“Sambar é chorar de alegria / É sorrir de nostalgia” — Noel Rosa e Vadico, Feitio de Oração (1933)
“Não deixe o samba morrer
Não deixe o samba acabar”
Hoje uma canção atravessou meu café da manhã. Não Deixe o Samba Morrer, eternizada na voz de Alcione, me fez pensar além da canção e da voz. Logo vieram Cartola, Nelson Cavaquinho, Bezerra da Silva e outros tantos nomes que ajudaram a construir uma das expressões mais extraordinárias da cultura brasileira. O samba. Em determinado momento, percebi que minha atenção já não estava apenas nas melodias. Estava nas palavras e nas estrofes.
Havia uma riqueza na maneira como aqueles compositores construíam seus versos. Não necessariamente por utilizarem um vocabulário sofisticado ou palavras rebuscadas, mas pela inteligência com que organizavam sentimentos, acontecimentos e experiências. Uma desilusão amorosa podia se transformar numa reflexão sobre a vida. Uma conversa de esquina podia revelar a desigualdade social. Uma história aparentemente banal podia conter humor, crítica social e uma observação precisa sobre o comportamento humano.
O samba nasceu com a capacidade de transformar a vida cotidiana em poesia e a mantém até hoje. Cartola, em O Mundo É um Moinho, não se limita a lamentar uma escolha ou advertir alguém sobre os perigos da vida. Constrói uma imagem que permite ao ouvinte compreender a fragilidade das ilusões e a força das circunstâncias. Nelson Cavaquinho, em Juízo Final, transforma a esperança numa visão poética de renovação. São composições que dizem muito mais do que aquilo que suas palavras, isoladamente, parecem dizer.
E havia também Bezerra da Silva, intérprete de compositores que conheciam profundamente a linguagem das ruas. Seu repertório demonstrava que a malandragem, o humor e a gíria podiam carregar uma inteligência narrativa admirável. Não era preciso abandonar a fala popular para produzir arte. Ao contrário, era justamente daquela linguagem que surgiam personagens, conflitos, ironias e histórias que dificilmente encontrariam espaço em outras formas de expressão.
Aqueles compositores utilizavam o conhecimento adquirido na vida para interpretar o mundo e produzir arte. Essa talvez seja uma das características mais bonitas do samba brasileiro. Sua poesia não dependia de diplomas, títulos ou reconhecimento acadêmico. Nascia da observação, da convivência, da memória, das dificuldades e das alegrias de pessoas que conheciam profundamente a realidade sobre a qual escreviam. Era uma literatura construída também pela oralidade, pela experiência e pela capacidade de perceber aquilo que muitas vezes passava despercebido aos demais.
Quando penso nessa tradição e observo parte da música que hoje ocupa os espaços de maior visibilidade, sinto uma diferença difícil de ignorar. Não me refiro à qualidade das vozes, dos arranjos ou da produção musical. Tampouco acredito que os bons compositores tenham desaparecido. Continuam por aí, capazes de escrever versos extraordinários, inclusive entre as novas gerações. Minha inquietação está na frequência com que encontramos, entre os grandes sucessos, letras construídas sobre expressões previsíveis, ideias pouco desenvolvidas e refrões que parecem existir apenas para serem repetidos. Aquilo que se costuma chamar de “música pra pegar”.
A repetição sempre fez parte da música popular. O próprio samba construiu momentos memoráveis com refrões simples. Mas existe uma diferença entre a simplicidade que alcança a beleza e a facilidade que parece dispensar qualquer elaboração. Uma frase pode ser curta e conter uma vida inteira. Também pode ser curta porque não tem muito a dizer.
Talvez estejamos diante de uma mudança nos critérios pelos quais a música conquista espaço. A indústria musical sempre procurou o sucesso comercial, mas hoje consegue identificar, quase instantaneamente, o que atrai atenção e conquista o público. Nesse ambiente, uma composição que exige escuta e interpretação pode encontrar dificuldades para competir com aquilo que provoca uma reação imediata.
Seria confortável atribuir toda a responsabilidade ao mercado. Mas o mercado não existe fora da sociedade. As pessoas que compõem, produzem, divulgam, financiam e consomem essas músicas são as mesmas que encontramos no trabalho, nas famílias e entre os amigos. Compartilham hábitos, referências e expectativas. A indústria influencia preferências, evidentemente, mas também procura identificar e atender ao que encontra receptividade. Há uma relação de mão dupla entre aquilo que se oferece e aquilo que aprendemos a desejar.
Por isso, a pergunta que me interessa não é apenas por que determinadas letras se tornam sucessos comerciais. É por que uma sociedade que continua capaz de produzir grandes compositores parece oferecer tanta visibilidade a letras de elaboração tão limitada.
Há algum tempo me inquietam as mudanças na relação que mantemos com a leitura, com a linguagem e com o conhecimento. Ler, interpretar e reconhecer nuances exigem exercício, assim como a sensibilidade para encontrar poesia numa canção. Talvez não estejamos perdendo a capacidade de compreender a riqueza das palavras, mas o hábito de procurá-la.
Talvez minha decepção contenha alguma saudade. Saudade de ouvir uma canção e encontrar nela uma história, uma imagem inesperada, uma frase capaz de permanecer conosco muito depois de a música terminar. Saudade de quando um compositor conseguia falar de amor, sofrimento, injustiça ou esperança sem precisar reduzir tudo à expressão mais óbvia.
Não tenho a pretensão de determinar o que as pessoas devem ouvir. A música também existe para divertir, dançar, celebrar e simplesmente acompanhar a vida. Nem toda canção precisa carregar uma reflexão profunda. Mas uma sociedade que produziu tanta poesia popular deveria, ao menos, continuar reconhecendo o valor dessa capacidade.
Quando escuto aquelas letras, não sinto apenas falta de determinados versos, mas da riqueza que revelavam na maneira de observar e contar a vida. Talvez seja isso que mais me entristeça. Não a possibilidade de o samba morrer, mas a de continuarmos ouvindo música sem perceber o quanto de poesia estamos deixando de viver.
Jogo que segue…
Guga Dias
Arquiteto de Mentalidade e Mentor
Advogado Especialista em Propriedade Intelectual
CEO do GDN | Posicionamento, Estratégia e Performance Empresarial
Instagram @gugavdias
X @augustodias
Fontes consultadas
Iphan. Matrizes do samba no Rio de Janeiro: partido-alto, samba de terreiro, samba-enredo (2014).
https://bibliotecadigital.iphan.gov.br/items/f10c8eeb-ff29-48b0-8c92-d12f38a01fa9
Noel Rosa e Vadico. Feitio de Oração. Letra e créditos da epígrafe.
https://www.vagalume.com.br/noel-rosa/feitio-de-oracao.html
Dicionário Cravo Albin. Edson Conceição. Crédito de Não Deixe o Samba Morrer e gravação por Alcione (1975).
https://dicionariompb.com.br/artista/edson-conceicao/
IMMuB. Cartola (1976). Crédito de O Mundo É um Moinho.
https://immub.org/album/cartola-3
Folha de Florianópolis
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