Depois de 17 anos sem concurso público, Santa Catarina se prepara para reforçar uma das carreiras estratégicas para o funcionamento do Estado. A Secretaria de Estado da Fazenda (SEF/SC) avançou na preparação de um novo concurso para o cargo de Auditor Estadual de Finanças Públicas, com a Fundação Carlos Chagas (FCC) já definida como banca organizadora.
O concurso prevê, inicialmente, 50 vagas imediatas, além de cadastro de reserva. Para o presidente do Sindicato dos Auditores Estaduais de Finanças Públicas de Santa Catarina (Sindaf-SC), Sandro Medeiros Alves, a seleção representa uma conquista importante para a categoria e, sobretudo, uma oportunidade de recompor uma estrutura essencial à gestão dos recursos públicos catarinenses.
“Nós estamos há 17 anos entregando mais com menos”, afirma Sandro, que é Auditor Estadual de Finanças Públicas há 16 anos. Segundo ele, o Sindaf-SC vem atuando ao longo dos últimos anos, junto a diferentes governos, para demonstrar a necessidade de renovação da carreira e ampliar o quadro de servidores.
Atualmente, a carreira conta com 104 auditores ativos, enquanto a legislação prevê 200 vagas. Por isso, o sindicato pretende continuar trabalhando para que, além das 50 vagas inicialmente autorizadas, o cadastro de reserva seja aproveitado e o quadro previsto em lei seja preenchido.
“Nós vamos batalhar para que as 200 vagas sejam preenchidas com brevidade”, destaca o presidente do Sindaf-SC.
Uma carreira que está no coração da máquina pública
Embora muitas vezes menos conhecida do público em geral, a carreira de Auditor Estadual de Finanças Públicas ocupa uma posição central na engrenagem do Estado.
Se os auditores fiscais e analistas da Receita Estadual atuam diretamente na arrecadação tributária, os Auditores Estaduais de Finanças Públicas entram em cena na etapa seguinte: planejar, organizar, executar, acompanhar e controlar a gestão dos recursos que chegam aos cofres públicos.
Na prática, esses profissionais atuam em áreas como orçamento público, Tesouro, contabilidade, informações fiscais, dívida pública, cumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal e prestação de contas. É um trabalho que está diretamente relacionado à capacidade do Estado de financiar políticas públicas e garantir que recursos cheguem a áreas essenciais como saúde, educação, segurança e infraestrutura.
“Se nós, enquanto auditores de finanças, não fizermos a nossa atividade, os recursos não saem do caixa, as secretarias de Estado não recebem recursos e os servidores não recebem o seu salário, pois a folha de pagamento do Estado de Santa Catarina também é organizada e paga pelo Tesouro”, explica Sandro.
Resultado que ultrapassa os números
A atuação dos auditores também produz resultados concretos para os cofres públicos. Um dos exemplos citados por Sandro é o trabalho realizado a partir de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que permitiu aperfeiçoar o sistema financeiro do Estado para que o Imposto de Renda Retido na Fonte sobre pagamentos realizados pelo poder público permanecesse em Santa Catarina.
A partir da estruturação do sistema de gestão financeira do Estado, o mecanismo passou a ser aplicado nas secretarias e órgãos estaduais. Segundo Sandro, a receita relacionada a essa operação cresceu mais de 500% entre 2023 e 2024.
O caso, segundo ele, demonstra justamente por que a carreira reúne profissionais de diferentes áreas do conhecimento.
Cinco formações para uma mesma missão
O novo concurso contempla profissionais formados em Ciências Contábeis, Computação, Direito, Administração, Engenharia e Ciências Econômicas.
A diversidade não é por acaso. A gestão das finanças públicas exige conhecimento multidisciplinar para analisar dados, interpretar legislação, desenvolver sistemas, avaliar políticas públicas, projetar cenários e garantir a legalidade e a eficiência na aplicação dos recursos.
“Várias áreas do conhecimento na mesma sala, pensando nessa engrenagem que nós atendemos depois da arrecadação para a gestão das finanças públicas”, resume Sandro. Para o presidente do Sindaf-SC, essa combinação de competências é um dos diferenciais da carreira e ajuda a explicar por que os auditores são profissionais cada vez mais demandados dentro da administração pública.
Santa Catarina é referência nacional
O trabalho da carreira também tem reflexos na relação de Santa Catarina com a União.
De acordo com Sandro, os dados fiscais e contábeis produzidos e consolidados pela área contribuem para que o Estado mantenha nota A na qualidade da informação contábil e fiscal, além de influenciarem indicadores como a Capacidade de Pagamento (CAPAG).
Esses resultados são fundamentais para preservar a credibilidade fiscal de Santa Catarina e sua capacidade de acessar transferências voluntárias e outros recursos federais. “Tudo isso é fruto das informações que nós apuramos diariamente e consolidamos”, afirma.
Concurso chega em momento de grandes transformações
Além da necessidade de recomposição do quadro, o novo concurso ocorre em um momento de profundas mudanças na administração pública e nas finanças estaduais.
Entre os desafios apontados pelo Sindaf-SC estão os impactos da Reforma Tributária, a incorporação responsável da inteligência artificial na administração pública e a necessidade permanente de qualificação dos servidores.
A Reforma Tributária, em especial, deverá produzir efeitos sobre o orçamento, o Tesouro e a contabilidade pública, exigindo capacidade técnica para adaptar a gestão financeira do Estado às novas regras.
“A Reforma Tributária também é um dos desafios para a carreira, pois vai mudar, vai mexer com o orçamento, vai mexer com Tesouro, contabilidade, toda forma como hoje nós trabalhamos”, explica Sandro.
Expectativa de edital nos próximos meses
A comissão responsável pelo concurso trabalha sob sigilo, e o Sindaf-SC ressalta que informações oficiais devem ser aguardadas por meio dos canais institucionais.
A expectativa, porém, é positiva. Segundo Sandro, a perspectiva trabalhada pela categoria é de que o edital seja publicado nos próximos 30 a 60 dias. Depois da publicação, a expectativa mencionada na entrevista é de que as provas possam ocorrer em um intervalo relativamente curto, diante da necessidade de recomposição do quadro.
Para quem pretende disputar uma das vagas, a recomendação é não esperar o edital para começar a preparação. A área fiscal exige estudo de médio e longo prazo, e Sandro reforça justamente a dimensão e a responsabilidade da carreira.
Mais do que um concurso, o Sindaf-SC considera a seleção uma oportunidade de renovar uma carreira essencial para o Estado e fortalecer a capacidade técnica de Santa Catarina para administrar os recursos que pertencem a todos os catarinenses. “Nós queremos que os novos colegas tragam energia, conhecimento e motivação, para que possamos continuar entregando essa excelência em gestão das finanças públicas que faz de Santa Catarina uma referência nacional”, conclui Sandro Medeiros Alves.

Folha de Florianópolis
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