos periféricos enfrenta não apenas a escassez de recursos, mas também a ausência de redes de contato, um fator silencioso, porém decisivo. No empreendedorismo, saber fazer é importante, mas saber quem conhece quem costuma pesar ainda mais.
Outro obstáculo pouco debatido é a pressão psicológica. O jovem empreendedor carrega a expectativa de ser inovador, produtivo e resiliente ao mesmo tempo. Precisa falhar rápido, aprender rápido e crescer rápido. Mas ninguém ensina como lidar com a frustração quando o projeto não dá certo, com o medo de decepcionar a família ou com a culpa por não conseguir “vencer” no tempo prometido pelos gurus digitais.
Além disso, há o conflito entre sobrevivência e sonho. Muitos jovens empreendem não por vocação, mas por falta de opção. Em um mercado de trabalho precarizado, empreender vira estratégia de sobrevivência, não de realização. Vende-se a ideia de liberdade, mas, na prática, o que se vê é informalidade, jornadas exaustivas e ausência de direitos.
Nada disso significa que o jovem não deva empreender. Significa apenas que precisamos abandonar a romantização do processo. Empreender jovem no século XXI exige coragem, mas também políticas públicas, acesso real ao crédito, educação financeira desde cedo e espaços de formação que não sejam privilégio de poucos.
Talvez o maior desafio não seja abrir empresas, mas construir caminhos mais justos para que o empreendedorismo não seja um jogo em que alguns largam quilômetros à frente. Enquanto tratarmos o sucesso como mérito individual e o fracasso como culpa pessoal, continuaremos ignorando os muros invisíveis que cercam os sonhos de quem está apenas começando.
Empreender jovem é, sim, um ato de ousadia. Mas também é um pedido coletivo: menos discurso motivacional e mais estrutura. Menos palco para histórias excepcionais e mais chão para trajetórias possíveis.
Folha de Florianópolis
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